JONNE RORIZ/AE
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Múltis brasileiras inovam mais que estrangeiras e indústrias nacionais

Estudo da CNI aponta que, embora o grupo seja pequeno, 92% das companhias transnacionais brasileiras desenvolveram produtos ou processos inovadores entre 2012 e 2014, período analisado

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

19 Setembro 2018 | 04h00

Rodas flexíveis que se deformam para evitar danos ao passar por buracos, motores para veículos elétricos, carrocerias de ônibus com placas de alumínio parafusadas, substância que reduz o impacto ambiental de tintas e resinas são alguns dos produtos inovadores, alguns deles globalmente, desenvolvidos por multinacionais brasileiras.

Estudo feito pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que, embora seja um grupo pequeno, de cerca de 60 empresas, as multinacionais brasileiras são mais inovadoras do que as companhias estrangeiras e os grandes grupos nacionais instalados no País.

O estudo tem como base a última Pesquisa de Inovação (Pintec), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Foi coordenado pelo Fórum de Empresas Transnacionais da CNI, que detalhou os resultados dos segmentos alimentício, têxtil, couros e calçados, celulose e papel, químico, metalurgia, veículos automotores e máquinas, aparelhos e materiais elétricos.

Do grupo de multinacionais, 55, ou 92% delas, desenvolveram produtos ou processos produtivos inovadores nos três anos analisados, de 2012 a 2014 – a pesquisa é feita a cada triênio e a próxima será divulgada no fim deste ano. Entre as 457 empresas estrangeiras, 371 foram classificadas como inovadoras (81% delas). No grupo de 1.239 indústrias nacionais com mais de 500 funcionários o índice é de 62%, ou 766 empresas.

Na definição da Pintec, atividades inovadoras são caracterizadas pelo lançamento de produtos inéditos e aperfeiçoamento significativo de processos produtivos. O grau maior de inovação por parte das múltis brasileiras é explicado, em parte, pelo fato de terem filiais “num ecossistema diferente, enfrentando concorrentes locais, o que as obriga a serem competitivas naquele ambiente”, diz Fabrizio Panzini, gerente de Negociações Internacionais da CNI e responsável pelo estudo. Mesmo que o desenvolvimento seja feito pela filial, muitas vezes um grupo estrangeiro adquirido pela brasileira já com know-how, “os ganhos dos conhecimentos adquiridos também são trazidos para o Brasil”, acrescenta.

No caso das múltis estrangeiras, a maior parte das inovações vem das suas matrizes e, quando necessário, são adaptadas ao mercado brasileiro. Já parcela significativa das grandes empresas nacionais não reserva investimentos significativos em pesquisa e desenvolvimento (P&D).

Empresas querem diminuir tributação de lucros no exterior

A pesquisa do FET/CNI será apresentada a órgãos governamentais como suporte à reivindicação das múltis brasileiras contra a alta tributação de lucros no exterior, o que reduz a competitividade dos seus produtos.

As empresas locais que investem fora do Brasil recolhem 34% de Imposto de Renda (IR) sobre os lucros, descontando-se o porcentual pago no país onde estão instaladas. Por exemplo, os EUA cobram de 21% de IR de Pessoas Jurídicas. Repatriando ou não os ganhos, a empresa tem de recolher mais 13% no Brasil.

A maioria dos setores, contudo, conseguiu um crédito presumido de 9%, o que reduz essa tarifa para 4%, mas o desconto não vale se a taxa do país for abaixo de 20%, casos do Reino Unido e outros 20 países.

O direito a esse crédito acabará em 2022 e as múltis brasileiras se mobilizam para que isso não ocorra. Apesar do prazo de quatro anos, a urgência é porque muitas delas aguardam essa decisão para programar os investimentos que serão feitos a partir desse prazo.

“A média do tributo cobrado pelos países da OCDE é de 23%, e a maioria dos países caminha para reduzir essas alíquotas para menos de 20% enquanto no Brasil as empresas são penalizadas”, diz o presidente do Fórum de Empresas Transnacionais (FET), Dan Ioschpe.

Produtos vão de roda ‘flexível’ a motor para caminhão elétrico

Criada há cem anos por empreendedores do Rio Grande do Sul, o grupo Iochpe-Maxion – hoje com 31 fábricas, sendo quatro no Brasil e as demais em 14 países –, testa atualmente uma roda inédita no mundo. Desenvolvida nos centros da empresa no Brasil e na Alemanha, em parceria com a Michelin, ela se deforma ao passar por buracos e obstáculos.

“Ela é feita com alumínio e componentes flexíveis de borracha que, durante um impacto, se deforma para absorver a energia e não se romper ou amassar”, explica Marcos Oliveira, presidente da Iochpe-Maxion no Brasil. A “novidade mundial”, diz ele, está sendo testada na Europa e na Ásia.

Outro desenvolvimento já adaptado a um carro produzido no Brasil, o Renault Kwid, lançado há um ano, é uma roda de aço cuja aparência simula o alumínio, que é muito mais caro. O acabamento diferenciado também dispensa o uso de calotas.

O primeiro caminhão movido 100% a energia a ser fabricado no Brasil em escala comercial terá motor e inversores elétricos desenvolvidos pela Weg. “Decidimos desenvolver produtos exclusivos, sem nenhuma cooperação internacional, embora internacionalmente existam produtos similares”, diz Manfred Peter Johann, diretor superintendente da WEG Automação. O veículo será produzido em Resende (RJ) pela Volkswagen Caminhões e Ônibus a partir de 2020.

A empresa de bens de capital, fundada em 1961, tem 13 fábricas no Brasil e 24 em países como EUA, China, Alemanha e Índia. Mais de 50% da receita líquido do grupo de R$ 9,5 bilhões em 2017 veio das operações internacionais. Segundo Johan, a maior parte dos produtos da marca são desenvolvidos no Brasil.

“Tradicionalmente, uma empresa que inova gera mais exportações e mais empregos de qualidade”, afirma Dan Ioschpe, presidente do Fórum de Empresas Transnacionais (FET).

A Marcopolo – outro grupo gaúcho com quase 70 anos e dono de cinco fábricas no Brasil e 12 no exterior – vai investir este ano R$ 100 milhões em inovação, valor equivalente a 25% da receita obtida no primeiro semestre. O mais recente desenvolvimento da empresa no Brasil são carrocerias de ônibus feitas em alumínio e fixadas com parafusos.

Segundo André Armaganijan, diretor de Estratégia e Negócios Internacionais, atualmente as carrocerias são feitas de aço galvanizado e soldadas. A tecnologia foi herdada da filial australiana, incorporada ao grupo há dois anos. “A vantagem é que a carroceria é mais leve, a montagem é mais simples e o nível de corrosão é minimizado.”O grupo já tem um ônibus produzido na fábrica brasileira que está sendo levado para diversos países para demonstração. A ideia inicial é exportar o produto, pois ainda é muito caro para o mercado brasileiro, informa Armaganijan.

A indústria química Oxiteno já está testando com clientes uma solução para esmaltes sintéticos que, ao usar água em vez de solvente diminui significativamente o impacto desses produtos no meio ambiente. Só a emissão de gases de efeito estufa, por exemplo, é reduzida em 73%. Os esmaltes são usados na pintura de madeira e metal.

Depois do Brasil, o produto, será lançado nos EUA e no México nos próximo anos. A Oxiteno investe de 1% a 1,5% do faturamento anual em P&D e tem 12 fábricas no Brasil, EUA, México, Uruguai e Venezuela.

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