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Marcos Issa/Getty Images
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Murilo Ferreira assume a Vale e vai buscar gestão mais descentralizada

Novo presidente da mineradora, que assume o cargo hoje em lugar de Roger Agnelli, terá o desafio de equilibrar as cobranças dos investidores com os interesses do governo, que teve atuação decisiva na saída de seu antecessor

Mônica Ciarelli / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de maio de 2011 | 00h00

A era Roger Agnelli na Vale, que durou uma década, termina hoje, quando o executivo passar o cargo de presidente da segunda maior mineradora do mundo para o mineiro Murilo Ferreira. Com a cadeira, o executivo herda a delicada tarefa de satisfazer os interesses dos investidores e do governo, que teve influência direta no afastamento do seu antecessor.

A pessoas próximas, Ferreira tem dito que pretende buscar uma gestão mais descentralizada da empresa, mudando o estilo de comando a que a empresa havia se acostumado com Agnelli, tido como um executivo mais centralizador. Quem já trabalhou com Ferreira diz que sua postura é a de delegar poderes, sem deixar de acompanhar de perto todas as etapas dos principais projetos.

Apesar de assumir uma empresa altamente lucrativa (foram R$ 11,2 bilhões só no primeiro trimestre), e com um ambicioso plano de investimentos, que chega a US$ 24 bilhões para este ano, Ferreira sabe dos desafios que o esperam. "O principal desafio do Murilo Ferreira será reconquistar os investidores. Provar que não vai se curvar ao governo", afirmou o chefe da área de análise da gestora de recursos Modal, Eduardo Roche. O processo de saída de Agnelli, com forte interferência política, provocou a queda nas ações da mineradora este ano.

Até agora, a longa experiência do executivo no setor - ele trabalhava na própria Vale até 2009 - não aplacou o temor de uma maior ingerência política nas decisões da mineradora, priorizando o desenvolvimento social acima dos lucros. A União está no bloco de controle da Vale diretamente, por meio do BNDESPar, braço de participações do BNDES, e indiretamente, pela Previ, fundo de pensão dos funcionários do Banco do Brasil.

"A relação entre o governo e as mineradoras sempre foi muito grande. O problema agora é que qualquer movimento pode ser interpretado como ingerência política", disse Pedro Galdi, chefe do departamento de análise da corretora SLW. Para ele, Ferreira vai pegar uma empresa bem financeiramente e com projetos que vão permiti-la dobrar de tamanho em cinco anos. Para Galdi, a maior dificuldade será a Vale provar aos investidores que seus planos têm como foco principal seu crescimento.

Relações. Além de reconquistar acionistas, Murilo também terá de reconstruir as relações entre a Vale e o governo, que ficaram estremecidas nos últimos dois anos, principalmente após a demissão de quase 2 mil empregados, em 2008, em meio à crise financeira global. O desafio de Ferreira passa por dois temas: os investimentos no setor siderúrgico e os royalties da mineração.

Os investimentos em siderurgia, no entanto, não são vistos com bons olhos pelo mercado. Para ganhar respaldo entre os investidores, portanto, o novo comandante da mineradora terá de conter a pressão governamental para envolver a Vale em projetos siderúrgicos.

Popular entre políticos, por criar muitos empregos e ser um produto com maior valor agregado em relação ao minério, o segmento oferece um retorno baixo para a Vale, que consegue margens muito melhores na comercialização do minério de ferro, insumo que teve seu preço reajustado em mais de 100% no ano passado. Roger Agnelli chegou a dizer que não gostaria de se tornar um concorrente dos seus próprios clientes.

Outro desafio de Murilo Ferreira será buscar uma saída rápida - e que agrade ao governo e aos acionistas - para a disputa relacionada a uma dívida de royalties de mineração. O processo se arrasta desde 1991, mas, veio à tona este ano, durante as especulações em torno do interesse do governo na saída de Agnelli da presidência da Vale.

O Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) cobra uma dívida de R$ 4 bilhões relativa aos royalties sobre o minério extraído das minas da companhia no Complexo Carajás, no Pará. A empresa alega que a cobrança é irregular.

Além desse imbróglio, Ferreira terá de se posicionar ainda sobre outro ponto polêmico: o pleito de vários municípios mineradores, que exigem um aumento na alíquota dos royalties da mineração, que, hoje, está em 2% sobre as vendas do minério.

 

 

PERFIL

Murilo Ferreira, Novo presidente da Vale      

 

 

 

 

Personalidade tranquila é característica

 

 

 

 

Murilo Ferreira, que assume hoje o comando da Vale, é conhecido por ser um bom ouvinte e privilegiar o trabalho em equipe. Ex-funcionário da mineradora, o executivo ficou satisfeito ao saber que membros de sua antiga equipe - ele saiu em 2009, quando comandava a subsidiária canadense Inco - continuam na mineradora, e que muitos foram até promovidos. Fato que ele teria comemorado com pessoas próximas, dizendo ser a prova de que havia feito a escolha certa de seus colaboradores.

Para um executivo do setor que o conhece há muitos anos, sua personalidade tranquila deve facilitar a transição. "Ele sempre fala baixo e ouve com muita atenção a opinião dos outros", ressaltou. Mesmo antes de assumir, o estilo de Ferreira já começou a ser mostrado. Nas últimas semanas, ele vinha cumprindo expediente diário na companhia e aproveitado para visitar todas as instalações da sede da Vale, no centro do Rio de Janeiro.

Ferreira também tem buscado se aproximar da atual diretoria executiva. Do tempo em que era diretor, entre 2007 e 2009, só restaram no primeiro escalão os executivos José Carlos Martins e Tito Martins. Ambos foram cotados para a presidência, durante o processo de escolha do substituto de Agnelli.

 

 

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