Na Europa, cresce temor de 'década perdida'

Para economistas, sintomas da zona do euro já se assemelham aos do Japão nos anos 1990

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2014 | 02h03

Diante da perspectiva de nova recessão na zona do euro, um ano após o fim da última, cresce entre economistas da Europa e dos Estados Unidos o temor de que o bloco caminhe a passos largos para uma "década perdida" - uma ameaça que paira sobre o continente há pelo menos cinco anos. O alerta foi reforçado nesta semana pelo prêmio Nobel Joseph Stiglitz. Em visita à Alemanha, o americano afirmou que a região está sofrendo "depressão econômica" e repete os passos do Japão, que viveu nos anos 80 e 90 um longo período de crescimento raquítico.

A advertência de Stiglitz foi feita em uma conferência sobre Economia na cidade de Lindau, na Alemanha, da qual também participou a chanceler Angela Merkel, artífice da política de austeridade fiscal da União Europeia. Em seu discurso, o prêmio Nobel criticou a estratégia europeia para enfrentar a crise das dívidas soberanas, afirmando que ela resultou em alto desemprego e baixo crescimento econômico. "Nós vemos o preço enorme que a Europa está pagando", afirmou.

Para Stiglitz, os sinais emitidos pela economia europeia lembram o exemplo da "década perdida" no Japão. De acordo com o Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat), de Bruxelas, a zona do euro estagnou no segundo trimestre de 2014, após ter crescido apenas 0,2% no primeiro período. "A Europa está trilhando o mesmo caminho do Japão? Sim", disse Stiglitz, fazendo um diagnóstico duro: "A única forma de descrever o que está acontecendo em alguns países europeus é depressão".

A expressão foi a mesma utilizada pelo jornal The Washington Post, que nesta semana publicou uma reportagem intitulada "Pior do que nos anos 1930: a recessão da Europa é realmente uma depressão". O jornal lembra que a União Europeia ainda não recuperou o patamar de riqueza anterior à crise de 2007, ao contrário dos Estados Unidos.

Segundo Michael Heise, economista-chefe da Allianz SE, autor do livro "Emergindo da Crise das Dívidas Europeias", o diagnóstico de que a situação se assemelha ao caso japonês é pertinente, em especial pela conjunção entre estagnação econômica e deflação. Mas, segundo ele, ainda há meios de evitar a "década perdida". "Os pontos em comum entre as trajetórias econômicas europeia e japonesa parecem incontestáveis", avalia Heise. "À medida do desaparecimento das riquezas e da contração dos salários, o crescimento e o consumo desmoronaram."

Choque. Contribuem para o cenário o alto preço dos ativos imobiliários e financeiros, que despencaram durante a crise das dívidas em diversos países, como a Espanha, provocando um choque para o sistema bancário. "Felizmente", porém, diz Heise, "um tal cenário não tem nada de inevitável em se tratando de zona do euro", porque a necessidade de redução das dívidas em nada lembra a enfrentada pelo Japão, onde o comprometimento das finanças públicas chega 230% do PIB.

Mas, na contramão de muitos analistas, o economista alerta que a adoção de uma política monetária expansionista pelo Banco Central Europeu (BCE) não é uma solução crível. "A Europa não escaparia de uma década perdida de inspiração japonesa se contentando em aumentar a dose de perfusão monetária", diz Heise. "Nenhuma injeção suplementar de liquidez conduzirá as empresas e as famílias endividadas a se endividar ainda mais."

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