Na Argentina, governo vira o maior empregador

Número de vagas nas esferas federal, provincial e municipal cresceu 11,2% em 2 anos, para 1,5 milhão, enquanto no setor privado caiu 0,1%

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE/ BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2013 | 02h05

O Estado argentino transformou-se no principal gerador de postos de trabalho na Argentina. Entre 2010 e 2012, o número de vagas de emprego cresceu 11,2%, segundo o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos (Indec), que indica a existência de 1,541 milhão de postos no setor público federal, municipal e provincial.

Dos 155 mil criados nesse intervalo de tempo, mais de 100 mil pertencem a estruturas provinciais, enquanto 14,5 mil correspondem a empresas estatais (amplamente beneficiadas pela presidente Cristina Kirchner).

Outros 9 mil estão em universidades federais. Há ainda 7 mil postos no governo da cidade de Buenos Aires e 5,5 mil na administração central. Mas, no total, incluindo os postos de trabalho terceirizados pela estrutura estatal em todas as esferas, o volume de empregos públicos envolve 3 milhões de argentinos.

Enquanto isso, os postos de trabalho em relação de dependência no setor privado, que encolheu 0,1% entre 2011 e 2012, estão praticamente estancados em 6,29 milhões de empregos. Já os autônomos e prestadores de serviços constituem quase 2 milhões de pessoas.

Em 2012, o Instituto para o Desenvolvimento da Sociedade Argentina (Idesa), havia alertado para o fato de que o emprego público estava aumentando em uma velocidade cinco vezes superior ao crescimento da população argentina. Para analistas, o governo da presidente Cristina Kirchner tenta compensar a queda nos investimentos e na desaceleração da produção com a ampliação das estruturas das estatais, que continuam altamente deficitárias, como a companhia aérea Aerolíneas Argentinas.

O estancamento do setor privado está sendo acompanhado pela desaceleração da economia. Segundo a consultoria Ferreres e Associados, no primeiro bimestre deste ano a economia cresceu 0,5%, embora a expectativa fosse de uma alta de 2%. Nos primeiros dias após o Réveillon, existia uma esperança de uma excelente colheita de soja (que fracassou) e de uma retomada em grande estilo do crescimento da economia brasileira, da qual a indústria argentina possui grande dependência. Mas nada disso ocorreu. O economista Maximiliano Castillo, da consultoria ACM, destaca ainda que embora o primeiro bimestre exiba uma balança comercial superavitária, de US$ 800 milhões, esta é 58% inferior ao volume registrado no mesmo período de 2012.

Neste contexto de desaceleração, a tensão sindical aumenta a cada mês. Os líderes das alas "rebeldes" da Confederação Geral do Trabalho (CGT) e da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA) ameaçam realizar greves gerais e manifestações ao longo de abril, caso o governo não concorde em aumentar os salários entre 25% e 30%. A Casa Rosada rejeita aumento superior a 20%, pois considera a possibilidade de uma escalada inflacionária.

Enquanto evita aumentos salariais, o governo Kirchner - que nega a existência dessa escalada - age no controle de preços. Há poucas semanas o secretário de comércio interior, Guillermo Moreno, anunciou a prorrogação do congelamento de preços de produtos em supermercados e lojas de eletrodomésticos para 31 de maio. A medida havia sido imposta nos primeiros dias de fevereiro e duraria até 1º de abril.

Apesar disso, segundo economistas, a inflação só reduziu sua escalada pela metade. As consultorias indicam alta de 1% em março, mesma proporção de fevereiro. Fontes consultadas pelo Estado não descartam que o governo Kirchner tente prolongar o congelamento até as eleições parlamentares de outubro. Economistas sustentam que o governo está criando uma bomba-relógio, já que os preços dispararão quando o congelamento acabar.

Brasil. Neste contexto de incertezas, as empresas brasileiras estão partindo gradualmente da Argentina, após uma década de grandes investimentos. Na semana passada, a Deca anunciou que deixa o país depois de 18 anos de presença. Diversos rumores indicam que a Petrobrás estaria a ponto de vender grande parte de seus ativos ao empresário kirchnerista Cristóbal López. Semanas atrás foi a vez da Vale cancelar um investimento de US$ 6 bilhões na exploração de potássio na província de Mendoza.

Segundo a consultoria Abeceb, a "paciência estratégica" do Brasil está acabando por causa "do aprofundamento dos controles comerciais". "Um dos efeitos possíveis é que a Argentina perca importância como destino de investimentos brasileiros", dizem os economistas da instituição. O país também perderia posicionamento perante outros países da região, como Chile, Peru, Colômbia, Uruguai e Paraguai.

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