Mundo tem de se preparar para nova era do petróleo caro

Restam poucas dúvidas de que os preços do petróleo vão continuar elevados por um longo tempo, provavelmente quebrando novos e sucessivos recordes. As razões para esse cenário preocupante são bem conhecidas. A demanda mundial está crescendo, o aumento da produção é limitado e tende atingir um pico nos próximos anos e problemas como greves em países produtores, tensões políticas no Oriente Médio ou manutenções em refinarias, vão manter os mercados nervosos. A tese de que a alta dos preços é um mero "ciclo" alimentado pela recuperação econômica mundial vai dando espaço para a convicção de que estamos diante uma "nova era" de petróleo caro. Diante dessa perspectiva, governos, empresas e investidores tentam calcular o impacto sobre a economia mundial.Muito se fala que se os atuais preços do barril estão muito próximos de representar um choque semelhante ao ocorrido ao choque de energia do final da década de 70. Mas o economista Lawrence Eagles, da Agência Internacional de Energia (AIE), em entrevista à Agência Estado, diz que essa comparação ainda é precipitada. Segundo ele, o preço médio anual petróleo atingiu seu nível mais elevado em 1980, quando o barril foi negociado a US$ 82,95, em termos reais, ou seja, preços de hoje. Ou seja, os preços correntes - na faixa dos US$ 60 - ainda estão distantes desse nível, embora um número crescente de analistas aposte que ele será alcançado, cedo ou tarde. Mesmo que o barril atinja o patamar de preços do choque dos anos 70, isso não significa que o efeito sobre a economia mundial será equivalente.Eagles observa que ao longo dos últimos 35 anos o perfil do consumo do energético mudou muito. "A dependência de muitos países do uso do petróleo foi reduzida, com a aplicação de outras fontes energéticas", explica. "Há muitos outros fatores variáveis que precisam ser levados em consideração, desde técnicos como macroeconômicos." Essa mudança na intensidade do uso do petróleo tende a aliviar o impacto inflacionário da alta nos preços. Não há cálculos precisos para se saber qual o preço necessário para um "novo choque" levando-se em consideração essas mudanças. Mas certamente, como observa Eagles, seria necessário adicionar mais dólares ao preço médio registrado em 1980.Embora a economia mundial ainda esteja pelo menos um pouco distante de um cenário semelhante ao choque do petróleo dos anos 70, o fato é que ela já está sendo penalizada pela escalada dos preços da commodity nos últimos dois anos. O economista-chefe da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, afirma que os atuais preços vão reduzir em 0,8% o crescimento do PIB mundial em 2005 e alargar os déficits em conta corrente tanto em países ricos como nos emergentes. Ele lembrou que estudos realizados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Mundial mostram que os preços do petróleo, que registraram a média de US$ 43,50 por barril em 2004, reduziram a expansão da economia mundial em 0,5%, no ano passado, como a AIE havia previsto. Birol disse que a produção de petróleo deverá aumentar no início de 2006, mas mesmo essa maior oferta não será capaz de aliviar a constante elevação do consumo.Consumo menorO assessor econômico sênior do banco de investimentos UBS, George Magnus, em artigo publicado no jornal Financial Times, afirma que os preços atuais ainda não colocaram a economia mundial sob um estresse ainda maior pelo menos por três razões. Os países desenvolvidos usam hoje cerca da metade de petróleo por unidade do Produto Interno Bruto do que usavam na década de 70. Além disso, observa o economista, os países produtores de petróleo, com os bolsos cheios de recursos, estão dando um estímulo à economia mundial. Suas importações cresceram 32% no ano passado e outros 22% no primeiro trimestre de 2005. "Países com grandes superávits no balanço de pagamentos investiram nos mercados de capitais globais, principalmente dos Estados Unidos, e assim ajudaram a sustentar os baixos níveis de taxas de juros de longo prazo", disse Magnus.Mas o economista do UBS alerta que não pode haver espaço para complacência. O aumento nos gastos causado pela alta do petróleo ao longo dos últimos dois anos foi de cerca de 2,7% do PIB para os Estados Unidos. Entre outros fortes importadores de petróleo, a segunda maior vítima foi a África, com um custo equivalente a 2,3% do PIB, ou cerca de US$ 32 bilhões. Para a Europa, Estados Unidos, Japão, Ásia e América Latina, esses custos variam entre 1,7% e 2% do PIB.Magnus calcula que caso o petróleo permaneça na casa dos US$ 60 por barril, o impacto daqui um seria uma queda entre 1% e 2% no PIB da Coréia do Sul, Taiwan, Turquia e África do Sul e de até 1% na China, boa parte da Europa, Japão e Estados Unidos. O déficit em conta corrente dos Estados Unidos seria ampliado em mais 1% do PIB. A transferência total de recursos dos países importadores para os produtores até 2007 é estimada em US$ 1,5 trilhão, ou 3,5% do PIB mundial.

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