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Mudar as metas

Nível muito baixo da inflação ocorre na saída de colossal recessão

Fernando Dantas *, O Estado de S.Paulo

23 Março 2018 | 05h00

A inflação brasileira anda tão baixa que surgiu uma ideia – que já circulou no mercado e assustou alguns – de reduzir a meta. Houve até relatos de que o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, cogitaria reduzir metas de inflação já estabelecidas, mas não houve qualquer confirmação deste rumor.

De qualquer forma, será que é uma boa ideia? De fato, a atual meta de inflação brasileira de 4,5% é muito alta, comparado ao que se esperaria de um país com o grau de desenvolvimento econômico e financeiro do Brasil. Algo em torno de 3%, 3,5% parece mais adequado.

A proposta, portanto, seria aproveitar que a inflação anualizada está perto de 3% (e até menos) por um bom período para “cortar caminho” e pular logo para este nível ou próximo dele.

Mas existem argumentos bastante consistentes para não mudar as metas já estabelecidas, como notam economistas como Bráulio Borges, da LCA e do Ibre/FGV, e Carlos Woelz, da Kapitalo Investimento.

Para início de conversa, se a inflação surpreendeu na queda e a meta é cortada para baixo, isto abre a porta para a situação inversa e claramente negativa: quando surpreender para cima, o governo de plantão pode querer aumentar a meta, em vez de deixar o Banco Central debelar as pressões inflacionárias.

Outro problema é que o Brasil opera de maneira informal um sistema de autonomia operacional do BC, bastante comum em países que adotaram o regime de metas. Nesse esquema, o governo fixa a meta e o BC tem independência para usar seus instrumentos – o principal é a taxa básica – para persegui-la.

Apesar de o rumor atribuir a Meirelles a intenção de mudar a meta, se isso acontecesse ia ficar com jeito de ter sido ao gosto do Banco Central, que, por dever de ofício, tem forte viés anti-inflacionário. E a suspeita de que o BC seja determinante na fixação das metas não ajudaria a vender para a sociedade a ideia de autonomia operacional, pela qual ele deveria apenas perseguir o que foi estabelecido pelo governo eleito.

Há ainda o fato de que o nível muito baixo da inflação atual acontece no momento em que o Brasil deixa para trás uma colossal recessão, e em que ostenta ainda uma enorme taxa de desemprego. Existe muita capacidade fabril não utilizada e muito trabalhador sem emprego, fatores que pressionam a inflação para baixo. Para não falar da forte e prolongada deflação dos alimentos e um ambiente internacional de muita liquidez, que cria uma pressão baixista na inflação e nos juros mundo afora.

E se, num momento subsequente, esses fatores desaparecerem, será que a inflação brasileira vai ficar tranquilamente nos 3%? Uma meta muito baixa pode forçar o BC a praticar uma política monetária excessivamente dura, se, mais adiante, for verificado que a reduzida inflação atual é mais um período de exceção do que a nova regra da economia brasileira.

É preciso lembrar também que o regime de metas tem instrumentos para lidar com uma situação como a de hoje. Em primeiro lugar, há um intervalo de 1,5 pp para cima e para baixo em torno da meta, exatamente para acomodar os inevitáveis desvios até um certo limite. Assim, a inflação de 2018 pode cair até 3%, e a de 2019 até 2,75%, sem que o BC tenha de escrever uma carta ao Ministério da Fazenda para justificar o não cumprimento da meta.

Adicionalmente, o BC tem o controle da Selic nas mãos exatamente para empurrar a inflação para a meta. Assim, se o IPCA está muito baixo, há que se cortar a taxa básica – exatamente, aliás, como está sendo feito. A ideia é que a economia vai se aquecer e a inflação subirá um pouco. Não muito, só o suficiente para não ficar tão longe da meta. E, finalmente, o governo vai estabelecer a meta de 2021 até o fim de junho, e, se quiser, pode jogá-la para um nível mais baixo do que os 4% de 2020, garantindo uma progressão gradual para uma inflação próxima do intervalo de 3% a 3,5%.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

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