FOTO ALEX SILVA/ESTADAO
FOTO ALEX SILVA/ESTADAO

Na Dutra, apoio e ajuda aos grevistas

Comerciante cede caminhão-pipa e moradores da região auxiliam acampamento na rodovia

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2018 | 04h00

Ela tinha acabado de descarregar em Taubaté, no Vale do Paraíba, na manhã de segunda-feira, quando a greve dos caminhoneiros começou a parar o transporte na Via Dutra, impedindo a volta para São Paulo. Três dias depois de os bloqueios travarem o abastecimento no País, na fria noite de quinta-feira, a caminhoneira Roseli Mota, de 48 anos, se ocupava como voluntária servindo o jantar para cerca de 250 grevistas acampados no trevo de acesso da Via Dutra a Santa Isabel, a 61 quilômetros da capital.

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“Eu apoio o movimento. Alguém tem de fazer alguma coisa”, afirmou Roseli, diante de uma panela com sopa de mandioca fervente e ao lado de uma travessa de macarrão com molho de calabresa picada. “Vim aqui no acampamento para ajudar o pessoal”, disse ela, paulista, mãe de quatro filhos, habituada a rodar pelas estradas brasileiras, atividade que comemora nas redes sociais.

No começo daquela noite, o acampamento dos caminhoneiros no km 186 mantinha a rodovia aberta aos carros desde que não fossem veículos de transporte de cargas. Sem os caminhões rodando, o movimento na pista da Dutra era tranquilo e moradores da cidade ofereciam doações de mantimentos e até locais para banhos aos colegas de Roseli.

Distribuição de diesel é prioridade

O vereador Luiz Caesa (PR), comerciante de construção civil de Santa Isabel, que tem uma frota de dez caminhões, disse que estava no local para dar apoio aos motoristas parados. “Não é uma questão só deles”, afirmou o vereador, argumentando que foi caminhoneiro por 20 anos. “É uma questão do País”, acrescentou. A região de Santa Isabel é fonte de extração de areia e pedras.

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O vereador Gabriel da Água (PRB), que tem restaurante na cidade, a cerca de 5 quilômetros do acampamento, também foi ao local prestar solidariedade. Levou um caminhão-pipa para abastecer o pessoal com água. “Viemos dar nosso apoio”, disse ele no começo da noite. O vereador planejava colocar seu pessoal na limpeza do local, lavando a pista na manhã seguinte.

Filha de caminhoneiro e moradora da cidade, a balconista de farmácia Elaine Oliveira, 37 anos, também doava seu tempo para os grevistas. “Tem de ajudar”, afirmou Elaine. Ela contou que o apoio tem sido oferecido por moradores também de municípios vizinhos, como “o pessoal da Florestan Fernandes”, a Escola Nacional Florestan Fernandes, de Guararema, conhecido local de formação da militância do PT. “Eles trouxeram arroz carreteiro no local”, contou.

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Para um caminhoneiro, porém, a ordem era manter rodízio no apoio no local. Ele disse que o movimento dos caminhoneiros “não tem partidos” e mostrou o local argumentando que não havia nenhum cartaz ou bandeiras. Durante a noite, carros com bandeirolas do Brasil circularam no local e caminhoneiros simpatizantes da candidatura do deputado Jair Bolsonaro (PSL) defendiam “intervenção militar” no governo. 

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Para o motorista autônomo Anderson Barbosa, 39 anos, 21 anos de profissão, os gastos com o diesel tornaram o trabalho dele inviável. “Já tirei R$ 1,5 mil por semana”, contou. “Agora estou tirando R$ 700”, comparou. Morador de Sorocaba, contou que estava indo carregar em Caçapava e acabou na manifestação.

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A luz da “cozinha improvisada”, mantida por um gerador emprestado pelo vereador da água, já havia apagado às 2h40, quando o caminhoneiro Gleison Fernando, 26 anos, subiu para dormir no seu Scania amarela, rebaixado, comprado em novembro pela Flaitte Neves Logística, empresa criada para ele pela família. Carregado com 30 toneladas de adubo, Fernando disse que o frete do transporte daquela carga seria de R$ 3 mil para percorrer 680 quilômetros. “Está difícil”, reclamou. E contou que paga uma prestação de R$ 6,5 mil mensais e que o bruto bebe diesel como água: faz 3,2 km com um litro de combustível. Mas que, para ficar ao gosto do dono, recebeu “uma carroceria de R$ 26 mil”.

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Perto da meia-noite, o policial aposentado Eduardo Soares, motorista que havia quatro dias estava no acampamento, ligou o motor para não “perder bateria”. De frente para a Dutra, sem ninguém a impedir sua saída do acampamento, ele contou que já havia sido autorizado pelo dono da carga a retornar com o produto. Mas que ficaria enquanto o protesto durasse. Na carroceria, pacotes de sementes de girassol e alpiste, que iriam para quatro pontos de entrega no Rio. “Ja está tudo perdido”, explicou, reclamando do baixo faturamento com o frete pelo custo do combustível, das taxas de pedágio e até da aferição de rádio-amador e tacógrafo, aparelho medidor de velocidade.

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Na parte alta do trevo de Santa Isabel, passaram a noite estacionados também um caminhão carregado com camarão e outro com carnes. “Esses aí, já era”, resumiu um dos líderes do movimento, apontando os caminhões com os produtos perecíveis. Uma carga dos Correios também aguardava no acampamento gramado à margem da Dutra. Um funcionário da empresa, que rendeu um colega à 0h, contou que havia mais dois caminhões presos nos protestos, um em Jacareí, outro em Mogi. “O caminhão de Jacareí é de Sedex”, explicou, dizendo que o serviço de entrega rápida da empresa, naquele caso, estava atrasado. “Era carga para entregar segunda-feira antes da 10h.”

Já era madrugada, com a temperatura caindo, a lua brilhando no céu e os motoristas recolhidos às cabines, quando um dos líderes do protesto, identificado como Betão, se aquecia na fogueira. Foi quando um motorista, responsável por uma carga de alface e que dizia estar já havia dois dias no local, quis saber com quem poderia falar para seguir viagem. Ao encontrar Betão, alegou que tinha filho pequeno em casa, em Itapecerica, que a carga estava para ser perdida e que não conseguia dormir no caminhão. “É possível liberar?”, questionou o motorista que se identificou como Fabiano. Ao lado do fogo, ouviu um não. “Deixa o caminhão aí e volta de ônibus”, respondeu o chefe do protesto. “O carro fica”, encerrou.

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