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Mudança no Ipea indica novo rumo para a política econômica de Lula

Movimento prioriza o desenvolvimento e um ajuste fiscal mais gradual, mas mantém BC independente

Ribamar Oliveira e Sérgio Gobetti, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

A mudança recente no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com a substituição de diretores e exclusão de alguns economistas, é mais uma componente da nova orientação econômica do governo no segundo mandato do presidente Lula, informaram ontem fontes oficiais ouvidas pelo Estado. "Estamos vivendo um ponto de inflexão na política econômica", disse uma importante autoridade.A nova política abandona explicitamente as reformas estruturais defendidas pelo ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci e o seu plano de ajuste fiscal de longo prazo, com redução das despesas correntes. E concentra os esforços governamentais na definição de estratégias de desenvolvimento, nas quais o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) é considerada a peça fundamental. "Nesse novo cenário, o ajuste fiscal deve ser mais gradual", afirma um assessor da Fazenda.Esse movimento na área econômica tem, no entanto, uma limitação. O presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, continuará executando a sua política de juros de forma independente, embora possa vir a ser objeto de críticas ainda mais acirradas de parte da ala mais à esquerda do PT. "A blindagem do BC é feita pelo próprio presidente Lula", disse outra fonte. "O presidente não quer inflação, e o Meirelles conhece bem seus temores."Os setores mais críticos ao BC avaliam que a alta taxa de juros limita a política de crescimento e cria uma bomba-relógio, pelos seus efeitos sobre a taxa de câmbio, mas reconhecem a habilidade demonstrada recentemente por Meirelles, ao trocar três diretores e ter colocado nos cargos funcionários da própria instituição. "Ele se antecipou a qualquer crítica e, ao estilo de Lampedusa, mudou para deixar tudo igual", disse uma fonte, ao lembrar o escritor italiano Giuseppe Tomasi di Lampedusa que, no romance O Leopardo, celebrizou a frase: "Tudo deve mudar para que tudo fique como está".O economista Fábio Giambiagi, afastado do Ipea, e o economista Paulo Levy, retirado do cargo de diretor de Macroeconomia da instituição, foram os dois principais assessores do ex-ministro Palocci e do ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, na configuração de uma política fiscal de longo prazo. Essa política previa a redução do ritmo de crescimento das despesas públicas, que deveriam crescer menos que a economia.Com isso, a longo prazo, o governo abriria espaço fiscal para aumentar os investimentos e reduzir a carga tributária. Essa estratégia seria implementada com a realização de algumas reformas estruturais, entre as quais a mudança das regras da Previdência Social.Mesmo depois da saída de Palocci do Ministério da Fazenda, Giambiagi e Levy continuaram defendendo as mesmas teses nos boletins do Ipea. O governo arquivou esse discurso e a saída de Giambiagi e Levy explicita isso, segundo uma fonte.A preocupação do governo agora é "pensar o crescimento". Neste momento, o Ipea está discutindo com universidades e outros institutos de pesquisa do País para definir uma agenda, informou ao Estado o presidente da instituição, Márcio Pochmann. "Estamos num processo de constituição de uma agenda do desenvolvimento." "A questão fiscal está junto, mas o nosso objetivo é ampliar essa agenda para colocar ênfase na discussão de longo prazo. Mudou a ênfase." Por causa dos problemas conjunturais, disse Pochmann, o Brasil estava consumido numa visão de curto prazo. "Não queremos concentrar nossas atenções no curto prazo, pois o nosso compromisso maior será olhar o Brasil dos próximos anos." Segundo ele, a economia global apresenta movimentações e tendências que precisam ser considerados por um instituto como o Ipea, que deve olhar o longo prazo.Ontem, o sindicato e o conselho dos economistas do Rio divulgaram moção de apoio a Pochmann e ao novo diretor de Macroeconomia do Ipea, João Sicsú. Eles dizem que as mudanças no Ipea traduzem uma nova orientação, "ainda tímida", da política econômica. A nota faz duras críticas à política monetária do BC e aos economistas que concordam com ela. Pochmann negou que pretenda transformar o Ipea numa instituição que faça contraponto ao Banco Central. "Tem gente no governo mais preparada para lidar com isso (taxa de juros)", disse. "Mas nós não deixaremos de ter uma avaliação sobre esses temas."

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