Mudar sem mudar?

Economia tem um longo caminho até se ajustar, com Temer ou com Maia

Cida Damasco*, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2017 | 05h00

Vai se desenhando o quadro de um possível pós-Temer, com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), no Planalto, e os principais integrantes da equipe econômica nas mesmas cadeiras que ocupam hoje. Ou seja, vai se desenhando exatamente o quadro que os adeptos da saída do presidente tentavam montar há algum tempo, para evitar que a travessia até 2018 fosse um salto no escuro. Para a economia, portanto, os sinais são de menos incertezas do que se avistava logo que começou a ruir a tal governabilidade com Temer. 

As incertezas, porém, não sumiram de vez. Temer ainda luta para se manter no cargo a qualquer custo, governando com duas canetas – uma para não deixar a economia desandar e outra buscando segurar os apoios que ainda lhe restam. Por baixo, será um mês de especulações, até que o plenário da Câmara se manifeste sobre a autorização para o Supremo Tribunal Federal (STF) processar Temer. Sem contar o impacto da nova ou das novas denúncias que serão encaminhadas pela Procuradoria Geral da República (PGR), antes da troca de guarda entre Rodrigo Janot e Raquel Dodge, em setembro.

É claro que não há cenário tranquilo para a economia, seja qual for o desfecho dessa etapa da crise política. Independentemente de quem estiver à frente do governo, terá no mínimo três grandes desafios: a aceleração da retomada, a administração da crise fiscal e o descongelamento da reforma da Previdência. Mas o que parece estar se configurando, no campo da economia, é a possibilidade de uma transição sem rupturas, nos moldes do que os mercados e o empresariado desejam – ainda que a experiência mostre que o sonho de consumo de “mudar sem mudar” sempre tem seus limites. Há sinais, por exemplo, de que a reoneração da folha de pagamento, ponto de honra para a equipe econômica, não conta com a simpatia de Maia. 

No caso da retomada, é sabido que 2017 terminará morno, com um crescimento do PIB em torno de 0,5%. O próprio governo ameaçou rebaixar essa projeção e se aproximar das expectativas do mercado, agora em 0,39%, mas acabou no 0,5% – e já há quem tema um 2018 parecido. Trata-se de muito pouco principalmente para permitir uma rápida absorção dos quase 14 milhões de desempregados espalhados pelo País. Falta o chamado espaço fiscal para a aplicação de medidas destinadas a reforçar esse crescimento, e a derrubada dos juros tem se revelado insuficiente para desafogar a situação financeira tanto das empresas como dos consumidores. A esperança é que a deflação de junho empurre o Banco Central para uma política de juros mais ousada. 

Nas contas públicas, o panorama é cada vez mais preocupante. Começam a ser paralisados alguns serviços, entre eles a emissão de passaportes, os gastos mais pesados, como os da Previdência Social, são incomprimíveis, e as receitas não se sustentam no nível necessário para manter o déficit nos R$ 139 bilhões prometidos para o ano. É sintomático, nesse quadro, que a cada dia algum representante do governo apareça com soluções “heterodoxas” para tapar buracos nos orçamentos. Na última semana, por exemplo, durante o anúncio de mudanças no Fies, o programa de financiamento estudantil, justamente para torná-lo mais realista, levantou-se a hipótese de cobrir uma linha específica com dinheiro do FAT – dias depois do reconhecimento de que o FAT não está conseguindo bancar nem o seguro-desemprego. 

Quanto às reformas, é ponto pacífico que a da Previdência está travada. E para andar exigiria uma negociação fina entre as partes, praticamente impossível num momento em que as relações entre o Planalto e o Congresso são ditadas por interesses particularíssimos. Mesmo a reforma trabalhista, que deve encerrar seu trajeto no Senado nesta semana, acabou dando alguns sustos no governo. A manutenção ou não do fim do imposto sindical, por exemplo, foi alvo de um explícito “toma lá dá cá”, principalmente com as centrais sindicais. 

Como se pode ver, com ou sem Temer o que não falta é problema a ser enfrentado. E tem muito mais: antes mesmo de Maia se viabilizar como sucessor de Temer, as denúncias contra ele na Lava Jato ganham foco e Eduardo Cunha dá o recado de que pretende citá-lo em sua delação. Chegue logo, 2018. 

* CIDA DAMASCO É JORNALISTA

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