Na Argentina, clima de austeridade

Pela primeira vez em meia década de expansão econômica, consumo nas festas de fim de ano despenca no país

Ariel Palacios, Buenos Aires, O Estadao de S.Paulo

20 de dezembro de 2008 | 00h00

Pela primeira vez desde o fim da crise econômica, financeira e social de 2001-2002, a maior da história da Argentina - e depois de ter batido recordes de consumo no Natal de 2007 -, o país novamente assiste a uma queda generalizada das vendas natalinas. As lojas tentam vender seus estoques, sem sucesso, mesmo recorrendo a promoções especiais e grandes descontos, que oscilam entre 20% e 50% do preço original. Mas, apesar da tentação, os argentinos, assustados com a crise mundial e as perspectivas cada vez maiores de recessão, estão dispostos a gastar muito menos do que na meia década de crescimento que acaba de terminar. As principais ruas comerciais estão vazias e sem as multidões de consumidores dos últimos cinco anos. O lamento mais ouvido é: "Entram muitas pessoas para olhar, mas comprar, ninguém compra".Carlos de la Vega, presidente da Câmara Argentina de Comércio (CAC), diz que as vendas nas semanas que antecedem o Natal caíram pelo menos 15% em comparação com o mesmo período do ano passado. Vários produtos relacionados às festas de fim de ano estão tendo quedas mais drásticas. É o caso do panetone, cujas vendas caíram até 30%, assim como os torrones, com quedas de 25%. E na primeira metade de dezembro as vendas de brinquedos caíram até 30%.De acordo com De la Vega, no interior da Argentina, nas áreas afetadas pelo conflito que os ruralistas mantiveram ao longo do ano com a presidente Cristina Kirchner, a desaceleração é maior. De la Vega considera que no interior do país a queda nas vendas será 10% superior à de Buenos Aires.As empresas também contiveram os gastos nas festas de fim de ano dos funcionários. Segundo diversas companhias organizadoras de eventos, a contratação para jantares e shows caiu 30%. No quesito "presentes empresariais", o encolhimento orçamentário provocou queda de 40% nas vendas. Nos restaurantes, as reservas para o Natal e o Réveillon caíram 30%. Os restaurantes dos bairros mais freqüentados pelos turistas, como Puerto Madero e Recoleta, esperam compensar a ausência dos argentinos pelos turistas estrangeiros que desembarcam neste fim de semana para passar a semana de Natal em Buenos Aires.Ao longo das últimas semanas, o governo da presidente Cristina Kirchner anunciou várias medidas para reativar a economia e estimular o consumo. Entre elas, linhas de crédito para a compra de automóveis zero quilômetro, de eletrodomésticos e de pacotes turísticos no país, além de uma cesta de Natal "popular" a US$ 3,50 e um adicional de US$ 70 para três quartos dos aposentados.No entanto, os economistas afirmam que as medidas chegaram tarde demais para dar resultados positivos neste Natal. Na sexta-feira, o governo anunciou uma medida adicional: a redução de 50% dos juros nas parcelas dos eletrodomésticos.MÁS NOTÍCIAS Na semana passada, várias notícias tornaram o panorama para o resto de dezembro e todo o ano 2009 mais sombrios. O Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec) anunciou que o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 6,5% no terceiro trimestre, em relação ao mesmo período de 2007. Em comparação com o segundo trimestre deste ano, o aumento foi de apenas 1,3%. Ambos foram os mais baixos desde 2003, ano em que o país começou a sair da pior crise de sua história. Além disso, o Indec também anunciou que a fuga de divisas é a maior desde 2001. De abril a setembro, chegou a US$ 8,9 bilhões. Desse total, só no terceiro trimestre saíram do país US$ 5,02 bilhões. No meio desse cenário negativo, a agência de classificação Fitch anunciou a redução da nota sobre os bônus da dívida pública argentina de "B" para "B-". Por trás da redução da nota está a inquietude provocada pelas exigências fiscais e financeiras que o governo deverá enfrentar até 2010.Para complicar, o Instituto de Finanças Internacionais (IFF) prevê que a Argentina entrará em recessão em 2009 e voltará a dar calote na dívida pública. Segundo o IFF, o PIB argentino vai cair 0,4% em 2009. A avaliação dos empresários sobre a situação do país também não é boa. Pesquisa da Sociedade de Estudos Trabalhistas indicou que, enquanto 44% dos empresários dizem que o clima para negócios no país é "bom" e "muito bom", 56% afirmam que é "ruim" e "regular".

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