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LAM YIK FEI/NYT - 27/5/2019
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Na contramão do Fed, China pode fornecer novos estímulos à economia

Depois de reduzir a taxa de depósitos compulsórios no país, o Banco Central da China manteve a taxa básica de juros inalterada; nos EUA, inflação pressiona o Federal Reserve a reduzir estímulos monetários

Iander Porcella, O Estado de S.Paulo

20 de julho de 2021 | 10h00

SÃO PAULO - Enquanto o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) debate quando iniciar a retirada dos estímulos à economia americana, o Banco do Povo da China (PBoC, na sigla em inglês) dá um passo atrás na normalização monetária. A decisão da autoridade asiática de reduzir o compulsório dos bancos gerou até especulações de que o Produto Interno Bruto (PIB) do país no segundo trimestre pudesse vir mais fraco do que o esperado. No fim, a atividade econômica chinesa cresceu conforme o previsto de abril a junho. Mas analistas ainda veem riscos e apostam em mais medidas de estímulo. Alguns esperam até mesmo um corte de juros.

O compulsório é o montante mínimo de reservas que os bancos devem manter sobre seus depósitos. Quando a taxa é cortada, as instituições bancárias ficam com mais dinheiro livre para emprestar. Na prática, portanto, a medida tomada pelo PBoC é uma forma de estimular a economia, já que a quantidade de moeda em circulação aumenta.

A decisão foi recebida com surpresa no mercado porque o BC da China havia começado a reduzir a liquidez, conforme o país se recuperava da crise gerada pela covid-19. Alguns indicadores, contudo, já indicavam uma desaceleração da retomada econômica chinesa. As vendas de carros, por exemplo, registraram uma queda anual de 5,1% em junho, após uma sequência de 11 meses em alta.

A economista-chefe do ING para a China, Iris Pang, diz esperar que o corte do compulsório proteja a economia chinesa dos riscos representados pela variante Delta do coronavírus, a "guerra tecnológica" entre Pequim e Washington e a escassez global de chips semicondutores. "A menos que esses fatores de risco diminuam, outro corte de RRR [sigla em inglês para a taxa do compulsório] é esperado no próximo trimestre", prevê a profissional.

O anúncio da redução do corte da taxa do compulsório foi feito no dia 9 de julho. A medida não era tomada desde abril do ano passado. Com o corte de 0,50 ponto porcentual, a média ponderada do compulsório bancário no país ficou em 8,9%. O principal objetivo, segundo o próprio governo chinês, é apoiar pequenas e médias empresas.

"Embora as implicações práticas imediatas do corte de RRR sejam pequenas, isso marca uma mudança em direção a esforços mais proativos do PBoC para reduzir os custos de empréstimos", afirma o economista-chefe para Ásia da Capital Economics, Mark Williams.

Na visão do chefe do escritório de investimentos do Julius Baer, Yves Bonzon, a medida foi resultado de preocupações crescentes das autoridades chinesas com as perspectivas econômicas. "Foi uma clara mudança de uma postura de política monetária mais rígida para conter a alavancagem financeira em direção a uma postura de política mais frouxa para estimular o crescimento", diz.

Dias depois do anúncio, o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, foi a público dizer que o governo não iria adotar medidas de estímulo de forma "exagerada". Como o mercado havia sido pego de surpresa, de certa forma, operadores começaram a especular se as autoridades do país asiático teriam informações de que a atividade econômica estivesse pior do que o esperado.

Os rumores, contudo, não se confirmaram. O Produto Interno Bruto (PIB) chinês desacelerou de um crescimento de 18,3% no primeiro trimestre para uma expansão de 7,9% de abril a junho, mas dentro do esperado. Além disso, as vendas no varejo e a produção industrial avançaram mais no mês passado do que os analistas previam.

Apesar disso, o ING avalia que os riscos para a economia chinesa cresceram. Segundo o banco holandês, embora os dados não tenham sido particularmente "ruins" no segundo trimestre, a indústria automobilística do país ainda está em condições "péssimas". Recentemente, o ING revisou a projeção para o crescimento do PIB da China neste ano de 9,4% para 8,7%, mesma estimativa do Citi.

Taxas de juros

Na noite de ontem pelo horário de Brasília, o BC chinês anunciou a manutenção das taxas de juros de referência para empréstimos de curto e longo prazos, conhecidas como LPRs. A chamada LPR de um ano permaneceu em 3,85% e a LPR para empréstimos de cinco anos ou mais longos ficou em 4,65%. Este é o 15º mês seguido em que as taxas ficam inalteradas.

A maioria dos analistas esperava a manutenção do nível das LPRs, mas havia quem via chances, como o Barclays, de redução das taxas. 

Analistas do TD Securities consideram que um corte da LPR nos próximos meses ainda é improvável, mas dizem que os riscos de uma "flexibilização pequena" da taxa cresceram. A Capital Economics avalia que cortes de juros mais à frente agora parecem mais prováveis.

Para analistas do Barclays, há uma persistência da recuperação "fraca" do consumo na China e o crescimento do setor de serviços não voltará ao nível anterior à pandemia tão cedo.

Em sentido contrário, nos EUA, em meio à discussão sobre o caráter transitório das pressões de preços, o banco central americano iniciou discussões sobre o "tapering", como é chamado o processo de redução gradual das compras de ativos. No mercado, de acordo com contratos futuros acompanhados pelo CME Group, as apostas majoritárias são de uma alta de juros nos EUA já em 2022, mas há divergências de avaliação do cenário entre os próprios dirigentes.

Em 13 de julho, o chefe do departamento de política monetária do PBoC, Sun Guofeng, disse que uma potencial elevação da taxa básica de juros pelo Fed teria impacto limitado nos mercados financeiros da China.

Para analistas do Citi, contudo, ainda que o PBoC reitere que sua política "prudente" não mudou, o corte no compulsório é um sinal de que a instituição reavaliou seus "excessos" no aperto monetário. "Embora o PBoC deseje normalizar sua política monetária antes do Fed, ele também não pode se dar ao luxo de agir muito cedo e rápido", dizem economistas do banco americano.

 

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