Na crise, 'santo de casa' não faz milagre

Dois terços das empresas que trocaram de presidente em 2014 buscaram seus novos executivos na concorrência, mostra pesquisa

FERNANDO SCHELLER, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2014 | 03h02

Em 2011, o Brasil chegou ao topo da remuneração executiva no mundo - depois do crescimento de mais de 7% da economia no ano anterior, e com as empresas em franco processo de expansão, as ofertas eram fartas e os bônus, agressivos. Desde então, muita coisa mudou: o dólar subiu, deixando o mercado menos interessante para executivos estrangeiros, e a economia neste ano vai ficar perto do zero a zero. E isso afetou bastante a vida de quem disputa os mais altos cargos corporativos do País.

Um estudo da consultoria especializada em remuneração Hay Group, que ouviu mais de 4,7 mil executivos, mostrou que ficou mais difícil ser promovido ao comando de um grande negócio no País. Em tempos de vacas magras, mostra a pesquisa, mais de dois terços das empresas preferem gastar mais e buscar no mercado um novo executivo, de preferência alguém já experimentado na função. O índice de empresas que buscaram executivos de fora para "virar" sua operação em 2014 ficou em 67%; no ano passado, o porcentual era de 43%.

"Em momentos como esses, em que a economia está andando de lado, o passe de um executivo testado, com boa reputação no mercado e capaz de apresentar resultados consistentes se valoriza muito", afirma Henri Barochel, líder da área de remuneração executiva do Hay Group. A empresa mostra que a busca por novos executivos-chefes está aquecida: nos últimos três anos, de acordo com o levantamento, mais de 50% das companhias substituíram o ocupante de seu mais alto cargo.

Virada. Embora o estudo do Hay Group seja referente ao ano de 2014, o diretor executivo da Page Executive, Fernando Andraus, afirma que as demandas das empresas na hora da contratação começaram a mudar há cerca de um ano e meio. Segundo ele, desde meados de 2013, com a economia começando a andar mais lentamente, o perfil do executivo procurado no mercado começou a mudar. Saiu o homem de expansão, que motiva a equipe de vendas e marketing, e entrou o perfil dos números, que põe as finanças em dia e tenta fazer mais gastando menos. Agora, importa menos a alta da receita e mais a última linha do balanço.

A contratação externa está crescendo apesar de normalmente ser uma opção mais cara do que a promoção de uma "prata da casa". Em média, neste ano, os novos executivos contratados ganharam 16% mais do que seus antecessores, de acordo com o Hay Group. Os promovidos, por sua vez, receberam 19% menos. A diferença de remuneração entre as duas saídas cresceu em relação a 2011 e 2012, conforme o estudo.

Nos processos seletivos comandados pela Page Executive, segundo Andraus, o executivo atraído para uma nova companhia costuma ganhar mais do que antecessor em 65% dos casos. Os bônus, no entanto, vêm ficando mais magros - até porque os resultados das empresas estão ficando mais apertados. "Eu diria que, em média, um alto executivo ganha entre 6 e 10 salários de bônus, em média. Hoje, a realidade está bem mais próxima dos seis salários", afirma Andraus.

É por isso, segundo Fábio Saad, gerente sênior da Robert Half, que os executivos que hoje buscam uma nova oportunidade estão dando mais importância para a remuneração fixa do que para os bônus. Quem pode se dar ao luxo de escolher uma nova empresa, diz Saad, tenta também apostar em terrenos seguros. "Hoje, as empresas japonesas, que prezam uma relação de longo prazo com os funcionários, são mais valorizadas do que as americanas, que geralmente têm foco mais no curto prazo."

Razões. Há uma lista de motivos para as empresas mudarem o comando. O mais óbvio deles, de acordo com Marcelo Gomes, sócio-diretor da consultoria especializada em recuperação de negócios Alvarez & Marsal, é uma crise específica da companhia ou de seu setor. "Foi o que ocorreu nas empresas de óleo e gás e, especificamente, nas empresas do grupo do Eike Batista", explica Gomes, que assumiu interinamente a presidência da petroleira OGX. Ele deixou o cargo no fim de 2013.

Outro motivo para a substituição do comandante pode ser uma mudança societária - como fusão ou aquisição - ou a tentativa de um negócio mudar seu perfil de gestão. Para Cristina Nogueira, da consultoria de cultura corporativa Walking the Talk, é quase impossível mudar radicalmente com a promoção de um quadro interno. "Para começar de novo, é preciso trazer alguém com outra visão, sem os vícios atuais do negócio."

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