Música erudita na favela

Desde o início do século 20, as novas tecnologias se transformaram em extraordinário fator de difusão da música em todo o mundo, com o advento da gravação elétrica, do rádio, da TV, dos CDs, da internet e de outros avanços tecnológicos. Aliás, com a internet, esse poder de difusão pode crescer ainda muito mais: só no YouTube já existem milhares de horas de documentos armazenados em vídeo sobre a música clássica e seus intérpretes. É claro que, para encontrar alguns gramas de ouro, temos que remexer toneladas de lixo, em especial, na massa de conteúdos tão díspares do YouTube.

ETHEVALDO SIQUEIRA, O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2012 | 03h10

A propósito, ouvi de especialistas, em evento internacional recente, a previsão de que a internet poderá promover uma fusão profunda entre o rádio, a TV aberta e a TV por assinatura e transformar-se em novo e poderoso meio de difusão da música, entre outros conteúdos.

Num segundo cenário, além da tecnologia, existem circunstâncias ainda mais poderosas para estimular o gosto pela música clássica entre jovens e crianças, entre as quais, o ambiente familiar, a educação artística precoce, a influência do meio social, as oportunidades culturais decorrentes do acesso a eventos públicos gratuitos.

Por último, mas não menos importante, destaco o trabalho de alguns raros idealistas capazes de transformar grupos de meninos de origem muito humilde em corais e orquestras de surpreendente qualidade.

Pense, leitor, na magnífica contribuição dos maestros Sílvio Baccarelli e João Carlos Martins, em favelas paulistanas, como Heliópolis e Paraisópolis. Esses projetos provam que podemos, realmente, não apenas despertar o gosto pela música clássica em crianças e jovens de baixa renda, mas, mais do que isso, formar com eles conjuntos de música erudita de qualidade.

Diante do sucesso extraordinário dessas orquestras jovens, eu me pergunto sempre: por que não ampliar nacionalmente essas experiências, com apoio de mais empresas públicas e privadas, de governos e de todos os tipos de instituições culturais?

O ponto essencial desse trabalho, para mim, é provar que o gosto pela música pode ser despertado em muitas crianças que não tiveram o privilégio de nascer e ambiente familiar e social favorável. Basta que elas tenham oportunidade e a devida educação musical.

Sem oba-oba. O Brasil poderia ampliar significativamente o ensino e a difusão da música erudita. O ideal é que todo apoio cultural de empresas públicas e privadas fosse concedido de forma séria e contínua, com aferição dos resultados e sem o desperdício de recursos com a simples propaganda dos projetos. Certos incentivos culturais governamentais acabam sendo consumidos mais em publicidade do que na aplicação direta em sua finalidade.

Outras vezes, os projetos ganham tons partidários e ideológicos. Isso aconteceu até com nosso imortal Villa-Lobos, durante a ditadura Vargas, ao organizar e levar corais de centenas de estudantes a estádios para aplaudir e exaltar o Estado Novo.

Precisamos de milhares de ações de estímulo ao gosto musical, de apoio aos jovens talentos, de todas as camadas sociais e econômicas. Precisamos, sim, de muitas viradas culturais, como a que se faz em São Paulo uma vez por ano, que envolvam toda a sociedade.

Minha descoberta. A música tem sido para mim uma espécie de oxigênio espiritual. Sou um privilegiado por ter descoberto a beleza da música ainda garoto, no ambiente familiar. Por ter tido contato frequente com a música clássica em casa, por ter descoberto o violino, a partir dos sete anos, com um tio e minha mãe.

O rádio, também, ampliou muito meu contato com a música, além de ter sido minha primeira janela para o mundo. Além da paixão pela notícia, ele me proporcionou muito maior contato com a música de boa qualidade, em especial com alguns programas de música clássica transmitidos por algumas emissoras, até em AM, como as Rádios MEC, Roquette-Pinto, Jornal do Brasil, Eldorado e Excelsior.

No antigo Colégio Municipal de Bebedouro, tínhamos um coral de 90 alunos, sob a direção de Pedro Pellegrino, um maestro e professor de violino, que me deu as melhores aulas desse instrumento. Ele nos encantava ao tocar músicas como Poema, de Fibich ou da Ária para a Corda Sol, de Bach, ao violino. E nos ensinava que "o bom violinista tem que tocar com paixão, transmitir emoção e, se possível, fazer as pedras chorarem".

As orquestras. Com Eleazar de Carvalho, aprendi o que é uma orquestra sinfônica, ao frequentar seus concertos para a juventude. Em seguida, descobri a beleza das sinfonias de Mozart, ao assistir aos concertos gratuitos da orquestra da Rádio Gazeta. Uma noite, com essa orquestra, então regida por Edoardo de Guarnieri, ouvi pela primeira vez a Sinfonia n.º 40, Mozart, ao som da qual Schubert dizia "ouvir até o canto dos anjos."

Lembro-me da alegria com que ouvi pela primeira vez uma orquestra de fama mundial, a Filarmônica de Nova York, que visitava São Paulo em 1957, sob a regência de Dimitri Mitropoulos e que tocou até ao ar livre, no Vale do Anhangabaú, do lado do Teatro Municipal. Nos anos 1980, conheci o regente indiano Zubin Mehta e, com ele, pude curtir a beleza musical das Filarmônicas de Israel e de Nova York.

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