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Na crise, a indústria global se movimenta

A última reunião do Fundo Monetário Internacional, no fim de setembro em Washington, foi marcada por um extremo pessimismo quanto à evolução e perspectivas da crise mundial. Desde então o pessimismo recuou em alguma medida, com dados melhores nos EUA e na China. Na Europa, as decisões tomadas avançam no encaminhamento na questão do euro, embora estejamos longe da solução definitiva. Acho que os pessimistas terão de esperar um pouco mais para testar suas hipóteses.

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h07

Na crise, a indústria global está se movimentando. Podem-se observar pelo menos dois conjuntos de transformações: a aceleração de mudanças tecnológicas e certa revisão e realocação nas cadeias de produção.

Não será a primeira vez que uma crise induz e consolida inovações, ameaçando modelos estabelecidos de produção e de negócios, ao mesmo tempo em que se abrem inúmeras oportunidades. Não tenho a pretensão de realizar qualquer tipo de análise abrangente, mas diria que os avanços mais importantes estão ligados a área de energia e materiais, sustentabilidade, tecnologia da informação, mobilidade e redes, além da redobrada busca de eficiência produtiva.

Na área de energia, a grande novidade é a decisão de avançar em fontes renováveis, especialmente nos biocombustíveis de segunda geração (que estão muito próximos de se tornarem comerciais, como o diesel proveniente do caldo da cana), a energia solar e a energia eólica. A crise internacional vai atrasar um pouco a ampliação dos dois últimos programas porque subsídios ao investimento e a produção serão em partes reduzidos. Entretanto, em regiões como o Vale do Silício e outras, o número de empresas trabalhando nas melhorias de custos sugere que as novas fontes estão mais próximas de se tornarem competitivas. A segunda frente na questão da energia está na conservação, especialmente por meio das lâmpadas LEDs e de computadores e máquinas mais eficientes no consumo de energia. Finalmente, na área de combustíveis fósseis tradicionais a forte inovação tecnológica permite a produção de petróleo em águas ultra profundas e o gás natural de rocha ("shale gas"), que está produzindo uma revolução na oferta americana e uma queda no preço de mercado.

Os avanços na biotecnologia e na nanotecnologia são em parte responsáveis pela produção de novos materiais, como solventes, plásticos degradáveis e outros. Materiais compostos (plásticos reforçados com fibra de carbono) e cerâmicos serão utilizados crescentemente na indústria aeronáutica.

Na área da tecnologia de informação os enormes avanços na mobilidade (telefones, tablets e outros aparelhos pequenos, mas poderosos, bem como seus respectivos softwares), nas redes sociais e na computação em nuvem (definida com a possibilidade de colocar em um grande centro de computação programas e arquivos de qualquer porte, e acessá-los de qualquer lugar que se esteja) estão produzindo uma revolução ainda em sua fase inicial. Apenas imaginamos suas consequências, mas certamente a operação de empresas industriais está sendo afetada.

Nesta área a possibilidade de construção de redes inteligentes afetará a vida nas cidades e os modelos de produção e distribuição de diversos segmentos. Um exemplo que começa a se expandir são as redes inteligentes de distribuição de energia elétrica que permitem que unidades possuidoras de painéis solares possam ser não apenas consumidores de energia, mas também vendedores dela em certos momentos.

Ao lado da mudança tecnológica, existe certa revisão e realocação nas cadeias industriais. Nas cadeias de suprimentos ("procurement"), a busca frenética por redução de custos levou muitas companhias a operarem com estoques mínimos e a dependerem de uma única fonte de suprimento. Entretanto, dois grandes casos tiveram um forte impacto e estão levando a certa revisão nessa estratégia. Falo aqui das terras raras e dos impactos dos acidentes ocorridos no Japão em março.

Existe uma enorme dependência da exportação de terras raras da China. O que assustou a indústria foi o fato que o governo chinês suspendeu por vários meses as licenças de exportação, obrigando as indústrias consumidoras a se utilizar de seus estoques, que naturalmente se reduziram. As terras raras são um conjunto de minérios (lantânio, cério, praseodímio, gadolínio, térbio, promécio, etc) de baixo consumo em volume, mas absolutamente insubstituíveis na produção de super ímãs, fabricação de componentes de motores de avião, memórias de computador, CDs e TVs em cores. No limite, um bloqueio do comércio destes produtos pararia uma boa parte do parque industrial global mais moderno. Como consequência, muitos países e empresas passaram a estudar a possibilidade de produção de alguns destes minérios, como, por exemplo, a Vale.

O triplo desastre no Japão em março revelou uma enorme dependência da indústria, especialmente a automotiva, de certos pequenos chips (indispensáveis ao funcionamento dos veículos modernos) de plantas localizadas no Japão. Com isso, a cadeia internacional de suprimentos foi seriamente afetada, por um período. Apenas como exemplo a produção automotiva americana caiu pesadamente em maio, sendo um dos elementos contribuintes para a perda de crescimento do PIB daquele país no primeiro semestre deste ano. No Brasil, a falta de suprimentos levou a Honda a demitir metade do corpo funcional e reduzir a produção. Duas consequências ocorreram: 1) muitas indústrias revisaram seus procedimentos elevando estoques de certos insumos para pelo menos três meses de consumo na produção; 2) muitas empresas japonesas voltaram a investir em plantas em outros países como um seguro para evitar uma repetição destes eventos.

A incessante busca por eficiência produtiva está levando muitas indústrias a intensificar o uso de robôs, apesar do desemprego em elevação no mundo. O caso mais estonteante é o anúncio da Foxconn de que vai introduzir o uso de um milhão de robôs em suas fábricas nos próximos anos. No Brasil está se generalizando o uso de robôs em certas áreas das fábricas, especialmente na soldagem. Restrições de caráter ambiental e de proteção à saúde do trabalhador também estão na base desta mudança.

Finalmente, o fato mais notável é que a vantagem de custo da China está se reduzindo tendo em vista a brusca elevação dos custos de mão de obra, que continuarão a ocorrer. Em resposta a isso, vemos três movimentos ocorrendo: 1) a interiorização da produção, onde os menores custos de mão de obra são compensados pela pior infraestrutura; 2) crescimento da produção em países vizinhos, como o Vietnã, Camboja, Filipinas e outros; 3) a recuperação de competitividade em outros lugares, como o México.

Nessa área, o caso mais impressionante é a recuperação da indústria americana, que está se acelerando. Estudo recente do Boston Consulting Group (Made in America, Again- agosto de 2011) mostra que daqui a cinco anos será mais barato produzir certos itens (como autopeças) nos EUA do que importar da China. Além da elevação de salários no país asiático, o dólar fraco, a maior produtividade americana e outros fatores, vão eliminar quase toda a diferença de custos existente até aqui. Na verdade, já hoje é visível o renascimento da indústria americana. Muitas empresas, inclusive brasileiras, já investem lá em plantas industriais.

Acho desolador ver que, enquanto todos estes movimentos acontecem, a agenda industrial brasileira é dominada pelo foco no câmbio, no protecionismo e na extração de outras benesses governamentais, enquanto nossa produtividade não se move e a competitividade do País recua sem parar (é só olhar o Doing Business 2012, do Banco Mundial).  

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOSJOS

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