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Celso Ming
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Mudou pouco

Algo mudou na política econômica. Mas será suficiente? O momento pede um choque positivo na economia. Ele virá? Afinal, o que já mudou?

CELSO MING,

09 de junho de 2013 | 02h06

Apesar de ainda estar sozinho nessa cruzada, o Banco Central, antes tão leniente com a inflação, agora decidiu partir para o ataque.

Na semana passada, o governo zerou o IOF cobrado na entrada de dólares para aplicações em renda fixa. Por trás da decisão, há uma mudança do jogo. Antes, a enxurrada de dólares Brasil adentro era vista com suspeita porque, em muitos casos, vinha ligada à especulação com juros que, de quebra, provocavam a valorização do real (baixa do dólar) que derrubou a indústria. Agora, os dólares são bem-vindos porque vêm ajudar a cobrir o rombo das contas externas.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, anunciara, há duas semanas, que mudou a ênfase. Antes, a principal preocupação da política econômica foi puxar o consumo para que a produção e o investimento fossem atrás e, assim, houvesse mais crescimento. Mudou, anunciou Mantega, o alvo do governo; a prioridade deixou de ser o consumo das famílias e passou a ser o investimento.

Pergunta: Esses indícios mostram que o governo Dilma está disposto a uma política fiscal mais responsável e menos baseada em transferências de renda; a uma política monetária (política de juros) mais restritiva; e a propiciar maior equilíbrio nas contas externas?

O melhor que a presidente Dilma poderia fazer seria divulgar sua própria Carta ao Povo Brasileiro, a declaração solene assinada em 2002 pelo presidente Lula, em que se comprometeu a dar solidez aos fundamentos da economia, especialmente, por meio de uma política fiscal responsável e uma política de juros comprometida com o combate à inflação.

Embora venha tomando decisões de cunho mais ortodoxo, ainda não está claro que o governo esteja decidido a enveredar em direção a uma política econômica mais segura. O maior objetivo da presidente Dilma é chegar a outubro de 2014 com grande folga nas preferências eleitorais. Por enquanto, a percepção do governo é de que o caminho mais curto é evitar sacrifícios e esperar que a retomada dos investimentos produza frutos.

No entanto, a prioridade aos investimentos e uma política monetária mais apertada não entregam resultados imediatos. Provavelmente, não antes das eleições, como pretendido.

Também conspira contra isso uma política econômica de resultados pífios e perigosos, como os apresentados até aqui: crescimento econômico medíocre; inflação no teto da meta que corrói o poder aquisitivo e um rombo alarmante nas contas externas (déficit em transações correntes de 3,0% do PIB).

Por isso, se puder, o governo tentará evitar o uso de corretivos de custos sociais e políticos mais altos. Acionará os bombeiros onde houver foco de incêndio e procurará restabelecer um mínimo de confiança. E deixará para 2015 a aplicação de eventuais terapias de choque.

O risco é de que essa estratégia meia-boca não aguente o tranco que vem aí. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos) prepara o desarme de sua política monetária expansionista; os capitais que antes fugiam tendem a procurar ancoragem lá mesmo nos Estados Unidos ou a voar para lá e, assim, fica bem mais difícil garantir financiamento para um rombo externo crescente.

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