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Na era do chefe de aço

O culto à resistência física se enraíza entre os executivos

The Economist

29 Dezembro 2015 | 05h00

A disputa está acirrada, mas entre os candidatos a tuíte de negócios mais absurdo do ano, um dos favoritos é, sem sombra de dúvida, a postagem do Fórum Econômico Mundial: “14 coisas que as pessoas bem-sucedidas fazem antes do café da manhã”.

Elas madrugam, garante o artigo citado no tuíte. Malham feito loucas. Vivem intensamente o relacionamento com seus cônjuges. (“Há coisa melhor do que uma transa matutina para energizar a pessoa, preparando-a para encarar o batente?”) Fazem suas camas (coisa que está supostamente associada a um aumento na produtividade). Passam momentos especiais com a família. Cultivam e expandem sua rede de contatos profissionais. Praticam meditação para purificar a mente. E assim por diante. E ainda arrumam tempo para se ocupar de questões sobre seus negócios.

Logo começaram as gozações. Um tuiteiro disse que levaria um mês para dar conta da lista. Outro observou que aparentemente as pessoas bem-sucedidas não tomam banho nem se vestem. Apesar do ridículo da coisa, porém, o tuíte do fórum é indício de um fenômeno real: o culto, cada vez mais disseminado entre o pessoal de Davos, a performances de alto rendimento. No mundo pré-industrial, o comportamento das elites era regido por um código que valorizava o lazer. Na era do capitalismo de fleuma britânica, o importante passou a ser a superioridade que se exercia sem esforço. Agora não há fonte maior de prestígio do que a superioridade que se conquista suando em bicas: o sucesso vem porque o sujeito, mal acorda, está puxando ferro.

As pessoas bem-sucedidas dão importância enorme a acordar cedo. Laura Vanderkam, uma “especialista em administração do tempo”, cujas teses estão por trás do tuíte postado pelo fórum, diz que, num levantamento informal, com 20 executivos, 90% afirmaram acordar antes das 6h em dias úteis. Sabe-se que Brett Yormark, CEO do time de beisebol Brooklyn Nets, levanta às 3h30, e que o despertador de Indra Nooyi, CEO da PepsiCo, toca às 4h. Segundo dizem, Bob Iger, da Disney, está em pé às 4h30; ao passo que Jack Dorsey fica enrolando na cama até as 5h30, apesar de comandar duas empresas, Twitter e Square.

O sol nem nasceu e já é hora de pôr os músculos para trabalhar. David Cush, CEO da companhia aérea Virgin America, começa sua sessão de bicicleta ergométrica pouco depois de acordar, às 4h15. Tim Cook, da Apple, chega à academia às 5h. Por mais intensos que sejam os exercícios, com frequência eles são acompanhados de outras atividades. Enquanto pedala, Cush lê, faz telefonemas e escuta uma rádio esportiva. Em entrevista ao New York Times, Iger enumerou as coisas que faz enquanto se exercita: “Vejo o meu e-mail. Navego pela internet. Assisto um pouco de TV. Tudo ao mesmo tempo”. E ouvindo música.

Como se isso fosse pouco, um número impressionante de executivos vem aderindo aos esportes radicais. John Rost, presidente da seguradora Fiesta Insurance Franchise Corporation, escalou as montanhas mais altas dos sete continentes (os “sete picos”). Em seu tempo livre, Rick Davidson, da imobiliária Century 21, pratica montanhismo, paraquedismo, mergulho e automobilismo, além de pilotar aviões de caça. Rocco Forte, da rede de hotelaria de luxo Rocco Forte Hotels, e Michael Johnson, da Herbalife, estão entre os executivos que participam regularmente dos “Desafios CEO”, em que testam seus limites físicos em coisas como triatlos e trilhas de mountain bike que se estendem por mais de 150 quilômetros.

O culto à performance de alto rendimento é alimentado por um exército cada vez maior de personal trainers e professores de ioga, que ganham a vida ajudando os executivos a aprimorar sua forma física e desestressar. Ursula Burns, CEO da Xerox, por exemplo, tem sessões de uma hora com um personal trainer duas vezes por semana, às seis da manhã. As revistas de negócios estão cheias de matérias que ensinam a pessoa a treinar como os Navy Seals (tropa de elite da Marinha americana) ou a conquistar a “boa forma cognitiva”. As escolas de administração e as “universidades” corporativas competem para ver quem oferece as academias de ginástica mais caras.

Construído a um custo de US$ 300 milhões, o novo centro de treinamento da auditoria Deloitte, perto de Dallas, no Texas, tem uma sala de ginástica de 1,1 mil metros quadrados, com aulas que começam ao amanhecer.

Abusando de substâncias químicas. É possível que o culto à performance de alto rendimento esteja agora ganhando contornos mais preocupantes. Primeiro, deixando de lado questões de privacidade, algumas empresas vêm fazendo experiências com dispositivos usados no corpo, a fim de monitorar os sinais vitais de seus executivos. A Peak Health, provedora desse tipo de sistema de monitoramento, tem entre seus clientes Goldman Sachs, Bank of America e diversos fundos de hedge.

Segundo, um CEO diz que vários de seus pares hoje fazem uso ocasional de estimulantes cerebrais que ajudam na concentração. A tendência deve se acentuar: pesquisas feitas com universitários americanos indicam que um em cada seis estudantes usa estimulantes para passar nas provas, hábito que posteriormente eles talvez levem para suas atividades profissionais. Mais uma vez, o setor corporativo aprende com as esferas esportiva e militar.

É rotineira nas equipes esportivas o uso de aparelhos de biometria para monitorar atletas de elite (e, às vezes, de drogas para impulsionar sua performance). As Forças Armadas vêm realizando experiências com substâncias que ajudam os soldados a continuar em atividade, sem dormir, por longos intervalos de tempo.

É hora de pôr um freio em toda essa hiperatividade, antes que a coisa saia do controle. Não há dúvida que muitos executivos carregam graves responsabilidades nos ombros. Mas tomarão decisões melhores chegando ao escritório exaustos e com o sono atrasado? Trabalhar dia e noite sem parar costuma ser um sinal de que o indivíduo é incapaz de delegar tarefas, não de que é um herói invencível.

A execução frenética de atividades simultâneas – navegar na internet enquanto se assiste à TV ou se escuta música – é receita para a distração, não para uma boa condução dos negócios. E os executivos que veem a si mesmos como super-homens ou supermulheres podem prejudicar suas empresas. Como observou certa vez o guru da administração Peter Drucker: “Uma organização que depende da liderança de um gênio ou de um super-homem não tem futuro. As organizações precisam ser constituídas de maneira a que possam sobreviver sob o comando de seres humanos normais”.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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