Mundo, por favor, não cresça

Economias do mundo, se unam! Não cresçam! Há o fantasma da dívida rondando o mundo. É isso que estão pedindo os principais economistas no cenário internacional. É difícil resistir à tentação de não parafrasear Marx, "trabalhadores do mundo, uni-vos !" ( Ainda bem que não se "uniram", porque os que assim fizeram foram jogados mais 70 anos na mais abjeta miséria e opressão. E a China? Vamos responder com a tirada genial do Veríssimo: " Na China, todo mundo é capitalista; só o governo é comunista." É um ninho de milionários.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

23 de maio de 2010 | 00h00

Só que desta vez o apelo não é aos trabalhadores, mas aos governos dos países ricos, capitalistas, que pesam mais de 50% do Produto Interno Bruto (PIB) mundial. Estados Unidos, União Europeia, duramente atingidos pela crise financeira.

Mas, não crescer como, se eles e o mundo só agora começam a se desembaraçar da recessão? Como se todos até há pouco pediam fervorosamente para que os governos investissem mais, mesmo ao custo de endividamento crescente para encurtar a recessão? Afinal, não deu certo? Deu.

A depressão de 1933 só terminou de verdade em 1939, com os "benefícios econômicos" da II Guerra. O desemprego chegou a 25% da força de trabalho. A atual, chamada agora de "grande recessão", durou 18 meses e o desemprego não passou de 10%! O que deu errado?

Dívida de US$ 43 trilhões . O argumento é que os países mais desenvolvidos se endividaram mais do que seria necessário. Só que ninguém disse, antes, qual seria esse limite. Sabe-se agora que a dívida pública dos 30 países mais desenvolvidos da OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico, é de US$ 43 trilhões. Para o Fundo Monetário Internacional (FMI), isso representa nada menos que 75% do PIB mundial.

Dívida dos EUA, neste ano, pelo menos até agora,72,6%. Da União Europeia? Acreditem, passou de 70% do PIB em 2007 para 94% agora. Já se sabia disso antes, mas foi preciso o estopim da Grécia para que caíssem na realidade. Na verdade, onde os governos não fizeram nada, a recessão foi mais profunda.

A Europa deve mais... e cresce menos. Para confirmar, basta ver que a recessão foi maior na eurozona, onde os governos hesitaram em intervir e, quando o fizeram, agiram de forma tímida, atabalhoada e desunida. O PIB da eurozona, neste trimestre, "cresceu" 0,2%, na verdade nada, enquanto nos EUA, onde o governo continua agressivo, cresceu 3,2%, graças à reação de Obama.

Fato importante: mesmo assim, os países da União Europeia carregam uma dívida em relação ao PIB maior que a dos Estados Unidos.

A solução é.... - Crescer menos, pregam até mesmo os que previram a recessão, como Nouriel Rubini, o profeta difamado. A resposta, de quase todos e insinuada até mesmo pelo FMI, é dar prioridade à redução da dívida. O drama é que isso só se consegue com aumento de juros, aumento de impostos e corte de gastos ou investimentos para elevar a receita. Resultado: desaceleração de uma economia mundial ainda enferma que queima em fogo brando.

Nada de um crescimento do PIB mundial de 4,2%, como prevê o FMI. Só consegue com o endividamento atual em valores difíceis de sustentar. É uma receita pouco aceitável por países que mal estão saindo da recessão.

E aqui? A tese ganhou adeptos importantes como Affonso Celso Pastore, Raul Velloso e muitos outros. Não porque a dívida assuste. A dívida bruta é de 64%, mas a líquida é de apenas 46% ea está sob controle.O problema é que estamos crescendo cerca de 8% do PIB anualizado, 7% este ano, baseado no aumento consistente do consumo interno estimado em 10%. Isso sem contrapartida de investimentos em produção. Eles devem chegar a 19% do PIB este ano, e para manter o ritmo atual precisaria ser de 25%, diz Pastore. O resultado já estamos sentindo: inflação que passa dos 5% e déficit em conta corrente. Estamos crescendo com a poupança alheia, com investimentos que continuam entrando no País, o que gera dependência delicada e pode agravar a conta externa, o que temos de pagar lá fora por ano, e nos coloca em uma exposição desconfortável aos humores do cenário internacional.

Tudo isso não chega a preocupar no momento. Temos mais medo da inflação do que da dívida interna. Não precisamos, por enquanto, internar fantasmas que assombram o mundo lá fora. Mas que eles existem, ah, existem sim.

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