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Na contramão do mundo, inflação resiste no Brasil

Presença forte de indexadores nos cálculos de reajustes no País mantém índices de preços em alta

Márcia De Chiara, O Estadao de S.Paulo

29 de agosto de 2009 | 00h00

A inflação brasileira resiste, enquanto a deflação e a estagnação predominam nos índices de preços ao consumidor das principais economias desenvolvidas, como na Alemanha e nos Estados Unidos, refletindo o menor ritmo de atividade nesses países. Essa resistência da inflação em meio à deflação global é atribuída à ainda forte presença da indexação no País, mesmo após um período de 15 anos de estabilidade de preços.O mercado financeiro projeta para este ano inflação de 4,32%, segundo o último o Boletim Focus do Banco Central. No mês passado, a estimativa para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de 2009 era ligeiramente maior e estava em 4,53%. Nem mesmo a deflação "importada" pelos índices de preços por atacado será suficiente para derrubar o custo de vida do brasileiro em 2009. O Índice de Preço por Atacado (IPA) capta especialmente as cotações de matérias-primas no mercado internacional e acumula queda de 4,5% neste ano até agosto."A inflação ao consumidor para este ano poderia ser quase um ponto porcentual menor se não fosse o peso da indexação", afirma o professor da Faculdade de Economia e Administração da USP, Heron do Carmo, que por mais de duas décadas esteve à frente do Índice de Preços ao Consumidor (IPC)da Fipe. Ele calcula que, sem a indexação, isto é, sem o mecanismo de reajuste que atrela os preços à variação de outros preços numa espécie de efeito dominó, o IPC-Fipe projetado em 4,2% para 2009 poderia cair para algo em torno de 3,5%.Só os preços administrados, como energia elétrica, água e outros serviços de utilidade pública, que têm alguma indexação, pesam cerca de 20% nos IPCs, diz o economista.Nas contas da economista do Itaú Unibanco Asset Management, Caroline Silveira, os preços administrados representam 29,5% do IPCA, o índice que baliza o sistema de metas de inflação. Para este ano, ela calcula que os preços administrados no IPCA vão subir 4,20% ante elevação de 4,14% do preços livres e deverão responder por 1,2 ponto porcentual da inflação cheia de 4,2% que ela projeta para o IPCA no ano.Além dos preços administrados, Heron ressalta a indexação que existe nos salários, especialmente no caso de aposentados e pensionistas da Previdência Social. "Os reajustes salariais criam demanda e, com isso, uma certa resistência à redução no nível de preços", diz o economista da USP.Paulo Picchetti, coordenador do Índice de Preços ao Consumidor Semanal (IPC-S) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda com Heron e também aponta a indexação como fator de resistência da inflação no Brasil, apesar da pequena desaceleração apurada nos últimos meses pelos índices de preços ao consumidor."O fato de a crise não ter atingido de forma generalizada todos os setores da economia brasileira blindou os IPCs contra a deflação", observa Picchetti, ressaltando o vigor do setor de serviços. Mas o grande peso nessa blindagem, segundo ele, foi a indexação baseada nos IGPs (Índices Gerais de Preços) do passado. Os IGPs , apurados pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), são usados para reajustar uma série de contratos, como aluguéis, e entram na composição de índices setoriais que atualizam preços administrados. No ano passado, com a explosão dos preços das commodities no mercado internacional, os IGPs dispararam e fecharam o ano beirando 10%. Hoje os IPCs carregam nos preços indexados esse porcentual de reajuste. "Atualmente, os IPCs estão vivendo de reajustes acumulados no passado."Para ele, as políticas anticíclicas do governo a fim de manter a atividade aquecida, como queda dos juros, maior oferta de crédito por parte dos bancos públicos, o corte de impostos e o aumento dos gastos do governo, também acabaram sustentando a renda e dando uma certa resistência à demanda e ao nível de preços.BOA NOTÍCIA"A boa notícia para a inflação virá em 2010", diz Picchetti. A deflação acumulada neste ano pelos IGPs em razão da queda dos preços de matérias-primas no mercado internacional indica que os preços administrados serão reduzidos no ano que vem por causa da deflação. De acordo com a FGV, todos os IGPs deverão fechar este ano com variações negativas.Com isso, o impacto da deflação global vai chegar ao bolso do brasileiro só ano que vem. Caroline Silveira, do Itaú Unibanco, espera uma forte desaceleração dos preços administrados em 2010. Ela calcula uma alta em torno de 2,5%, depois desse grupo de preços ter aumentado 4,2% este ano.

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