Mundo estranho

Ninguém está entendendo perfeitamente o que está acontecendo

Fernando Dantas *, Impresso

16 Fevereiro 2018 | 05h00

Uma situação positiva é mais segura quando se compreende bem os fatores que a condicionam. Nesse caso, pode-se acompanhar esses fatores, e, caso comecem a mudar, há mais tempo para se adaptar a uma nova situação, menos positiva.

Esse parece ser cada vez menos o caso do cenário externo, que continua favorável ao Brasil. Enquanto isso ocorre, a economia global dá seguidas demonstrações de que mudanças ainda não muito bem compreendidas estão em curso. Está mais difícil de ler o que está acontecendo.

Algumas aparentes discrepâncias têm relação com a trajetória recente da rentabilidade do título do Tesouro americano de dez anos, que é considerada a taxa de juros mais importante do mundo. O rendimento do “treasury” de dez anos vem subindo com vontade, tendo saído de 2,04% no início de setembro para cerca de 2,9% nessa quarta e quinta-feira.

Em junho de 2013, quando o Fed, banco central dos Estados Unidos, anunciou meio desajeitadamente que cogitava desacelerar o programa de injeção de liquidez nos mercados, os investidores se assustaram. A rentabilidade do treasury de dez anos pulou de 2,2% para um pico de quase 3% em setembro. Em seguida, desceu um pouco, mas voltou a subir até ligeiramente mais que 3% em dezembro de 2013.

Na época, o câmbio brasileiro foi afetado pela alta do juro americano, como seria de se esperar. Mais rentabilidade nos Estados Unidos reduz o apetite para investimentos mais arriscados como os ativos brasileiros, o que freia o fluxo de dólares para o Brasil. O câmbio saiu de R$ 2,2 em junho de 2013 para R$ 2,44 em agosto, depois cedeu um pouco e voltou a R$ 2,44 em janeiro de 2014.

Agora, porém, o movimento do câmbio foi mais discreto em relação à alta do juro americano de longo prazo. Houve alguma depreciação do real de setembro para cá, de R$ 3,1 para pouco acima de R$ 3,2, mais bem menor em termos porcentuais do que em 2013. E, na verdade, o real oscilou bastante desde o segundo semestre de 2017, sem parecer estar reagindo primordialmente à alta do juro americano.

Outro fenômeno pouco comum é que, enquanto a rentabilidade do título do tesouro americano veio aumentando desde setembro, o risco Brasil medido pelo CDS – uma espécie de seguro de crédito de títulos brasileiros, e que, portanto, sobe quando o risco aumenta – em média caiu.

Uma análise “convencional” desse fato indicaria que, de uma hora para outra, os fundamentos econômicos brasileiros, relativamente aos americanos, melhoraram fortemente. É pouco crível, ainda mais que o mesmo movimento ocorreu com os principais países emergentes. Para nem dizer que a situação fiscal do Brasil continua periclitante.

Analistas também contorcem os miolos para tentar explicar por que, quando foi anunciada uma alta maior do que o esperado na inflação americana de janeiro na quarta-feira, e a rentabilidade dos treasuries deu um pinote de 2,83% para 2,9%, o dólar caiu ante as principais moedas.

Resumindo a abordagem tradicional, se a economia americana aquecer demais e a inflação subir, os juros do país vão se elevar também. E tudo isso deveria fortalecer o dólar.

Agora, porém, quando o dólar cai enquanto o juro americano sobe, especialistas dizem que é porque há expectativa de que a liquidez se contraia e o juro também suba nas economias da Europa e do Japão, atraindo os capitais para lá. Ou porque o populismo fiscal de Trump está tirando a confiança nos Estados Unidos. Mas não era esse mesmo impulso fiscal que ia fazer a economia americana ficar ainda mais aquecida, elevando inflação, juros e por tabela o dólar?

O fato é que ninguém está entendendo perfeitamente o que está acontecendo – com exceção, é claro, do sistema político brasileiro, que está tão seguro de que a maré boa para o Brasil vai continuar indefinidamente que quer porque quer adiar a reforma da Previdência para, supostamente, 2019.

* COLUNISTA DO BROADCAST E CONSULTOR DO IBRE/FGV

 

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