Dida Sampaio/Estadão
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Fábio Alves
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Muita coisa pode ameaçar a retomada da economia brasileira no 2º semestre

Risco político e a crise hídrica no Brasil devem dividir a atenção dos investidores e ameaçar o crescente otimismo

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2021 | 04h00

A reabertura das principais economias mundiais, após o pior da pandemia de covid ter ficado para trás, estava caminhando para ser o principal tema dos mercados no segundo semestre de 2021, mas o risco político e a crise hídrica no Brasil e a sinalização da retirada de estímulos monetários pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano) nos Estados Unidos devem dividir a atenção dos investidores domésticos e ameaçar o crescente otimismo.

Nos EUA e na Europa, o avanço da vacinação contra a covid resultou numa acentuada queda de novos casos e mortes, o que permitiu um relaxamento quase total das regras de distanciamento social. Nos EUA, os indicadores de atividade econômica já vinham antecipando uma recuperação mais forte desde o primeiro trimestre.

Nas últimas semanas, o mercado também passou a revisar para cima as projeções de crescimento do PIB da zona do euro neste ano, à medida que vários países do bloco começaram a reabrir suas economias, em especial o setor de serviços, incluindo o de turismo, um dos mais afetados pela pandemia.

No Brasil, a imunização finalmente começa a ganhar maior ritmo. A média móvel de sete dias da vacinação com a primeira dose contra covid atingiu 1.426.813 na segunda-feira. Há sete dias, essa média era de 1.242.303 e, há 30 dias, de apenas 472.971.

As projeções de crescimento do PIB brasileiro para 2021 vêm melhorando há dez semanas e agora apontam para uma expansão de 5,05%, conforme a mais recente pesquisa Focus. Há quatro semanas, as estimativas dos analistas eram de um crescimento de 3,96%.

O grande salto aconteceu depois da divulgação, pelo IBGE, do PIB do primeiro trimestre deste ano, cujo crescimento de 1,2% superou com folga a previsão do mercado, de alta de 0,7%. É que a segunda onda da pandemia teve um impacto menor do que o esperado sobre a atividade econômica.

Do lado externo, a maior ameaça ao desempenho dos países emergentes, incluindo o Brasil, no segundo semestre vem da possibilidade de o Fed antecipar o processo de retirada de estímulos monetários, o chamado “tapering”. Isso poderia, por exemplo, reduzir os fluxos de recursos para países emergentes.

Na sua última reunião de política monetária, a maioria dos diretores do Fed passou a projetar a primeira alta da taxa básica dos juros americanos em 2023. Antes, a maioria esperava que a taxa básica permanecesse inalterada pelo menos até 2024.

Essa sinalização mais dura do Fed foi, em parte, uma reação à forte aceleração da inflação americana. Em maio, a taxa anual do índice de preços ao consumidor nos EUA atingiu 5,0%, o maior avanço desde agosto de 2008. A preocupação é se esse repique inflacionário será temporário ou não.

Para o diretor de investimentos e fundador da gestora ACE Capital, Fabrício Taschetto, o pico da inflação americana ficou para trás e, com isso, o Fed não será tão agressivo na retirada dos estímulos monetários. “Com números mais comedidos da inflação, o Fed vai ganhar mais tempo e vai jogar o processo do ‘tapering’ para o início do ano que vem”, diz Taschetto. “Isso vai gerar um superotimismo em todos os mercados e, em especial, os emergentes.”

A alta da inflação, aliás, será um tema importante para o mercado e também para o Banco Central brasileiro, principalmente depois que a crise hídrica forçou o acionamento das usinas termoelétricas, cujo custo de geração de energia é mais elevado.

A bandeira vermelha patamar 2, a mais cara do sistema, passará a vigorar também em julho, pelo segundo mês consecutivo e com reajuste maior da sua tarifa. Com isso, muitos analistas passaram a embutir uma contribuição maior da energia na inflação de julho. Para 2021, a projeção de inflação já está em 5,97%.

Mas a crise hídrica não é o único fator que pode limitar o otimismo com a retomada da economia brasileira na segunda metade do ano: a repercussão da CPI da Covid no Senado, diante das acusações envolvendo diretamente o presidente Jair Bolsonaro na compra da vacina indiana Covaxin, promete agitar ainda mais um ambiente político instável em meio à corrida para a eleição presidencial de 2022. Por enquanto, prevalece o otimismo com a chegada de mais vacinas e a perspectiva de retomada econômica no segundo semestre. Mas muita coisa pode ameaçar esse roteiro.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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