Na cartilha da AMBEV

Para crescer, a Flora, empresa de higiene e limpeza do grupo J&F, aposta em modelo de metas agressivas e bônus generosos

CÁTIA LUZ, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2012 | 03h07

Um painel eletrônico mudou neste ano a rotina dos vice-presidentes e do presidente da Flora, companhia de higiene e limpeza da holding J&F, que pertence aos mesmos donos do JBS, maior frigorífico do mundo. Todo dia, na hora de entrar na empresa, não há quem não confira o quadro pendurado na parede ao lado das mesas dos executivos.

O painel estampa o desempenho do time até o momento e o quanto será preciso suar a camisa para atingir a meta traçada pelo comando da empresa. Na sexta-feira, o quadro marcava 38,6%, indicando o porcentual dos 200 clientes considerados mais representativos que já têm em suas gôndolas o mix de produtos definido como obrigatório pela companhia. O objetivo é atingir 50% desses varejistas até setembro. "É o que a gente chama de gestão à vista", diz Eduardo Luz, presidente da Flora, que completa um ano à frente da empresa no mês que vem.

Desde que Luz assumiu a companhia com a vontade de criar "a maior empresa de cosméticos e limpeza do país", metas agressivas - e quadros para ninguém esquecê-las - espalharam-se pela Flora, dona de marcas como Ox, Minuano e Francis. "A partir da meta geral da empresa de crescer dois dígitos em relação ao ano anterior nos próximos três anos, criamos metas individuais e para as áreas", diz o executivo.

Nas entradas das fábricas, por exemplo, cartazes estampam o objetivo de se manter a produção acima de 80% da capacidade fabril. Entre os vendedores, não basta "tirar o pedido". "É responsabilidade deles ter o produto disponível na loja, bem exposto e no preço correto ", explica Carlos Siqueira, vice-presidente de vendas da Flora. "A remuneração variável do vendedor está relacionada a essa execução na loja", acrescenta Siqueira.

Eduardo Luz garante que, sem as metas extremamente agressivas, a empresa não teria feito o que fez até agora. Segundo o executivo, em menos de um ano, além de reestruturar todo o comando e as equipes da empresa, a Flora reposicionou e relançou dez das treze marcas que possui. "Aprendemos a ser muito rápidos. A integração das marcas Assim e Mat Inset, compradas da Hypermarcas em outubro, foi concluída três meses", explica o executivo.

A empresa espera fechar o ano com um faturamento de R$ 1,2 bilhão, um crescimento de 15% em relação ao ano passado.

Recompensa. O esforço para atingir as metas é vinculado a bônus polpudos. No caso do presidente e dos vice-presidentes, pode-se alcançar 18 salários adicionais por ano. Como incentivo, os executivos receberam ainda uma fatia da empresa: cerca de 10% da Flora estão nas mãos deles. "A empresa tem estratégias muito diferentes às quais o setor está habituado", diz um concorrente. "Como não têm tradição, eles precisaram ser agressivos para conseguir atrair um time e para crescer num mercado dominado por multinacionais com marcas muito conhecidas".

Para reforçar a Flora, Luz buscou no mercado pelo menos 40 executivos - de nível superior ao gerencial - vindos de empresas como Unilever, Johnson&Johnson e AB Inbev. Ex-diretor da área de cuidados pessoais da Unilever, Luz, no entanto, parece ter mais afinidade com os princípios da cultura Ambev: ele foi responsável pela operação da AB Inbev na Romênia.

Criada pelo trio Jorge Paulo Lemann, Carlos Alberto Sicupira e Marcel Telles, a cultura Ambev é especialmente agressiva na cobrança de metas e amplamente compensadora para os bem-sucedidos.

Perguntado sobre a influência da cervejaria no seu estilo de gestão, Luz é direto. "Somos uma empresa emergente. É natural nos inspirarmos em boas práticas. Nossos concorrentes fizeram o mesmo em suas histórias", diz. "Estamos criando o jeito Flora de fazer as coisas."

Segundo Betânia Tanure, consultora da BTA, o risco de uma estratégia como essa é se concentrar demais nos aspectos econômico-financeiros, deixando de lado a formação de uma cultura mais ampla. "Isso pode privilegiar os resultados do curto prazo e comprometer o futuro da empresa". Na tentativa de deixar isso não ocorrer, a carta de princípios da companhia está impressa nas portas da empresa, destacando itens como 'espírito de dono'. "É o famoso 'o combinado não sai caro'. Está aqui como devemos agir", define Luz.

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