Múltis do Brasil voltam a investir no exterior

Múltis do Brasil voltam a investir no exterior

Entre janeiro e fevereiro, esse tipo de investimento já supera US$ 5 bi; Banco Central eleva projeção para o ano para US$ 15 bi

Leandro Modé, O Estado de S.Paulo

28 de março de 2010 | 00h00

Passado o susto com a crise global, as empresas brasileiras retomam com força o processo de internacionalização. Em fevereiro, os investimentos das chamadas multinacionais verde-amarelas no exterior atingiram o maior valor para um único mês desde que o Banco Central (BC) começou a acompanhar os dados: US$ 4,2 bilhões.

Com isso, o chamado IBD (Investimento Brasileiro Direto) já acumula em 2010 US$ 5,5 bilhões. O desempenho levou o BC a triplicar a projeção desse investimento no ano, de US$ 5 bilhões para US$ 15 bilhões. Ainda é um valor distante do recorde de US$ 28 bilhões alcançado em 2006, mas é inegável que as empresas brasileiras voltaram a ter confiança para expandir-se além das fronteiras nacionais.

Para se ter uma ideia, no ano passado, auge da turbulência, essas companhias trouxeram de volta ao País pouco mais de US$ 10 bilhões. "O que houve em 2009 foi um recuo tático, não estratégico", define o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Luís Afonso Lima.

Segundo ele e outros especialistas, os fatores que impulsionam as companhias brasileiras no processo de internacionalização podem ser divididos entre estruturais e conjunturais.

Sobrevivência. No primeiro caso, encaixa-se, por exemplo, o ganho de competitividade que a internacionalização traz. "Para sobreviver no próprio mercado doméstico, é preciso se internacionalizar", diz Afonso Lima.

"A atuação em outros países obriga a empresa a ser mais competitiva, melhorar seus padrões. Os benefícios disso se irradiam por toda a multinacional, inclusive para a matriz", completa o professor Álvaro Cyrino, do Núcleo de Negócios Internacionais da Fundação Dom Cabral.

Uma segunda razão é o ganho de escala. "Em alguns países, o tamanho do mercado é muito superior ao brasileiro", diz Cyrino. Ele lista um terceiro fator positivo para as empresas que encaram o desafio lá fora: redução do risco geográfico. "Dessa forma, a companhia não fica presa a um único país para obter seus resultados. Basta lembrar do péssimo momento por que passou o Brasil nos anos 80."

Pechinchas. Entre as razões conjunturais, destaca-se o rescaldo da crise global, que derrubou os preços de vários ativos no mundo. "Existem algumas pechinchas lá fora", afirma o estrategista-chefe do Banco WestLB no Brasil, Roberto Padovani.

As vantagens conjunturais não se restringem aos preços convidativos no exterior. É preciso acrescentar o poder de compra do real. "Com o câmbio favorável, torna-se mais barato investir lá fora", diz Padovani.

Ele lembra, ainda, que há ao menos um fator negativo nesse processo: a infraestrutura ruim do Brasil, que leva algumas empresas a buscar em outros países condições adequadas para aumentar a eficiência produtiva.

Para muitos, pode parecer estranho que uma empresa brasileira busque internacionalizar-se no momento em que o Brasil é considerado o "queridinho" dos investidores globais. "Não há contradição nisso", afirma Cyrino. "Em primeiro lugar, porque quem tem caixa pode fazer compras na bacia das almas. Em segundo, porque a crise não é eterna."

Perspectivas. A projeção da Sobeet para o IBD em 2010 é a mesma que a do Banco Central. "A diferença é que a nossa foi feita antes, com base em uma pesquisa que realizamos com empresas", diz Afonso Lima. Para Cyrino, da Fundação Dom Cabral, dificilmente o IBD baterá neste ano o recorde de 2006. "A menos que tenhamos alguma transação muito grande que acabe distorcendo as estatísticas, como aconteceu em 2006 quando a Vale comprou a (canadense) Inco", afirma. "Mas isso não está no radar hoje."

Do Brasil para o mundo

LUÍS AFONSO LIMA

PRESIDENTE DA SOBEET

"O que houve em 2009 foi um recuo tático, não estratégico"

"Para sobreviver no próprio mercado doméstico, é preciso se internacionalizar"

ÁLVARO CYRINO

PROFESSOR DO NÚCLEO DE NEGÓCIOS INTERNACIONAIS

DA FUNDAÇÃO DOM CABRAL

"A atuação em outros países obriga a empresa a ser mais competitiva, melhorar seus padrões"

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