Helvio Romero/Estadão - 27/1/2016
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'Na crise, o grande risco é o Brasil esquecer que equilíbrio fiscal é o mais importante'

Para o executivo, a pandemia de covid-19 ressalta a importância do papel do Estado e demonstra que o mundo vai continuar a enfrentar crises que não pode prever

Entrevista com

Sergio Rial, presidente do Santander Brasil

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2020 | 16h47

O presidente do Santander Brasil, Sergio Rial, vê como principal risco para o País - que enfrenta os reflexos da pandemia do novo coronavírus e de uma crise política agravada com a saída do ministro Sérgio Moro do governo - o governo deixar de lado a agenda de equilíbrio fiscal. Na visão do executivo, a covid-19 ressaltou a importância do papel do Estado, mas mostrou que as crises virão e serão cada vez mais frequentes.

"As nações que vão poder melhor enfrentar as crises são aquelas com maior equilíbrio fiscal. O Brasil tem de recuperar capacidade fiscal para a próxima crise, que não vai levar 50 anos", afirmou Rial, em entrevista ao Estadão/Broadcast, por videoconferência, para comentar os resultados do banco no primeiro trimestre.

Nesta terça-feira, 28, o banco informou que teve no primeiro trimestre um lucro líquido 10,5% maior que no mesmo período de 2019, atingindo R$ 3,853. 

Ao elevar a oferta de crédito no primeiro trimestre em meio à busca desesperada das empresas por liquidez, o Santander conseguiu, pela primeira vez, ultrapassar a marca de R$ 1 trilhão em ativos totais em sua operação brasileira, encostando, agora em tamanho, nos concorrentes privados.

Somente para empresas, o banco emprestou R$ 70 bilhões a mais. O presidente do Santander no Brasil destaca, porém, que a "marca histórica" é resultado de seis anos de crescimento orgânico no País e não de apenas um trimestre. Leia os principais trechos da entrevista.

De que maneira o novo coronavírus afetou os resultados do banco no primeiro trimestre?

Já vemos redução em condições (de crédito), que é reflexo de um março mais desafiador. Independentemente do aumento do provisionamento que fizemos no ano passado, de R$ 3,4 bilhões, há uma sinalização do aumento das provisões, mas ainda um custo de crédito sob controle. Esses são alguns sinais de como será o balanço em 2020. Agora, tem uma série de outras coisas que mitigaram isso e que têm relação com decisões que tomamos no passado.

Quais?

Eu tinha muito claro na minha cabeça que o ano de 2020 ia ser um dos mais desafiadores da indústria financeira. Nada relacionado com o vírus. Tudo relacionado com a indústria. Primeiro, porque o Brasil começava a retomar o crescimento. Na retomada, depois de uma certa dieta de crescimento por muitos anos, eu via a proliferação e um desejo muito grande da concessão de crédito, a chamada 'vamos bancarizar o Brasil'. A gente via várias empresas com essa estratégia desde o varejo não financeiro estabelecendo braços financeiros, fintechs se transformando em bancos e todo um movimento que levaria a um entorno concorrencial muito mais desafiador, que é positivo. Eu me planejei para esse entorno.

Como?

Cresci menos em cartões no ano passado porque aumentei a regra da exigibilidade da qualidade dos clientes novos. Isso nos permitiu entrar em 2020 com a dimensão cartão de crédito, que conversa muito com inadimplência, em um território muito mais controlado. A segunda grande medida foi a redução de investimento em tecnologia, que pode parecer um contrassenso. Fizemos um investimento nos últimos cinco anos de mais de R$ 6 bilhões e eu achava que havia chegado o momento de um freio de arrumação para que a organização se tornasse mais seletiva. Fizemos uma redução planejada para 2020 de mais de 30% e as áreas beneficiadas foram a de aceleração da digitalização dos canais remotos e a de oferta para empresas. O terceiro aspecto foi dar um salto de automação, principalmente, no canal físico.

O banco também diminuiu seu quadro de funcionários...

A outra medida foi pararmos de contratar a partir de outubro. Fizemos uma parada de contratação e começamos a remanejar equipes internas. Toda empresa tem um certo turnover (rotatividade). Isso fez com que a gente entrasse em 2020 mais leve, focado na área de tecnologia e com PDDs (provisões para devedores duvidosos), apesar de maior, sob controle.

Como está o crédito, considerando a corrida das empresas por liquidez?

Esse é o outro lado da crise. Desembolsamos no primeiro trimestre R$ 70 bilhões a mais para empresas na comparação com o primeiro trimestre de 2019. Isso já é um efeito da crise. Tivemos um aumento de 7,5% na carteira de crédito para empresas e o Santander bateu, pela primeira vez em sua história, um balanço de R$ 1 trilhão. É uma marca histórica que tem sua simbologia e um trabalho de crescimento orgânico.

Como o banco vê o impacto da crise nos próximos meses?

Abril foi um mês desafiador. Já tivemos queda de volume de mais de 35% cartão de débito e crédito, e isso vai ter um impacto importante na receita. No que diz respeito à inadimplência, tomamos a decisão, como todo o sistema, de renovar, reestruturar e prorrogar dívidas, porque acreditamos que a ausência de fluxo de caixa em três meses não necessariamente tem de levar à inadimplência. O que temos de esperar para responder é o impacto do nível de desemprego. Vamos ter um segundo trimestre com queda de receita pela dificuldade do canal físico, que pode voltar a funcionar a partir de maio. Estamos aguardando a deliberação do Estado de São Paulo no dia 11 de maio, outros já estão funcionando 100%, como o Paraná. Abril deve ser o pior mês em termos de receita, com queda de 35% em média.

Como o senhor vê a demanda por crédito na crise?

Vai se estabilizar. Tivemos um aumento importante. Os números mostram que não houve represamento: R$ 70 bilhões a mais para empresas só no nosso caso. Existe liquidez e há desenhos que estão sendo construídos pela equipe econômica e o setor privado para diversos setores. Não tem nada mandatório. Algumas empresas, por exemplo, preferem não aderir ao financiamento da folha de pagamentos porque querem ter a flexibilidade se quiserem demitir. Estamos instruindo, mostrando que custa mais caro que outras linhas, mas tudo é um aprendizado.

Qual a grande diferença dessa crise para outras?

Nunca tivemos Selic a 3,75% e propensão a pagar a prazo. No Brasil, o prazo nas crises passadas era de seis meses. Hoje, falamos em uma carência de seis meses. O Brasil conseguiu chegar em uma maturidade monetária que permite de maneira correta e com prazo dar capacidade a empresas e pessoas físicas de pagarem. São elementos novos de uma crise que nunca vivemos no Brasil.

O banco pensa em ampliar a carência 60 dias?

Sinalizamos 60 dias nesse momento para todos os clientes. Não vamos deixar nenhum cliente que queira e pode pagar sem poder ser assistido. Para alguns, são 60 dias, outros 120 dias e ainda aqueles que terão 180 dias. O que a gente não quer fazer é industrializar, porque isso acaba levando a um automatismo que pode não ser do interesse do cliente. Fizemos algo importante que foi a rolagem automática a partir dos vencimentos do meio de março para pessoas físicas e jurídicas. Mantivemos a parcela e demos mais prazo, o que significa que reduzimos estruturalmente os juros. Porque fazer refinanciamento alterando a parcela é chutar a bola lá para frente. A partir daí, vai depender de cada caso. Ou seja, abrimos mão de receita.

De quanto?

De R$ 200 milhões só com o reempacotamento automático de pessoa física e jurídica, mantendo a parcela e reduzindo estruturalmente os juros.

O crédito consignado pode ser afetado por ações judiciais e decretos que pedem a suspensão dos pagamentos. Como o senhor vê o risco nessa carteira que foi foco do banco nos últimos anos?

A gente tem de separar o funcionário empregado, que vive uma realidade que na média não se alterou. Depois, tem o funcionário com redução de salário; esse a renda se alterou e, no seu caso, é basicamente questão de prazo. Temos ainda a categoria dos desempregados, que faziam parte de um plano de consignado e que teremos de pensar de forma diferente. Para o setor privado de funcionários sem alteração de salário moralmente é discutível dizer que não pode pagar se nada mudou. Na média, não dá para industrializar esse segmento.

Se não bastasse a crise de saúde, o Brasil viu sua crise política acentuada na última semana. Qual a sua leitura do cenário atual?

Acredito muito na liderança da equipe econômica. Tem sinalização correta no sentido da aderência de uma cultura de equilíbrio fiscal. Acho que o grande risco do Brasil agora é a gente esquecer que não há nada mais importante do que o equilíbrio fiscal. A covid-19 demonstrou algo que acredito que fique por bastante tempo: vamos continuar enfrentando crises que não seremos capazes de prever. Tivemos a crise em 2008 que ninguém necessariamente viu nos Estados Unidos e que se transportou para a Europa, em 2010. Em menos de dez anos, temos uma crise que jamais imaginamos que o planeta iria enfrentar. As nações que vão poder melhor enfrentar as crises são aquelas com maior equilíbrio fiscal. E a gente vê exemplos ao lado do Brasil, como Peru e Chile ou o próprio México, com uma capacidade fiscal muito maior. O Brasil tem de recuperar capacidade fiscal para a próxima crise, que não vai levar 50 anos.

E quanto ao papel do Estado na crise?

Espero que tenha ficado clara a importância de termos um Estado, porque o mercado sozinho jamais seria capaz de resolver tudo. Dentro desse contexto está a revalorização do Estado, do Ministério da Saúde e do SUS, que é um sistema com um tripé super bem organizado. O Brasil, sem o SUS, estaria numa situação muito mais caótica.

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