Sergio Torigoe/Divulgação
Sergio Torigoe/Divulgação

Mulheres já são donas de 38% das empresas brasileiras, aponta consultoria

Participação se refere a companhias de propriedade exclusivamente feminina; mulheres comandam empresas de menor porte e que faturam menos em relação a companhias cujos homens são os donos

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2019 | 05h00

As mulheres detêm fatia expressiva das empresas legalmente constituídas no País, apesar de as companhias de propriedade feminina ainda faturarem pouco perto das empresas fundadas e tocadas por homens. Hoje mais de um terço (38%) das companhias em funcionamento são de propriedade exclusiva de mulheres, enquanto, sozinhos, os homens são donos de 48,2% delas. Já sociedades formadas pelos dois gêneros respondem pela propriedade de 13,8% das empresas.

Quando se avalia a participação de mulheres e homens na propriedade de empresas como empreendedores, independente a composição societária exclusiva ou em parceria com homens, as mulheres são donas de 42,5% das companhias e os homens por 57,5%.

Os dados fazem parte de um levantamento feito a partir de 20,5 milhões de CNPJs (Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica) ativos e disponíveis em fontes públicas de informação. O CNPJ é uma espécie de carteira de identidade das empresas e revela os dados básicos de cada companhia. O estudo foi elaborado pela consultoria BigData Corp, especializada em análise de dados.

“O resultado da participação feminina foi uma surpresa positiva”, afirma Thoran Rodrigues, presidente da consultoria e responsável pelo estudo. Ele pondera que o ideal seria que as participações de mulheres e homens no mundo empresarial fossem equivalentes, seguindo as fatias de ambos os gêneros na população brasileira. No entanto, levando-se em conta a circunstância, como a herança cultural e histórica que coloca em evidência mais o homem do que a mulher no mundo empresarial, o especialista considera o desempenho feminino atual favorável.

Tamanho

O estudo revela também que as empresas que têm apenas mulheres como sócias são empreendimentos de menor porte, empregam um número menor de trabalhadores e faturam menos do que as companhias de propriedade exclusiva de homens. Um pouco mais 0,5% das companhias nas quais as mulheres são donas têm receita acima R$ 5 milhões por ano. Já a participação das empresas para essa faixa de faturamento cuja propriedade é masculina chega a ser mais que o dobro (1,3%)

A situação se afunila ainda mais quando se avalia grandes companhias com faturamento anual superior a R$ 100 milhões. Do universo total dessas empresas, aquelas de propriedade exclusivamente feminina representam 6,9% e as de titularidade somente masculina são 44,5%. Já as companhia com participação mista somam 48,6%.

Quando se avalia a idade das empresas de propriedade exclusiva de homens e mulheres, as fatias são mais ou menos equilibradas, com as mulheres detendo uma fatia ligeiramente maior de companhias mais jovens. No entanto, para empresas com mais de 20 anos de funcionamento há uma preponderância de propriedade masculina, com 8,3% das empresas, e de sociedades mistas, formadas por ambos os gêneros, com um participação de 24%.

Na opinião de Rodrigues, o fato de as empresas mais longevas serem de sociedade mista, formada por homens e mulheres, revela quanto é importante a diversidade de pensamento para oxigenar as companhias.

Foi exatamente esse movimento que ocorreu sete anos atrás com a Torigoe, uma oficina mecânica, que fica no Tatuapé, zona leste da capital paulista. Em 2012, Vanessa Martins, de 43 anos, decidiu deixar a carreira de nutricionista especializada em pacientes terminais num hospital e se tornar sócia e gestora da oficina do marido, o engenheiro mecânico Sérgio Torigoe. N a época a oficina tinha 11 anos de funcionamento.

“Eu não aguentava mais trabalhar na área de nutrição”, diz Vanessa, que nunca tinha sonhado empreender. Para tocar a parte administrativa da oficina, já que o marido é responsável pela parte técnica, Vanessa foi estudar administração de empresas e fez vários cursos.

O primeiro desafio foi mudar a localização da empresa que enfrentava, na época, disputas judiciais com a vizinhança. “Em nove meses construímos uma oficina com iluminação natural, captação de água de chuva, o uniforme dos funcionários foram confeccionados com materiais recicláveis e até a mobília construída a partir de pneus”, conta.

O resultado, segundo Vanessa, foi uma oficina sustentável com layout novo e organizado. De lá para cá, o faturamento da oficina, que tem mais de 3 mil clientes ativos, cresce 5,5% ao ano. Agora a empresa se prepara para dar um outro salto. Ainda sob sigilo, Vanessa diz que detectou um novo nicho de mercado. Ela e o marido vão empreender num novo segmento do setor automobilístico no segundo semestre deste ano. Na opinião de Vanessa, sem o apoio do marido e sócio no negócio, ela não teria se tornado empreendedora.

Além do trabalho de gestão na oficina, Vanessa faz trabalho de aceleração e orientação empresarial de companhias administradas por outras mulheres. “Normalmente a mulher começa a empreender depois que vira mãe e, pelo fato de não ter capital e crédito, o negócio acaba não indo para frente.”

Preconceito

O levantamento feito pela consultoria BigData mostra que a atuação das mulheres no mundo empresarial está quebrando preconceitos. Além do comércio varejista de artigos de vestuário, prestação de serviços de cabeleireiro e estética, que encabeçam a lista de setores nos quais as empresas de propriedade das mulheres mais atuam, o comércio e a prestação de serviço automotivo estão na lista dos dez segmentos que as empreendedoras mais atuam. De acordo com uma pesquisa feita pela publicação Automotive Business, entre 2013 e 2017 a participação das mulheres neste mercado cresceu de 15% para 17% e a perspectiva é de aumentar mais nos próximos anos.

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