Soraya Ursine/AE
Soraya Ursine/AE

Mulheres ainda são raridade na criação

ENVIADA ESPECIAL A CANNES

Marili Ribeiro, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2011 | 00h00

"Quando acorda, você se toca, toca o companheiro ao seu lado ou pega o seu celular?", provoca Simon Bond, diretor de marketing global da rede de agências BBDO, em uma das palestras do festival de Cannes. Boa parte do plateia presente no auditório Debussy, no Palais des Festivals, levantou a mão para a alternativa celular. Entre eles, estava a publicitária Fernanda Flandioli, sócia e vice-presidente da Rede106, agência do Grupo ABC.

Disposta a ocupar um lugar de destaque no universo da propaganda, mundialmente dominado pelo sexo masculino, Fernanda encarou 35 palestras para depurar seus conhecimentos. Quando voltar ao Brasil, pretende preparar apresentação para o grupo ao qual pertence e tentar aplicar o que aprendeu no cotidiano da agência.

Embora a participação das mulheres seja crescente em áreas relevantes, como a de planejamento, onde Fernanda construiu sua carreira, elas ainda são minoria no que sempre foi a essência dessa atividade: a criação.

Neste ano, o conglomerado de serviços de marketing Interpublic fez uma provocação em Cannes e promoveu um debate com quatro das raras executivas do setor: Martha Stewart, fundadora da Living Omnimedia; Carol Lam, vice-presidente da McCann Erickson na China; Kimberly Kadlec, vice-presidente global da Johnson & Johnson; e Gail Heimann, vice-presidente da empresa de relações públicas Weber Shandwick. No debate, apesar do discurso, o que salta aos olhos é a constatação de que as mulheres ocupam apenas 3% dos cargos ligados à área de criação nas agências. Um legítimo clube do bolinha.

"No Brasil, quando a criação se envolve com uma campanha, não há limite de horário. Essa prática complica a atuação das mulheres com filhos", pondera Patrícia Marinho, vice-presidente de atendimento da Giovanni Draft+FCB, que assistiu ao debate.

Lição de casa. Assim como Fernanda, Patrícia enfrenta uma maratona de seminários em Cannes há seis anos. Nessa última edição, assistiu a 44 dos 57 programados. Se tivesse de peneirar o que ouviu, diz que escolheria a discussão do resgate da inspiração.

O assunto foi levantado por Sir Ken Robinson (especialista em educação, criatividade e inovação), que foi aplaudido de pé pelo auditório, feito que nem o palestrante mais comentado do evento, o ator Robert Redford, não conseguiu.

"Há tempos Cannes não se preocupava tanto em oferecer reflexões sobre as mudanças sem precedentes vividas pela população mundial, que está convivendo com o avanço acelerado das tecnologias digitais e suas profundas transformações culturais", diz Patricia. "A cultura, como explicou Robinson, é a expressão da criatividade. E, apesar de todos os gadgets eletrônicos, nós ainda carregamos referências culturais do século XIX. Entre elas, os deveres das mulheres criarem família e não disputarem espaço no mercado de trabalho."

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