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José Roberto Mendonça de Barros
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Muita confusão à vista

Nem o candidato nem o seu ministro forte jamais chegaram perto do executivo

José Roberto Mendonça de Barros*, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2018 | 05h00

No primeiro turno das eleições ocorreu a polarização que se vislumbrou, com uma avalanche de votos úteis dados a Bolsonaro. A renovação do Congresso foi inesperadamente elevada.

Que podemos esperar para este segundo turno?

O PT vai tentar migrar para o centro, operando uma transformação instantânea, que começou na vestimenta do candidato e passa pela busca de apoio de vários líderes, tarefa a ser realizada por Jaques Wagner, especialmente.

Mais que isso, parte de seu programa será apagada, o que se iniciou com a negação da necessidade de uma Constituinte. Além disso, ao invés de rejeitar a existência de qualquer problema na Previdência, temos agora uma vaga menção a alguma reforma. Mas quem vai acreditar nisso, considerando que o responsável pelo programa registrado no TSE foi o próprio Fernando Haddad?

Na essência, sua proposta é ainda uma repetição de tudo que deu errado no passado, girando em torno de uma proposta para o uso da política fiscal e creditícia (aparentemente acrescida agora pelo programa de limpeza da inadimplência de alguns milhões de eleitores, do candidato Ciro Gomes) para relançar a economia e fazer o “ajuste” via crescimento.

A chance de este plano dar certo é, a meu juízo, próxima de zero.

Além disso, o partido tem uma longa história de não cumprir acordos, dada sua vocação hegemônica.

Bolsonaro vai reafirmar seu discurso. Não precisa atrair o centro, porque isso já ocorreu com seus eleitores. Precisa apenas do simbólico apoio de alguns líderes e, mais importante, não cometer nenhum erro, que o resto cai por gravidade. Sua vitória é altamente provável.

Vai continuar escondendo seu vice-presidente e seu programa econômico, que parece carregado de contradições, como a estimativa furada do valor de privatizações, a redução da carga tributária, sem CPMF, entre outras. Além disso, manifestações do candidato falam de empresas estratégicas que não poderão ser privatizadas, como a Eletrobrás, e de uma indefinida reforma da Previdência. Está mesmo nebuloso e confuso.

Ademais, um grande problema é a inexperiência e o improviso. Nem o candidato nem o ministro forte jamais chegaram perto do executivo e não têm noção de sua complexidade e das dificuldades de mudar coisas para enfrentar a gravidade da situação, especialmente fiscal. Montar e operar equipes nessas circunstâncias será uma tarefa hercúlea. O mesmo vale para o legislativo, onde muita gente nova, cheia de votos e de amor para dar, vai querer exercer poder. Aqui também a falta de experiência será a marca.

Muita confusão à vista.

Enquanto isso, o mercado faz festa, pois não ganhando o PT tudo estará resolvido. Simples assim.

Acredite quem quiser.

* * * * * * * * *

Para quem acompanha de perto o mercado de capitais o anúncio do acordo feito, em 1.º de outubro, entre a Qualicorp e seu CEO e maior acionista foi um choque. Pelo contrato, a companhia transferiu R$ 150 milhões para que ele continuasse na empresa por mais alguns anos e que mantivesse sua posição de 15% das ações durante esse período.

O susto explica-se: transações com partes relacionadas compõe um dos itens mais delicados na questão de governança das empresas abertas, especialmente pelos impactos negativos que podem ter sobre acionistas minoritários. E o acordo acima mencionado foi elaborado sem o conhecimento destes. 

Após a forte reação do mercado (a ação caiu 30% no primeiro pregão após o anúncio), a companhia anunciou, entre outras coisas, a criação de um Comitê de Governança e uma mudança no estatuto social para tornar obrigatória a submissão de novas operações com partes relacionadas a Assembleia Geral.

Embora as mudanças sejam louváveis, dois fatos permanecem: decisões relevantes foram tomadas sem o conhecimento dos minoritários e a saída de substancial quantia para o bolso do principal gestor e acionista reduziu o valor da empresa.

Esses dois eventos são inaceitáveis do ponto de vista das boas práticas de um mercado de capitais relevante para todos e para o País.

*ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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