Mulheres fazem serviço pesado

Na boleia de um Mercedes Actrus, de 48 toneladas, Thais Teixeira do Nascimento deixa muito marmanjo de boca aberta com sua habilidade. Sobe e desce ladeiras com um caminhão lotado de terra e rocha sem titubear ou demonstrar qualquer insegurança natural dos 23 anos de idade. Por dia, são 17 quilômetros percorridos, 52 viagens e 1.144 toneladas carregadas.

O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h07

Desde que conseguiu desbancar 20 homens no teste de direção para conseguir uma vaga no canteiro de obras da Hidrelétrica de Belo Monte, essa tem sido a rotina diária de Thais, que antes trabalhava numa locadora de veículos em Altamira. "Quando saiu o resultado do teste, ouvi muitos homens cochicharem: não acredito que essa menina passou e eu não", comemora ela. Histórias como a de Thais se tornaram comum nas obras da terceira maior hidrelétrica do mundo, em construção no Rio Xingu. Cerca de 18% dos trabalhadores contratados pelo Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) são mulheres. "Se formos nos restringir apenas à força masculina, teremos problemas para conseguir toda a mão de obra", afirma o diretor de Construção da usina, Marco Túlio Pinto.

Segundo ele, as obras já contam com 4.900 funcionários, sendo 3.800 contratados pelo consórcio e 1.100 de empresas subcontratadas. Até o fim do ano, outros mil trabalhadores devem ser incorporados à equipe. No pico da obra, serão 20 mil trabalhadores.

O diretor afirma que a prioridade será dada aos moradores da região, que hoje representam 65% dos funcionários contratados. "Mas não tem jeito: teremos de trazer profissionais de outras regiões." A empresa está construindo um alojamento para 8 mil trabalhadores. Todos os quartos terão banheiro e internet sem fio. Em cada unidade ficarão quatro pessoas.

Como no resto do País, a escassez de mão de obra qualificada é um grande problema no Pará. A solução foi montar uma escola para capacitar os futuros funcionários de Belo Monte. Desde a inauguração, cerca de 2 mil pessoas já foram treinadas e 300 delas já estão no canteiro de obras.

A escola conta com simuladores para formar estudantes interessados em operar máquinas pesadas, como escavadeiras, motoniveladoras e tratores. Mas há cursos para profissionais comuns, como pedreiro, carpinteiro, armador, eletricista e instalador hidráulico - que representam grandes carências na região. Há mulheres em todos esses cursos.

Elenilda Souza da Silva, de 35 anos, optou pela motoniveladora. Era a única mulher numa turma de quase dez homens. "Há muito respeito entre a gente", diz ela referindo-se ao assédio do homens. Thais também confirma a relação de respeito, mas preferiu não arriscar: "Coloquei uma aliança no dedo para acharem que sou casada", brinca ela. Seu próximo objetivo é deixar o Actrus com os novatos que estão chegando na obra e operar uma máquina pesada. Oportunidade não faltará.

No total, Belo Monte vai exigir uma frota de 1.500 máquinas, caminhões e tratores. Cerca de 800 unidades já chegaram no canteiro de obras. Outras 700 ainda estão a caminho. A maioria sai de São Paulo e vai até Belém por rodovias. Da capital paraense, as máquinas são colocadas em barcaças e seguem pelo rio até Vitória do Xingu. Só no segundo trecho, são mais de 80 horas de viagem por causa da seca do rio nessa época do ano.

Dali seguem por estrada até a obra. Para chegar no sítio Belo Monte, por exemplo, as máquinas têm de passar pela Transamazônica, que depois de 30 anos começa a ser asfaltada. A obra é de responsabilidade do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). A esperança dos moradores é que a pavimentação seja realizada em todo o trecho paraense e não apenas nos quilômetros que atendem a usina.

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