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José Roberto Mendonça de Barros
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Mudanças inexoráveis

Os governos podem ser de esquerda, centro ou direita, mas não vão escapar de mudanças

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

27 Outubro 2018 | 19h37

Participei na semana passada, como mediador geral, do excelente Congresso Internacional da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecções (Abit), com o tema “Pessoas e a Era Digital”.

Os cenários discutidos, aqui e lá fora, falam consistentemente de seis mudanças em andamento, as quais teremos de enfrentar se quisermos voltar a crescer com vigor. Todas elas são inexoráveis e podem ser assim resumidas: 

- Globalização: continuará como fenômeno dominante, mesmo com a guerra comercial em curso e com a elevação do protecionismo. Não será fácil desmontar as cadeias de suprimento internacionais, construídas ao longo dos últimos 30 anos. Da mesma forma, deverá se manter a proeminência da Ásia na produção de chips e de outros materiais eletrônicos. Além disso, a internet, os acordos de cooperação entre universidades e instituições internacionais e o turismo manterão elevado o intercâmbio de ideias e conhecimentos. Praticamente todas as boas empresas no mundo, inclusive no Brasil, buscam se ligar ao exterior. As que não o fazem têm um horizonte limitado.

- Demografia: as tendências de envelhecimento e de famílias menores continuarão. Da mesma forma, novos arranjos familiares serão cada vez mais comuns. 

- Os consumidores das novas gerações têm valores bem definidos: além de serem muito ciosos da proposta de valor de cada bem (relação custo-benefício), os jovens estão dispostos a pagar mais por certos atributos (orgânico, biodegradável, elétrico, sustentável) e topam outras experiências de consumo, o que permite um contínuo fluxo de novos produtos oferecidos nos mercados. Além disso, exigem absoluta transparência das empresas, não admitindo imprecisões e inverdades. Muitas das nossas companhias ainda não assimilaram totalmente o significado dessas mudanças. Basta pensar nos casos em que, em vez de rigidez na qualidade de produtos alimentares, buscam-se meios de “flexibilizar” os padrões e a fiscalização.

- A mudança tecnológica é contínua e rápida: esta é, talvez, a tendência de mais fácil percepção. Nesse campo destacam-se as tecnologias que compõem a chamada Indústria 4.0 (digitalização total, inteligência artificial, aprendizado de máquinas, robotização, internet das coisas, impressoras 3D, etc.). Entretanto, aqui nosso atraso é abissal: quase metade das empresas brasileiras não ouviu ou não utiliza nenhuma dessas técnicas. Embora algumas o façam, não surpreende que a produtividade média seja bastante baixa. 

- O trabalho será bastante impactado pela mecanização, robotização e inteligência artificial: um número razoável de profissões vai desaparecer, mas outras novas surgirão. Há um grande debate no mundo, ainda inconcluso, se o efeito líquido sobre o número de empregos será positivo, como nas três primeiras Revoluções Industriais, ou se desta vez o volume de emprego irá se contrair. Entretanto, é certo que pessoas despreparadas para mudar sofrerão bastante.

- As necessidades educacionais serão fortemente afetadas: as habilidades exigidas pelo mundo do trabalho serão mais complexas. Além das competências básicas, são cada vez mais necessárias novas habilidades sociais (empreendedorismo, flexibilidade e liderança) e cognitivas (raciocínio, criatividade e interpretação). É fácil perceber o grande desafio para a educação formal e a necessária educação continuada de todos os que já fazem parte da força de trabalho. Não é difícil admitir o despreparo das escolas frente a essa situação, com sua insistência em aulas expositivas e cansativas. 

- Há um desejo pela sustentabilidade da produção, pelo enfrentamento da mudança climática e pelo avanço na direção de uma economia circular.

Voltaremos a esses temas nas próximas colunas.

Os governos podem ser de esquerda, de centro ou de direita, mas não conseguirão escapar dessas mudanças e a elas terão de responder. Como disse no Congresso Fábio Coelho, presidente do Google Brasil, “o relevante não é estar pronto, porque nunca estaremos, mas é estar dentro”. 

* ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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