Douglas Gavras/Estadão
Willian Eder Dos Santos, separador de itens em loja de produtos orgânicos, que conseguiu emprego durante a quarentena Douglas Gavras/Estadão

Na contramão do resto da economia, setores essenciais aceleram contratações

Para dar conta do aumento da demanda causada pela pandemia do coronavírus, empresas como supermercados, hospitais e farmácias têm concentrado as ofertas de postos de trabalho

Douglas Gavras , O Estado de S.Paulo

29 de março de 2020 | 05h00

Em meio à crise causada pela pandemia do novo coronavírus, que deixou o brasileiro em quarentena e promete provocar mais desemprego, empresas que são parte de setores essenciais (como supermercados, hospitais e farmácias) estão contratando. Para dar conta da maior demanda, esses negócios vão na contramão do resto da economia.

Desde a semana passada, é como se todo dia fosse feriado para o comércio de diversas cidades brasileiras: com lojas fechadas, exceto os serviços essenciais. Com a maior parte das pessoas em casa e com o que não é considerado de primeira necessidade sem funcionar, as novas oportunidades de emprego se concentram nos setores de alimentação e saúde.

O ex-feirante Willian dos Santos, de 30 anos, comemora o emprego novo, de separador de itens orgânicos. “O momento é triste para todos nós, mas, como tenho uma filha, ter conseguido emprego fixo agora foi muito bom”, diz.

Juntas, as redes Carrefour, GPA e Big devem contratar quase 11,5 mil pessoas – entre vagas temporárias e efetivas. Só o Carrefour abriu 5 mil postos em todo o País, temporários e efetivos. Segundo a varejista, a necessidade de contratações ocorre pela maior busca por itens de alimentação, artigos de higiene e limpeza. A intenção é reforçar as equipes de atendimento.

Segundo o vice-presidente de Recursos Humanos do Grupo Carrefour no Brasil, João Senise, todo o processo de contratação será digital, exatamente para cumprir os protocolos para evitar a contaminação. “Vivemos um momento atípico e queremos contribuir para que todos tenham oportunidades de trabalho”, diz o executivo.

“Conseguir um emprego já é bom, mas, neste momento, parece ainda mais importante”, conta Gisele Costa, de 22 anos, que trabalha como operadora de caixa desde terça-feira em uma unidade na zona sul de São Paulo. “Agora, trabalhar em supermercado é também alertar as pessoas, pedir para evitarem aglomerações e apoiar os clientes idosos que não têm quem faça compras por eles.”

O Big é outra rede que vai reforçar a equipe. A empresa abriu mais de 500 vagas, desde operador de caixa a repositor, para as unidades e centros de distribuição, com processo seletivo digital. “A tecnologia é uma opção, até para tornar a seleção menos desgastante”, diz a diretora executiva de RH, Cátia Porto.

Reforço

As empresas também tentam substituir os funcionários com mais de 60 anos, no grupo de risco da Covid-19, que devem assumir outras funções.

Para reforçar o time durante o período de maior procura nas lojas físicas, de bandeiras como Extra e Pão de Açúcar, e nos canais online, o GPA fez o cadastro de currículos para seleção de mais de 5 mil temporários. Eles vão trabalhar por 30 dias, que podem ser prorrogados.

Rodolpho Tobler, coordenador da Sondagem do Comércio do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), pondera que o movimento de contratações tende a ser pontual, acompanhando a alta nas vendas dos primeiros dias de quarentena. 

“No varejo, supermercados e medicamentos têm se saído melhor do que outros segmentos, como os de eletrodomésticos e roupas, o que se reflete nas contratações. Esse movimento de empregar mais, porém, não deve ser sustentável pelos próximos meses, a não ser que a quarentena se prolongue muito.”

As varejistas no Brasil seguem o movimento de empresas pelo mundo. Em meio à pandemia, o Walmart, maior empregador privado dos Estados Unidos, prometeu contratar 150 mil trabalhadores temporários. A rival Amazon abriu 100 mil vagas.

Mesmo fora das grandes redes, há contratações. Fundador da Raízs, serviço de venda e entrega de produtos orgânicos, Tomás Abrahão conta que o número de pedidos quadruplicou nas últimas semanas. A empresa dobrou o número de colaboradores e vai contratar mais. “Não dá para ficar feliz com a situação atual, mas temos um papel importante a cumprir.”

Saúde

Somados, cinco hospitais de São Paulo e do Rio têm mais de 3 mil vagas, para ajudar a suprir a demanda. A linha de frente do combate à covid-19 no País, o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, vai chamar 1.426 temporários – 509 deles para o hospital de campanha no estádio do Pacaembu. 

Além dele, abriram seleções o Hospital São Camilo (216 vagas) e o A.C. Camargo (130 postos), em São Paulo, o hospital público Ronaldo Gazolla (841 temporários), no Rio, e a rede D’or (400 vagas), nas duas cidades. / COLABOROU MÁRCIA DE CHIARA

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Frente a vírus, autônomos buscam saída

Professores adotam aulas pela internet e oferecem descontos; aplicativos também mudam negócio para enfrentar efeitos da pandemia

Douglas Gavras, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2020 | 05h00

Quando a professora de ioga Valéria Serafim, de 35 anos, começou a dar aulas em seu estúdio e na casa dos alunos, há 12 anos, jamais imaginou que enfrentaria um confinamento como agora, por conta da pandemia do novo coronavírus. Dona de um espaço na zona sul da capital paulista, ela disse ter se preocupado quando alguns alunos avisaram que não poderiam manter as aulas durante a quarentena. 

“É uma mudança que mexe com todo o nosso planejamento, mas é preciso ser flexível. Ofereci um desconto para o mês em que o aluno quiser voltar a ter aulas presenciais, quando toda essa confusão passar.” Até lá, ela decidiu que não ficaria parada: montou aulas pela internet para os alunos que quisessem continuar com os exercícios. “O que não dá para fazer é esperar as contas começarem a se acumular.”

A quarentena imposta a milhões de brasileiros na última semana mudou a rotina das cidades e afetou diretamente os trabalhadores autônomos e informais, um grupo que só cresceu desde a recessão de 2015 e 2016 e que geralmente está ligado a serviços que não são considerados de primeira necessidade – que são deixados de lado pelo consumidor ou até impedidos de continuar funcionando.

O professor de educação física Renato Costa, de 31 anos, também precisou se adaptar. Quando a academia em que é sócio na Grande São Paulo teve de interromper as atividades, ele aproveitou o grupo de alunos no WhatsApp para montar aulas de zumba por Skype. “As pessoas têm de ficar em casa agora, isso não se discute, mas a demanda existe e minha família conta com esse dinheiro.”

Dados de emprego, detalhados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mostram que o fluxo de trabalhadores que migraram da informalidade para a formalidade, que havia caído de 17% para 13,1% entre 2014 e 2018 (antes e depois da recessão), voltou a subir no ano passado, para 13,7%. 

O crescimento no número de trabalhadores por conta própria, no entanto, foi de 2% ao ano nos últimos quatro anos. Para o sociólogo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, a tendência é que os trabalhadores autônomos e informais sejam profundamente afetados pela paralisação da economia. Na última semana, a Câmara aprovou um auxílio de R$ 600 para os informais – valor maior que os R$ 200 propostos inicialmente pelo governo.

“O momento é grave e é preciso pensar em mecanismos de proteção universal, para os formais, com extensão do seguro-desemprego, e renda universal para todos os informais e para quem está no Bolsa Família.”

Mudança

No caso das empresas, algumas também precisaram mudar para enfrentar os efeitos da pandemia. O aplicativo de mobilidade Garupa é um exemplo. Vendo o número de passageiros cair drasticamente desde o início da quarentena, a empresa resolveu adiantar o lançamento do serviço de entrega de produtos, que só começaria a funcionar em seis meses.

Agora, eles entregam de carro e moto a compras de supermercados. Os motoristas, que antes levavam passageiros, passaram a receber os pedidos de compras e vão buscar os produtos nos supermercados. 

“Com muita gente trabalhando de casa, tivemos uma queda de quase 80% no número de corridas de passageiros”, diz Marcondes Trindade, do Garupa. “Tivemos de acelerar o lançamento do serviço de delivery e o investimento em outras áreas, de cerca de R$ 300 mil, acabou transferido para esse projeto.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Dólar em alta e efeito pandemia fazem fábrica apressar investimento

Fabricante de eletroportáteis Mondial vai investir R$ 47 milhões para nacionalizar produção de itens vindos China

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2020 | 05h00

A disparada do dólar e a insegurança no fornecimento regular de produtos importados da China, provocada pela pandemia do novo coronavírus, aceleraram os planos de nacionalização dos eletroportáteis da Mondial, maior fabricante brasileira de liquidificadores, ventiladores e cafeteiras, entre outros itens.

A companhia está investindo R$ 47 milhões, de recursos próprios, na ampliação da capacidade de produção da sua fábrica instalada em Conceição do Jacuípe, no Recôncavo Baiano. Lá, serão produzidas batedeiras, caixas de som e ventiladores de grande porte usados em comércios e igrejas, por exemplo. Até agora, esses itens eram importados da China. A fabricante vai também estrear na produção de cooktops e estuda a nacionalização de outros eletroportáteis, que atualmente compra do gigante asiático.

“A alta do dólar, que diminuiu significativamente a diferença de custo entre o produto nacional e o importado, foi o principal fator”, afirma o sócio-fundador da empresa, Giovanni Marins Cardoso. Mas ele admite que o efeito do coronavírus trouxe à tona a questão da maior segurança de se produzir localmente. E, na reta final, esse motivo apressou a decisão de dar prioridade à produção doméstica.

Ao justificar o anúncio de investimentos em expansão de capacidade da fábrica em um momento em que outras indústrias paralisam a produção, dão férias coletivas e ameaçam demitir por causa do baque provocado na economia em razão da pandemia do novo coronavírus, Cardoso afirma que está atento a um horizonte mais à frente. “A situação que estamos vivendo hoje é passageira e, quando faço investimentos, estou olhando para o médio e longo prazos.”

O executivo ressalta que o mercado potencial do País é enorme – há 18 milhões de domicílios que ainda não têm um liquidificador. E que também os produtos que fabrica cabem no bolso da população mais pobre, o que, de certa forma, dá mais segurança para enfrentar períodos de crise.

Além disso, lembra que seus concorrentes diretos ou são empresas menores com pequena capacidade de investimento ou são multinacionais, que dependem das matrizes e tendem a olhar o copo meio vazio em momentos de turbulência. “A minha visão é sempre do copo meio cheio, apesar de tudo”, diz o empresário, que, mesmo com o impacto do coronavírus, espera ampliar as vendas em dois dígitos este ano. 

Cardoso acredita que o mercado deve voltar ao normal a partir de junho, depois da queda nas vendas registrada nas últimas semanas por causa da proibição de funcionamento de lojas físicas para conter o contágio do vírus. O que está garantindo algum faturamento neste momento é o comércio online e os supermercados, que podem funcionar.

No ano passado, a empresa faturou R$ 2 bilhões. No último trimestre de 2019, a fabricante respondeu, em média, por 36% das vendas totais de eletroportáteis em número de unidades no varejo, segundo dados de reconhecidos institutos de pesquisa. 

“O bolo (mercado) este ano pode ficar menor, mas a nossa fatia vai aumentar”, diz Cardoso, que tem como uma das metas, ao investir na nacionalização, ampliar a sua participação nas vendas totais do setor. Com as novas linhas de produtos, a fatia de itens nacionais na empresa deve subir de 55% para 65%.

Emprego

Para dar conta da produção local de quatro novas linhas de eletroportáteis, a companhia comprou, da China e Coreia, 20 injetoras para produzir toda a parte plástica dos eletroportáteis. As injetoras devem chegar ao País dentro de três a quatro meses. Vão ocupar uma área nova da fábrica da Bahia, que está sendo ampliada para abrigar essas máquinas.

A expansão da fábrica, incluída no pacote de investimento, será em duas etapas. A primeira, já em andamento, é de 6 mil metros quadrados. A segunda, de 12 mil metros quadrados, está prevista para o segundo semestre.

Conforme forem implantadas as novas linhas de produtos, a empresa vai começar a recrutar trabalhadores. Ao todo, a previsão é admitir 215 trabalhadores efetivos, que vão se juntar aos 2,4 mil funcionários da fábrica da Bahia. A empresa tem outra unidade em Manaus (AM), onde tem 900 funcionários.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.