Muro econômico foi o primeiro a ser erguido

Em 13 de agosto de 1961, os alemães acordaram para ver Berlim separada por um muro. Para conter as fugas para a República Federal da Alemanha (capitalista), a República Democrática Alemã (socialista) havia fechado as fronteiras setoriais entre Berlim Oriental (RDA) e Ocidental (RFA) e construído um muro. Com quatro metros de altura e 40 quilômetros de extensão, a estrutura circundava toda a Berlim Ocidental e era equipada com dispositivos antifuga que incluíam guaritas de vigilância, cães treinados, redes eletrificadas com alarmes, campos minados e metralhadoras.

LIZ BATISTA, O Estado de S.Paulo

12 de outubro de 2014 | 02h06

Aos soldados da RDA foi concedida a prerrogativa de atirar para matar qualquer um que ousasse atravessar a barreira. Mas, antes da ostensiva barreira física, derrubada em 9 de novembro de 1989, uma separação econômica marcou o início da história da Alemanha dividida, a reforma monetária de 1948. O país - dividido em quatro setores depois da 2.ª Guerra Mundial, três sob comando das potências ocidentais, Estados Unidos, Inglaterra e França, e um sob controle da União Soviética - vivia as privações do pós-guerra, com a economia em frangalhos, desvalorização monetária, altíssimas taxas de desemprego e crises de abastecimento. Um plano econômico foi desenvolvido e os bons ventos e dólares do Plano Marshall (plano de ajuda americano para a reconstrução dos países aliados no pós-guerra) começaram a soprar sobre Alemanha Ocidental.

Marco alemão. O primeiro passo foi a adoção de uma nova moeda, o deutschmark, em 20 de junho de 1948. Cunhado nos Estados Unidos, o marco alemão foi distribuído aos alemães da parte ocidental nos guichês onde se recebiam cupons de alimentação. Cada cidadão recebeu exatos 40 marcos, na data que é lembrada como o dia em que todos foram igualmente ricos e pobres. No dia seguinte, um cenário esculpido pela economia planificada se apresentou diante dos cidadãos da parte ocidental, prateleiras cheias à disposição do poder de compra da sua nova moeda.

Bloqueio de Berlim. A reação soviética veio em poucos dias. O marco alemão oriental foi implantado e em 24 de junho de 1948 um bloqueio foi erguido sobre Berlim, que se situava dentro das fronteiras do setor russo. Numa das mais graves tensões do período da Guerra Fria, a União Soviética cortou as comunicações terrestres e fluviais para a cidade. O bloqueio, que durou quase um ano, foi contornado pelas potências ocidentais com pontes aéreas que levaram suprimentos a Berlim Ocidental.

No dia em que o bloqueio começou, o Estado publicou uma análise sobre seu impacto na transição econômica: "A experiência tentada hoje é sem dúvida única no gênero, em qualquer parte do mundo. Desde logo, os meios econômicos berlinenses declaram que a possibilidade de o marco ocidental se manter em Berlim, onde será combatido pelo marco oriental, dependerá do seu poder aquisitivo efetivo, ou seja, em última instância, do abastecimento da cidade em produtos alimentares e manufaturados. O marco que melhor servir para comprar vencerá essa luta em Berlim." A análise manteve-se assertiva até a reunificação da Alemanha em 1990.

Os anos seguintes seriam orientados por essa máxima. Um mês após a reforma monetária, a Alemanha Ocidental - capitaneada pelos esforços de Ludwig Erhard, que se tornou chanceler da RDA em 1963 - adotou uma medida arriscada. Aboliu o racionamento de comida e pôs fim ao controle da produção e dos preços, uma guinada econômica que vigorava desde os anos do Reich. Erhard acreditava que o mercado se regularia, afirmava que o único cupom de racionamento que as pessoas precisariam seria a própria moeda e que os alemães trabalhariam duro para obtê-la.

Milagre econômico. O risco valeu a pena. O Estado de 1955, contava que, em cinco anos, a Alemanha Ocidental havia mais que dobrado sua produtividade industrial e obtido apreciáveis resultados na agricultura: "As exportações não cessaram de aumentar e, a despeito da entrada permanente de refugiados em seu território, a República Federal encontra-se praticamente na situação de pleno emprego". O pleno emprego foi atingido no fim da década de 60, período em que o Wirtschaftswunder, milagre econômico alemão, floresceu. Nem um muro conseguiu conter a força atrativa da prosperidade econômica da Alemanha Ocidental.

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