HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO
HÉLVIO ROMERO/ESTADÃO

‘Na crise, o negócio é ficar quieto’

Sócio relevante da Alpargatas e do Banco Pan, o investidor Silvio Tini diz que crise acaba com os referenciais para fechar bons negócios

Entrevista com

Silvio Tini, investidor

Cátia Luz e Mônica Scaramuzzo , O Estado de S. Paulo

28 Setembro 2015 | 03h00

 Silvio Tini de Araújo já foi a pedra no sapato de boa parte dos controladores das empresas em que já investiu ou ainda investe. Conhecido por ser um acionista ativista, embora rejeite o termo, está sempre disposto a interferir nas estratégias das companhias e já comprou boas brigas nos conselhos para fazer valer a sua posição. 

 Na Alpargatas, dona das Havaianas e controlada pelo grupo Camargo Corrêa, o investidor impediu, por exemplo, que o caixa da empresa fosse unido ao do grupo majoritário e exigiu o pagamento de dividendos trimestrais, em vez de anuais.

Habituado a investir seu próprio dinheiro, Tini figura hoje na lista dos 100 brasileiros mais ricos do Brasil, segundo a revista Forbes, com uma fortuna estimada em R$ 1,34 bilhão. E dá de ombros quando questionado sobre o “segredo” para ganhar dinheiro. “Sorte só aparece para quem trabalha.”

Além de ser um dos principais sócios da Alpargatas e do Banco Pan, que pertencia ao apresentador Silvio Santos e desde 2011 está nas mãos do BTG Pactual, Tini também tem, por meio da sua holding Bonsucex, participações relevantes em companhias como Vanguarda Agro, produtora de commodities como soja e algodão; Paranapanema, processadora de cobre; grupo Azevedo & Travassos, especializado na construção de gasodutos; a mineradora Buritirama; além da Bombril e fazendas.

Em cinco décadas de atuação no mercado, o investidor – que não revela a idade por nada – colecionou acertos, mas também derrotas, que, segundo ele, viraram experiência e servem para “você não cair em balela, em conversa fiada”. 

Um dos erros, diz, foi sua aposta nas empresas de Eike Batista, que o levou a um prejuízo de cerca de US$ 100 milhões. Outro tombo foi investir na bolha da internet, no início dos anos 2000, o que resultou numa perda de US$ 10 milhões. Por essas e outras, ele prefere não dar conselhos. Só diz que, em momentos de crise como a de agora, o melhor a fazer é não fazer nada. “Tem de ficar quieto. Crise é oportunidade? Crise é oportunidade para se ferrar!”. A seguir, os principais trechos da entrevista ao Estado.

O dólar bateu recorde de valorização na semana passada. O mercado diz que o Brasil está barato. Agora é o momento para se investir na Bolsa?

Em momento de crise há muita confusão. A coisa pode variar de 1 para 10. Hoje tem uma distorção de tal maneira que não dá para saber o que está caro e o que está barato. Depende de sua disposição de fazer negócio e do seu ponto de vista. A nossa visão é fazer negócio de longo prazo. Para nós, estaria barata a Bolsa. Para quem quer especular somente, está cara. A curto prazo, pode cair mais e o dólar pode subir muito mais. 

Onde investir na crise?

Tem época que você precisa ficar parado, porque macaco que pula muito toma chumbo. Na crise, vender dólar é um mau negócio. Comprar também. Vender ação é um mau negócio. Comprar também. Se vender fazenda, vai vender barato. Tem de ficar quieto. Tem gente que fala que nas crises há grandes oportunidades. Oportunidade de se ferrar!

Pensando em um horizonte maior, quais setores podem ser promissores?

Banco. Itaú e Bradesco são bons exemplos. Não vejo concorrência para eles. Para banco menor, vejo o pior para todos.

Mas o sr. é acionista do Banco Pan.

Ele está se reestruturando e os meninos do BTG (controlador do Banco Pan) dão aval para o negócio. Acredito que, a partir de 2018, comece a dar dividendos. Fui acionista de uns dois ou três bancos (entre eles, o BCN), e eles quebraram. Decidi comprar um banco quebrado para ele se recuperar.

Quais outras empresas são consideradas boas?

Do nosso portfólio, vejo a Alpargatas com bons olhos. Distribui dividendos de seu capital de três em três meses. A Alpargatas não tem nada a ver com o grupo Camargo Corrêa (que está na Operação Lava Jato, que investiga corrupção na Petrobrás). Eles são só controladores. Não tem mistura nenhuma (Tini brigou para o controlador não juntar o caixa da fabricante de sandálias ao do grupo). Eu fui a garantia de todos os acionistas. Eles têm o controle e nós dois assentos no conselho de administração e dois no conselho fiscal.

Em 50 anos de carreira como investidor, que erros o senhor destacaria?

Investi em todas a empresas do Eike (empresário Eike Batista, dono do império X, que ruiu), o que me deu muito prejuízo (estimado em cerca de US$ 100 milhões). Estava investido principalmente na OGX. Cheguei a ser o terceiro maior acionista. Isso foi um negócio que eu não poderia ter feito porque conhecia a história dele, lá detrás, desde Paranapanema (da qual Tini é sócio). Não entrei no lançamento das ações, quando todos foram. E depois de tudo (as perfurações de petróleo que não vingaram), pensei que o ativo poderia ser valorizado.

Dessa história, qual foi o seu aprendizado?

Entrei quando estava em baixa porque achei que tinha petróleo. Como não ter petróleo? Ele tirou gente da Petrobrás, a Anglo American colocou US$ 5 bilhões no negócio! Como não acreditar?

O que te levou para a Bolsa?

Eu sempre fui fascinado por ações. As pessoas que trabalhavam na Bolsa eram muito respeitadas. Mas o mercado é aquilo mesmo que se vê em filmes (citando O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese).

Qual foi seu primeiro baque no mercado?

Quando era operador da Bolsa (nos anos 70), saí aplaudido quando recomprei todas as ações da Paranapanema (o investidor tinha, nesse caso, uma motivação emocional: a processadora de cobre, que começou como empreiteira e chegou a ser estrela da Bolsa, teve início com dois tratores do seu pai). Perdi tudo. A empresa entrou em concordata. Coloquei toda herança deixada pelo meu pai no negócio. Foi a primeira grande besteira na vida.

O sr. busca empresas na baixa?

Não. Invisto na Alpargatas há 47 anos. Na Paranapanema, há quase 45 anos. Sou turrão. Não saio da Paranapanema. Metade de tudo que ganhei nas outras empresas, perdi lá. Não gosto de vender. Meu objetivo chama-se dividendo. Não corro atrás de pechincha. Compro com a esperança de que a empresa se recupere. Não sou especulador. Quando meu pai morreu, meu irmão me obrigou a vender as terras, porque nosso pai acreditava que íamos perder dinheiro administrando as fazendas. Investi em Itaúsa e Paranapanema. 

O sr. se considera um acionista ativista?

Já me compararam com esse pessoal. Mas não sou ativista: sou presente nos investimentos que tenho. Não vou entrar em negócio para ser um minoritário qualquer. Foco em empresas que tenho mais participação, para ter maior ingerência. 

O sr. investe em ações “blue chips” (de primeira linha)?

Eu gosto de Petrobrás e Vale, por incrível que pareça. Como é que você não vai acreditar nessas empresas?

E tem ações dessas empresas?

Tenho só para dizer que tenho.

Como manter o equilíbrio neste período turbulento de crise ética, política, econômica?

A crise ética é a pior. Daí, tiro a experiência dos meus 50 anos (de carreira). Tem de ter mais o pé no chão. Com o tempo, você percebe que as crises são previsíveis. É que ninguém acredita que vai ter. Mas a crise é perfeitamente previsível.

E o que aconselha um investidor a fazer?

Não dou conselhos de investimentos. Ganhar dinheiro é um negócio muito complicado. Na crise, vá pescar. 

O senhor falou dos erros. Mas quais foram os grandes acertos?

Você pode ter menos acertos do que erros, porque os grandes acertos dão lucro. Quando o Banespa quebrou, eu tinha ações. Fiquei como o maior acionista e, quando ele foi vendido para o Santander, ganhei. Alpargatas também foi uma boa escolha: tem caixa alto e bons produtos. Comprei a maior parte das ações quando ela estava quebrada, na década de 90. Hoje, é uma empresa redonda, capitalizada e que exporta marca.

A Bonsucex tem o controle da mineradora Buritirama, que comercializa manganês. Quais são os projetos para a empresa?

Na Buritirama, planejamos um porto no Pará para exportar minério e grãos e importar fertilizante. A empresa (que tem o filho de Tini, João Tini de Araújo, como diretor) poderá buscar sócios no futuro. A licença demorou cinco anos para sair. Há conversas com as grandes tradings que atuam no Brasil (Bunge, Cargill e ADM) e há possibilidade de associação para uma futura ferrovia do grão. Estou comprando mais área. A mineração tem de encolher. Os preços estão abaixo do custo de produção. 

Qual a projeção de aporte para o porto no Pará?

Entre US$ 800 milhões e R$ 1 bilhão. Em até um ano terei um grupo com as multinacionais.

O sr. está reduzindo custos na Buritirama? Demitiram?

Sim, a duras penas (custos). Nossos custos têm que cair à metade. Não dá para manter todo mundo. Tem ajuste (não diz quanto).

E em suas outras empresas? Dá para ganhar dinheiro?

Acho. No longo prazo. A Azevedo & Travassos, embora pequena, é uma das poucas que podem fechar contrato com a Petrobrás (por não estar na Lava Jato). Na Bombril (que está em uma fase turbulenta), acredito que pode melhorar se houver mudança do controlador. A Vanguarda está mais ou menos equacionada. O positivo é que tem um patrimônio de 100 mil hectares das melhores terras do País

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