Robert Stolarik/The New York Times
Robert Stolarik/The New York Times

Muito cuidado nessa hora

A menos que os salários subam nos Estados Unidos, o resfriamento temporário da economia americana pode se tornar uma tendência

The Economist

18 de abril de 2015 | 21h00

As pessoas em Royersford sentem que o dinheiro anda curto. No Main Street Café, no centro da cidade, um freguês reclama que em breve o valor que recebe de seu plano de previdência será congelado. Sheena, uma garçonete, diz que o movimento é bom, mas se queixa dos aumentos salariais ridiculamente pequenos que ela e as amigas têm recebido. As aflições dos moradores dessa cidade da Pensilvânia são conhecidas de todos os americanos. Mesmo que venha se saindo bem melhor que outros países ricos, a maior economia do mundo ainda não inspira muita confiança em seus trabalhadores. E esse clima de desalento, somado aos resultados econômicos decepcionantes do começo de 2015, faz com que alguns ponham em dúvida o vigor da recuperação americana. A resposta está nos salários.


O Produto Interno Bruto (PIB) de um país é composto por quatro elementos: gastos públicos, exportações líquidas, investimentos e consumo. O desempenho de um desses componentes, os desembolsos governamentais, parece indicar que tudo vai bem. Depois de anos restringindo o crescimento, sua expansão agora impulsiona a economia.


Mas, observando-se os demais componentes, as coisas mudam de figura. Comecemos pelas exportações. Na comparação com as principais moedas usadas no comércio exterior, o dólar teve uma valorização de 13% no ano passado. Os Estados Unidos não estão particularmente expostos às variações do comércio internacional: as exportações de bens e serviços representam apenas 14% do PIB, ao passo que na zona do euro elas chegam a 26%. Mas a recente alta do dólar, que reduz a competitividade dos produtos americanos no mercado internacional, foi tão drástica que começam a surgir problemas. Paul Ashworth, da consultoria Capital Economics, projeta para o primeiro trimestre deste ano uma queda, em termos anualizados e ajustados à inflação, de 14% nas exportações. Com a zona do euro crescendo, segundo estimativas, só 1,4% este ano, e a economia canadense também em marcha lenta, as vendas para importantes parceiros comerciais correm o risco de ser decepcionantes.


O setor privado já se ressente disso. Um terço do faturamento das companhias incluídas no índice S&P 500 vem do exterior. Os lucros corporativos caíram 1,6% no quarto trimestre de 2014, recuando para um patamar 6,4% inferior ao registrado no mesmo período de 2013. Com os lucros em baixa, os investimentos - terceiro componente do PIB - secaram.


Dados divulgados no fim de março indicam que em fevereiro as encomendas de bens duráveis - como maquinário industrial, por exemplo - caíram 1,4%. E o núcleo (quando se excluem os equipamentos de transporte) dessas encomendas registra quedas mensais desde outubro. Além disso, com a baixa no preço do petróleo, os investimentos em projetos de energia sofreram forte desaceleração. O declínio dos investimentos no setor de mineração subtrairá 0,8% do crescimento do PIB no primeiro trimestre, dizem pesquisadores da Capital Economics. Steven Ricchiuto, do banco de investimentos Mizuho Securities, acredita que os investimentos do setor privado cairão: “As empresas não estão dispostas a ampliar seu estoque de capital”.


Aposta. Nada disso é muito animador. Mas o que realmente vai decidir a sorte da economia americana é o consumo - que é a parte do leão do PIB. Se for sólido, o consumo das famílias americanas é capaz de impedir que o atual resfriamento da economia se transforme em algo mais grave. Os economistas previam forte crescimento do consumo em 2015. As famílias americanas foram imensamente beneficiadas pela queda de 50% no preço do petróleo, e o crédito ao consumidor se expande há 42 meses consecutivos. Apesar disso, o consumo perdeu embalo.


Condições climáticas excepcionalmente adversas no início do ano explicam, em parte, o que está acontecendo. Um inverno rigoroso obrigou os americanos a ficar em casa, sem poder ir às compras. Mas o maior obstáculo a um crescimento mais pronunciado e sustentável do consumo são os salários. Na região da Pensilvânia onde fica Royersford, o salário real por hora recuou 1% no ano passado. Na mesma rua do café, pouco mais à frente, na Sweet Ashley’s Chocolate, a proprietária diz que gostaria de contratar mais funcionários, mas só pode pagar o salário mínimo. Uma amiga sua precisa de três empregos, um deles de período integral, para conseguir pagar as contas. Em termos nacionais, e descontada a inflação, os salários médios encontram-se hoje no mesmo patamar em que estavam quando eclodiu a crise financeira.


Os economistas têm dificuldades para explicar por que os salários não sobem. O mais recente relatório, referente ao mês de março, indica que a criação de empregos estacionou, mas isso serve também para mostrar como o nível de emprego cresceu com vigor nos últimos dois anos. A taxa de desemprego está em 5,5%, abaixo da média histórica. Em circunstâncias como essa, era de se esperar que os salários registrassem uma alta mais acentuada, já que as empresas precisam disputar trabalhadores entre si. 


Um artigo publicado pelo Federal Reserve de Chicago calcula que, se o crescimento real dos salários tivesse acompanhado sua relação histórica com a taxa de desemprego, ele teria sido, em meados de 2014, 3,6% superior ao observado. Três fatores decisivos contiveram os salários: as mudanças no sistema de seguro-desemprego, o comportamento das empresas e a persistência da ociosidade no mercado de trabalho.


O sistema de seguro-desemprego passou por uma grande modificação no fim de 2013. Antes, o benefício a que o americano médio tinha direito equivalia a 53 semanas trabalhadas; em três Estados, o auxílio chegava a 73 semanas. Então o Congresso resolveu tornar os benefícios mais mesquinhos: o limite médio caiu para 25 semanas, tirando da fila do seguro-desemprego 1,3 milhão de americanos de uma tacada só. Sem essa rede de proteção, reduziram-se as expectativas salariais de muitos desempregados, diz Iourii Manovskii, da Universidade da Pensilvânia. Em alguns setores da economia, as empresas logo se aproveitaram dessa recém-criada reserva de mão de obra barata: dos 3 milhões de empregos adicionais criados durante 2014, grande parte se referia a vagas abertas em setores que pagam salários baixos.


Até em áreas da economia onde os salários costumam ser mais altos, as empresas têm sido muquiranas com seus empregados. Artigo recente de Mary Daly e Bart Hobijn, ambos do Federal Reserve de San Francisco, examina o problema da “rigidez nominal dos salários”. Os autores argumentam que quando a crise financeira eclodiu, as empresas não tinham como reduzir o valor dos salários pagos a seus funcionários. (Impor uma redução salarial ao conjunto dos empregados não seria a melhor forma de manter elevado o moral de uma companhia.) Ainda que em termos nominais os salários permanecessem inalterados, a inflação era muito baixa para corroer uma parcela mais significativa dos valores reais. A solução foi demitir os trabalhadores menos produtivos, mantendo os melhores funcionários satisfeitos. Isso ajuda a explicar por que, ao contrário do que seria de esperar, os salários médios tiveram um bom desempenho, mesmo com o desemprego em alta. 


Agora, para contrabalançar os salários altos pagos aos que conseguiram se segurar no emprego durante a recessão, as empresas só se dispõem a pagar salários baixos aos novos contratados. E os sobreviventes também não têm sido beneficiados com aumentos.


Sempre em frente. Talvez as empresas consigam manter os salários comprimidos, já que ainda há muita ociosidade (isto é, trabalhadores de sobra para ocupar vagas que eventualmente seja preciso criar) no mercado de trabalho. O número de trabalhadores que fazem jornadas de meio período, mas que prefeririam estar trabalhando em período integral - o chamado trabalhador de meio período por razões econômicas (PTER, na sigla em inglês) - caiu muito mais lentamente do que a taxa oficial de desemprego no período em que a economia esteve em recessão. O mesmo vale para os trabalhadores “desesperançados”, aqueles que desejam um emprego, mas dizem que não adianta procurar. Embora em número reduzido, sua participação - ou não - no mercado de trabalho, pode interferir nos salários. Ambos os indicadores caíram depois que a recessão chegou ao fim, mas ainda estão em níveis muito mais elevados do que antes da crise.


Artigo publicado pelo Fed de Chicago mostra que a taxa PTER é particularmente importante na determinação dos níveis salariais. Uma elevação de 1% nessa taxa está associada à queda de 0,4% no crescimento real dos salários, mesmo depois de terem sido controlados os efeitos de outros indicadores de desemprego. O impacto é especialmente grande nas faixas salariais mais baixas. David Blanchflower, do Darthmouth College, e Andrew Levin, do Fundo Monetário Internacional (FMI), encontraram resultados similares em artigo publicado em março. 


Quando a taxa PTER é alta, os trabalhadores podem se sentir impossibilitados de pedir aumentos salariais, visto que o que eles realmente desejam é trabalhar mais horas. O receio de pedir um aumento de salário pode se espalhar pelo mercado de trabalho, diz Daniel Aaronson, do Fed de Chicago. Os economistas também debatem o efeito da “taxa de participação”, que é definida como o número de indivíduos empregados ou procurando emprego de forma ativa em relação ao contingente da população que tem mais de 16 anos. No momento em 62,7%, essa taxa vem caindo há mais de uma década. Está 3% abaixo do porcentual registrado em meados de 2009.


Alguns economistas sustentam que uma taxa de participação baixa é ruim para os salários. A existência de um bolsão de trabalhadores ociosos, ainda que não oficialmente à procura de emprego, solapa as reivindicações salariais dos que estão empregados, pois há o receio que as empresas simplesmente optem por substituí-los. E se chega a haver aumentos, é sempre possível que os que estão fora da força de trabalho tornem a ingressar nela, pressionando de novo os salários para baixo. No entanto, esse argumento pressupõe que uma participação baixa da força de trabalho seja o resultado de circunstâncias econômicas. Um artigo do centro de estudos Brookings Institution, questiona isso. A tese é que a queda na taxa de participação entre indivíduos economicamente ativos reflete fatores estruturais, como mudanças tecnológicas que empurram, de forma definitiva, alguns trabalhadores para fora do mercado de trabalho.


A pesquisa do Brookings Institution também tenta responder por que a taxa de participação sofreu queda tão acentuada entre 2007 e 2008. Houve o impacto da recessão, sem dúvida, mas há fatores demográficos que podem ter sido ainda mais importantes. Foi nesse mesmo período que os indivíduos mais velhos da geração nascida no pós-guerra completaram 62 anos, idade mínima para a aposentaria. Usando raciocínio semelhante, o artigo sugere que a taxa de participação cairá ainda mais nos próximos anos. Se a explicação estiver correta, o crescimento da economia será acompanhado de melhorias salariais, já que terá diminuído o número de trabalhadores dispostos a se reintegrar à força de trabalho.


Nesse caso, os últimos dados sobre o desempenho da economia americana indicam que os salários podem estar prestes a iniciar uma escalada. Um levantamento mostra que 70% das empresas americanas trabalham com a perspectiva de aumentar os salários de seus funcionários em no mínimo 3% até março de 2015 Aumentos salariais começam a frequentar as manchetes dos jornais: em 1ºde abril, o McDonald’s aumentou os salários dos empregados de suas lanchonetes.


Em breve, empresas menores estarão trilhando o mesmo caminho das maiores. O presidente da Comfort Keeper, estabelecimento que oferece serviços de saúde e acompanhamento para idosos e cuja sede fica a poucos quilômetros de Royersford, soube que os funcionários do Walmart terão um aumento salarial, medida que talvez ele se veja obrigado a copiar. David Doyle, do banco Macquarie, diz que a alta da média dos ganhos por hora dos trabalhadores do setor privado, registrada no primeiro trimestre deste ano, foi a mais elevada desde a recessão. 

Se dados mais animadores sobre a situação do emprego continuarem a sair, o Federal Reserve deve subir a taxa de juros. Isso indicaria que a economia americana, apesar do resfriamento, ruma para voltar à normalidade.


© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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