NA CRISE, VOTOS DE ANO NOVO ESQUECEM 2013

Na Espanha, população sabe que o ano novo será ainda mais difícil do que o que termina hoje

JAMIL CHADE, ENVIADO ESPECIAL/ BARCELONA, O Estado de S.Paulo

31 de dezembro de 2012 | 02h01

Em Barcelona, uma ironia comum entre os cidadãos tem sido a de desejar "Feliz 2014" a amigos e parentes. Não é para menos. Todos sabem que, ao celebrar o ano novo hoje, estarão entrando em um período de maior cortes de gastos, mais desemprego e queda da renda. "Não há como festejar 2013", diz o professor Juan Carlos Martinez.

Ao contrário do que muitos temiam, a Europa conseguiu sobreviver como bloco em 2012 e a desastrosa saída da Grécia do continente não ocorreu. Mas nem por isso a situação melhorou e será justamente em 2013 que muitos dos cortes começarão a ser sentidos de fato para a população de Espanha, Grécia, Itália ou Portugal.

Este ano registrou a volta da recessão para nove dos 27 países do bloco europeu e o desemprego de 10,7% é recorde. Analistas e o Fundo Monetário Internacional (FMI) alertam que muitos só voltarão a crescer em 2014.

Não por acaso, a noite de Réveillon hoje será frugal para muitos no velho continente. Pesquisa realizada no Reino Unido aponta que dois terços dos entrevistados comemorarão a noite de ano novo em casa. Em Portugal, outra enquete feita pelo Instituto de Turismo constata que 96% da população não viajou para as festas de Natal e Ano Novo. O motivo: o corte drástico de salários. Em 2013, Portugal terá seu terceiro ano de recessão.

Os gastos de Natal foram decepcionantes em toda a região. Na Itália, dezembro registra queda nas vendas de 20% em comparação ao Natal passado. Segundo a Codacons - entidade de defesa do consumidor italiano - trata-se do pior Natal em uma década. Na esperança de atrair mais gente para as lojas, autoridades suspenderam a proibição de abertura de lojas aos domingos. Mas não foi o suficiente.

Na Espanha, estudos mostram que muitas famílias optaram por não dar presentes neste ano, enquanto lojas como a gigante Corte Ingles esperan compensar a queda das vendas com os turistas, inclusive brasileiros. Além de redução de impostos para estrangeiros, a loja oferece vale com desconto extra de 10% nas compras. Para atender os turistas, funcionários falam chinês, português e russo.

Na Grécia, que em 2013 entra em seu sexto ano consecutivo de recessão, a redução de gastos com as festas de final de ano chegou a 25%.

O ano que termina foi o da aprovação de cortes drásticos em orçamentos nacionais, na esperança de lutar contra a dívida. Em 2013 essa austeridade será de fato sentida pela população.

Na Espanha, mais de 1,5 milhão de pessoas que eram atendidas em hospitais públicos gratuitamente terão de pagar pela saúde. Novos impostos e redução de salários entrarão em vigor. Em 2013, o desemprego atingirá 6 milhões de espanhóis, 27% da população. Entre os jovens, a taxa se aproximará de 58%.

Segundo a Comision Obrera, o maior sindicato espanhol, mais de 1,1 milhão de famílias não têm renda e, se não encontrarem trabalho no novo ano, ficarão também sem a ajuda social do governo.

Perigoso. Para analistas, 2013 promete ser um ano "perigoso". O temor da Organização Internacional do Trabalho (OIT) é de que, diante dos cortes cada vez mais profundos, a sociedade comece a perder a paciência e a confrontar o Estado.

Em vários países, a desobediência civil já é uma realidade e tende a crescer. Na Grécia, a população optou por abandonar o uso da calefação das casas para não pagar pelo gás, que teve o preço elevado. A solução é a velha lareira.

Em Pamplona, na Espanha, chaveiros fecharam um pacto de não atuar para trocar fechaduras de casas de famílias que foram expulsas por não terem como pagar as hipotecas.

Diante de incertezas sobre o futuro, muitos na Europa buscam a sorte no exterior. O consulado brasileiro em Barcelona emitiu, neste ano, 8 mil vistos de trabalho apenas para cidadãos da cidade, duas vezes mais que em 2011.

Na Irlanda, outro país já socorrido pela UE, 200 mil pessoas emigraram desde 2008, quando a crise começou. Desde meados do ano, são 3 mil saindo do país a cada mês.

Alguns já colocam medidas drásticas como resolução de final de ano. "Em 2011, minha resolução era de que, em 2012, encontraria um trabalho. Agora, minha resolução é de que vou abandonar a Espanha", diz Silvia Gomez, veterinária da região de Barcelona.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.