Paulo Liebert|Estadão
Paulo Liebert|Estadão

Na crise, empresas de bolsas de estudo ganham mercado

Após cortes nos programas públicos, como o Fies, mercado privado se mobiliza para evitar evasão de alunos num cenário difícil para a economia

Dayanne Sousa, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2016 | 21h50

A crise no financiamento estudantil oficial – por meio de programas como Fies e ProUni – está animando o mercado privado de companhias especializadas em oferecer bolsas e descontos em universidades. Companhias como a Quero Bolsa, a Neora e a Educa Mais Brasil estão sendo contratadas pelas instituições de ensino, que destinam a elas uma parte das vagas a serem preenchidas. Na prática, essas empresas reúnem em um único lugar os descontos oferecidos pelas redes educacionais.

Esses negócios devem crescer cerca de 50% no primeiro semestre de 2016, na comparação com igual período do ano passado. A expansão reflete a disposição de grupos de educação de buscar as próprias soluções para a escassez de recursos do governo, que sustentaram por vários anos o crescimento do setor.

Fundada em 2012, a Quero Bolsa tem 400 faculdades parceiras e viu o número de vagas saltar 45% no ciclo de matrículas deste início de ano ante 2015. “A partir do momento em que o Fies foi cortado de forma brusca, as companhias de ensino superior estavam com grande capacidade instalada e precisando de alunos”, comenta o diretor financeiro da Quero Bolsa, André Narciso. “Junto com isso, os alunos ficaram mais sensíveis a preço.”

Outra companhia que reportou crescimento semelhante foi a Neora, cuja captação de alunos com bolsas e descontos aumentou 56% na comparação anual. Sócio da Neora, Marcus Zillo vê ainda uma mudança no comportamento dos grupos de educação este ano, por causa das mudanças no Fies.

As faculdades e universidades passaram a ofertar os descontos antes do que seria esperado. De acordo com ele, esse comportamento tem o lado positivo de evitar uma corrida nos últimos dias dos processos de matrícula, o que acaba atraindo alunos mais preocupados apenas com o preço e que, na visão do setor, têm maior chance de desistir do curso.

Já o Educa Mais Brasil registrou crescimento de 30% nas matrículas deste primeiro semestre, ofertando descontos que variam de 30% a 70%, segundo a diretora de expansão e relacionamento da empresa, Andréia Torres. Mais uma vez, o crescimento está relacionado à redução do Fies.

Cenário nebuloso. Pela frente, o cenário de desemprego tende a continuar pressionando a capacidade das companhias de educação de atrair novos alunos, enquanto o Fies deve continuar pesando negativamente.

Analistas do BTG Pactual dizem, em relatório divulgado neste mês, que os ajustes já adotados em 2015 no Fies foram significativos e minimizam o risco de novos cortes. O volume pequeno de novas vagas, porém, tem exigido esforços por parte das empresas.

Segundo as companhias especializadas em bolsas, os aumentos de preço estão menores, e a redução no tíquete médio ainda ocorre por uma maior procura por cursos mais baratos.

“As faculdades não se dedicaram muito no passado a entender a demanda por ensino superior porque, com o Fies, tinham demanda garantida”, afirma Narciso, da Quero Bolsa. “Agora, estão começando a entender que o aluno é sensível a preço.” Para ele, os grupos de grande porte estão se adaptando rapidamente ao cenário, enquanto pequenos correm mais risco de ficarem com vagas ociosas.

Troca. Sobre a oferta de cursos, Zillo, da Neora, vê uma retomada em segmentos de menor custo. “Um curso de Gestão de Recursos Humanos ganha mais demanda que um de Administração”, explica.

Já a Educa Mais Brasil aponta que Ciências Contábeis e Serviço Social estão no topo da lista dos cursos mais procurados no canal de matrículas com descontos.

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