Mudança de direção na indústria

Aumentam as chances de o setor encerrar 2019 mais próximo da estabilidade do que da recessão e de voltar a crescer em 2020. 

Rafael Cagnin*, O Estado de S.Paulo

05 de dezembro de 2019 | 08h00

O ano de 2019 tem representado uma interrupção da recuperação industrial. Crise da economia argentina, desdobramentos do desastre de Brumadinho e expressiva perda de dinamismo do comércio internacional somaram-se ao quadro de fraca de demanda interna, de forma a arrastar novamente o setor para o vermelho.

Diferente do que muitos têm argumentado, os problemas não se restringiram ao ramo extrativo, como bem ilustrou a queda do PIB da indústria de transformação no terceiro trimestre do ano. Tampouco se concentraram no setor automobilístico, dado que mais da metade do agregado da indústria não conseguiu crescer em 2019. 

Entretanto, esta é uma realidade que já pode estar mudando. Por três meses consecutivos a produção do setor tem registrado elevações, algo que não ocorria desde 2017, quando foram dados os primeiros passos da recuperação. Com isso, embora este crescimento não seja muito generalizado entre os diferentes ramos industriais, aumentam as chances de o setor encerrar 2019 mais próximo da estabilidade do que da recessão e de voltar a crescer em 2020. 

É a produção de bens de consumo tanto duráveis como não duráveis que lideram este processo; bens de capital perderam muito de seu crescimento e flertam com o terreno negativo. Ou seja, por trás da melhora recente está basicamente a recomposição do consumo, ilustrando o poder de alguns instrumentos para reativar o crescimento econômico, a exemplo da redução das taxas de juros vigentes na economia, da progressiva normalização do crédito concedido às famílias e da liberação dos recursos do FGTS.

São aspectos que tendem a reativar a demanda interna, cujos níveis insuficientes têm se juntado a problemas estruturais, como as deficiências de produtividade e competitividade da produção nacional, produzindo uma recuperação econômica das mais lentas de que temos notícia. O risco é que seus efeitos se dissipem antes de ensejar aumento do emprego de maior qualidade e do investimento, que é quem garante uma trajetória de crescimento mais sólida.

* É ECONOMISTA-CHFE DO IEDI

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