FELIPE RAU/ESTADÃO
FELIPE RAU/ESTADÃO

Na crise, o ‘jeitinho’ é compartilhar

Para reforçar renda, profissionais de diversos setores se associam a símbolos da economia compartilhada, como Airbnb, Uber e BlaBlaCa

Fernando Scheller, O Estado de S. Paulo

13 de março de 2016 | 03h00

Na hora da crise, uma das lições da cartilha da economia compartilhada - gerar renda ou criar valor de ativos já existentes - está sendo aprendida rapidamente por brasileiros que precisam esticar o contracheque até o fim do mês ou gerar renda nova.

Conectando-se por meio da internet, profissionais das mais diversas áreas tentam ganhar dinheiro com ativos que antes permaneciam sem uso: os assentos do banco de trás do carro, o tempo disponível para cuidar dos animais de estimação dos outros ou até a própria casa.

Ícones da economia compartilhada como o Airbnb (de acomodações), o Uber (transporte urbano) e o BlaBlaCar (caronas) crescem rapidamente no País. No caso do Airbnb, há 60 mil quartos ou imóveis de brasileiros anunciados na plataforma. Já o Uber registra um crescimento do número de motoristas no País da ordem de 30% ao mês. Enquanto isso, o BlaBlaCar, que só está há três meses no País, já contabiliza 12 mil rotas cadastradas a partir da Região Metropolitana de São Paulo, onde o serviço começou a atuar.

Investimento. Enquanto para alguns a economia compartilhada pode ser um jeito de arranjar um dinheiro extra, outros já veem as plataformas como um potencial negócio. É o caso de Rosemary e Renata Roperto, mãe e filha que foram pioneiras do site Dog Hero, em que pessoas comuns se oferecem para hospedar cães em suas casas. As duas já faturam cerca de R$ 4 mil por mês com a atividade. Hoje, morando em um apartamento em Pinheiros, em São Paulo, cogitam mudar para uma casa para expandir a atividade.

Parte do dinheiro recebido do Dog Hero é aplicado para viabilizar a mudança. A grande arma para angariar clientes, diz Renata, são as avaliações positivas no site - a autorregulação, que expurga fornecedores e clientes mal quistos, é outro princípio da economia compartilhada. “Gastamos muito em produtos de limpeza e criamos diferentes ambientes na casa, para que os cães fiquem sempre entretidos. E também temos uma regra de ouro: os cachorros nunca, em hipótese alguma, ficam sozinhos.”

Tempo livre. Outra família que está apostando todas as fichas na economia compartilhada é a de Cláudia Pavani e André Oliveira Harding. Pais de um filho de 1 ano, ambos trabalhavam como representantes comerciais para laboratórios farmacêuticos antes de se tornarem motoristas do Uber. Claudia foi a primeira a se aventurar pelas ruas de São Paulo, em 2015. “Tenho um horário mais flexível. Saio às 7h, deixo o meu filho na escola e termino meu dia às 16h, quando está na hora de buscá-lo”, conta.

André começou a usar o segundo carro da família na plataforma do Uber no início deste ano, após ser demitido do emprego. Cláudia diz que a renda diminuiu, mas a qualidade de vida aumentou. “Já temos nossa casa quitada e sabemos o quanto precisamos ganhar todo mês. Se atingimos nosso objetivo, ficamos tranquilos.”

Ir e vir. Sem a intenção de ganhar dinheiro, mas sim de reduzir gastos com deslocamento, o programador Thiago Yumoto se cadastrou no site BlaBlaCar. Ele viaja 164 quilômetros por dia - 82 quilômetros por trecho - entre São Vicente, no litoral paulista, e a capital. Depois de seis anos viajando de ônibus fretado, Yumoto começou a vir de carro para a capital há seis meses. Só que o custo com combustível e pedágio subiu a R$ 1.250 - o dobro do que ele gastava com o ônibus. “Com o BlaBlaCar, consigo até três passageiros por dia”, conta. Hoje, além de não ficar preso ao horário dos fretados, ele reduz o desembolso para chegar ao trabalho quase a zero.

O programador conta que não tem dificuldades em arranjar candidatos para fazer o caminho entre o litoral e São Paulo, pois só uma empresa de fretamento tem 120 ônibus que vêm à capital diariamente. Aos que se candidatam a fazer a viagem com ele, Yumoto oferece duas opções de destino: as estações de metrô Barra Funda e Santos Imigrantes. A partir desses locais, os “caronas” são orientados a usar o transporte público até o destino final.

Novas experiências. No Airbnb, a maior parte dos anfitriões costuma alugar um apartamento que está vago ou até ceder o próprio quarto para um hóspede temporário. No entanto, o operador do mercado financeiro Rafael Visconti está usando o site de locações temporárias para conhecer os diferentes aspectos da cidade de São Paulo. Ele aluga seu apartamento em Moema e usa o dinheiro - R$ 180 por dia - para locar outras acomodações na capital, de diversos preços, descobrindo como é a vida em outros bairros paulistanos.

Carregando uma mala de roupas, desde dezembro, ele está vivendo uma existência nômade. Neste mês, instalou-se em uma confortável casa no bairro do Sumaré. “Como preciso ir ao escritório todos os dias e deixei de usar carro, a proximidade do metrô é importante”, diz Visconti. “Esses imóveis abrem outras possibilidades para a minha vida. Agora mesmo, em um fim de semana, posso convidar vários amigos para almoçar, pois moro em uma casa e tenho espaço para receber mais gente.”

 

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