Mudanças no sistema financeiro internacional?

Roberto Fendt, O Estado de S.Paulo

08 Dezembro 2015 | 02h03

O último dia 30 de novembro marca o que pode ser o início de mudanças no sistema financeiro internacional. Nesse dia, o yuan chinês passou a fazer parte da cesta de moedas dos Direitos Especiais de Saque (DES) do Fundo Monetário Internacional (FMI). De que se trata, que implicações tem esse fato e por que ele marca uma nova era na estrutura da economia global?

Direitos Especiais de Saque são um ativo monetário, criado pelo FMI em 1969, para complementar as reservas oficiais em moeda estrangeira dos países-membros. O valor dos DES é baseado numa cesta de moedas das principais economias e sua composição é revista pelo FMI a cada cinco anos. Na revisão de novembro deste ano se decidiu que o yuan chinês passará a compor a cesta a partir de 1.º de outubro de 2016. Começando nessa data, a cesta será composta pelo dólar norte-americano, com um peso de 41,73%; pelo euro, com 30,93%; pelo yuan, com 10,92%; pelo iene japonês, com 8,33%; e pela libra esterlina, com 8,09%. Os pesos de cada moeda na cesta dependem de seu volume de comércio internacional e do valor de suas reservas em moeda estrangeira. Sem ser uma moeda, os DES podem ser trocados pelos bancos centrais por dólares, euros, ienes, libras esterlinas e yuans.

Sua criação não se deu a partir de um desejo de criar uma nova moeda internacional. Ou para evitar que os Estados Unidos pudessem trocar cédulas sem valor intrínseco por bens e serviços de países desejosos de obter dólares para compor suas reservas internacionais. De fato, decorreu da necessidade de encontrar uma expressão monetária que complementasse a oferta de dólares e ouro, então escassos, para a composição dessas reservas, e mantivesse a liquidez do sistema econômico global.

A escassez de dólares foi superada em 1971 pela decisão unilateral dos Estados Unidos de cancelar a conversibilidade do dólar em ouro. A partir de então, os Estados Unidos foram capazes de financiar seus déficits no balanço de pagamento emitindo sua moeda. Com isso, a liquidez internacional foi progressivamente restabelecida, com os países compondo suas reservas internacionais primordialmente com dólares norte-americanos. De fato, os DES nunca serviram de base para mais de 6% das reservas internacionais globais; hoje, 60% dessas reservas são mantidas em dólares. Sendo assim, qual a importância da admissão do yuan na cesta de moedas do DES?

Ela reflete o reconhecimento de que um conjunto de países emergentes detém hoje uma parcela expressiva tanto do Produto Interno Bruto (PIB) quanto do comércio internacionais. Esse reconhecimento impõe uma mudança na sistemática de votos do FMI. O sistema atual reflete ainda a importância econômica das nações na época de sua criação; hoje, essa importância mudou radicalmente.

Ao mesmo tempo, os países desenvolvidos, em seu conjunto, tornaram-se pela primeira vez, nos últimos dois anos, o principal destino de recursos do FMI. A Europa é em grande parte responsável por esse redirecionamento e não mais se justifica o peso que ainda tem na distribuição dos direitos no fundo.

Os Estados Unidos se opuseram nos últimos cinco anos à inclusão do yuan na cesta de moedas dos DES. A decisão agora, de não mais se opor à admissão de uma moeda de um país fora do circuito Estados Unidos-Europa-Japão, mostra, do lado norte-americano, realismo. Caso contrário, acabariam por proliferar arranjos ad hoc de pagamentos, da mesma forma que se multiplicaram acordos comerciais pela dificuldade de levar a bom termo as rodadas multilaterais de comércio na Organização Mundial do Comércio (OMC). Ou o surgimento de alternativas ao Banco Mundial, como o Banco dos Brics e o Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura.

Do ponto de vista brasileiro, a inclusão do yuan é positiva. Há cinco anos se discutiu um projeto de reforma do fundo que dobraria a contribuição de todos os países-membros e redistribuiria os direitos de voto para a China, a Rússia, a Índia e o Brasil. Quem sabe a mudança de composição dos DES pode ser o início da reforma do FMI, há muito necessária.

* Roberto Fendt é secretário executivo do Conselho Empresarial Brasil-China

Celso Ming volta a publicar sua coluna no dia 16 de dezembro.

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