Sabine Mirlesse/The New York Times
Sabine Mirlesse/The New York Times

Na Europa, número de falências está em queda livre, o que pode ser um problema

Os governos europeus ampliaram os programas nacionais para socorrer as empresas em dificuldades, mas ajuda pode estar apenas adiando um doloroso ajuste de contas

Liz Alderman, The New York Times

26 de janeiro de 2021 | 10h00

PARIS - O café de Romain Rozier já deveria ter quebrado. Desde a chegada do coronavírus na primavera europeia do ano passado, as vendas neste endereço no norte de Paris, antes disputadíssimo no almoço, tiveram queda de 80%. Os únicos clientes de um dia recente eram um par de entregadores do UberEats e um punhado de pessoas distantes entre si, no balcão, fazendo pedidos para viagem.

“Estamos com os dois pés na cova", disse Rozier, contando os 300 euros (US$ 365) que ganhou no turno do almoço, muito abaixo dos 1,2 mil euros que ele costumava faturar. “A única razão de não termos fechado as portas é o auxílio financeiro.”

A França e outros países europeus estão gastando somas imensas para manter os negócios abertos durante a pior recessão desde a 2.ª Guerra Mundial. Mas alguns temem que essas políticas sejam excessivas: o número de falências está despencando a patamares que não vemos há décadas.

Se o auxílio evitou uma explosão no desemprego, a generosidade corre o risco de transformar fatias inteiras da economia em uma paisagem fantasmagórica, com empresas atoladas em dívidas que não conseguem quitar, mas recebendo ajuda o bastante para seguirem vivas - as chamadas empresas zumbis. Incapazes de investir ou inovar, essas empresas contribuem para aquilo que o Banco Mundial descreveu recentemente como possível “década perdida” de crescimento estagnado causada pela pandemia.

“Em algum momento, temos que parar de depender desses subsídios - caso contrário, teremos uma economia zumbi", disse Carl Bildt, co-presidente do Conselho Europeu das Relações Exteriores e ex-primeiro-ministro da Suécia.

As falências despencaram 40% no ano passado na França e na Grã-Bretanha, apresentando em média queda de 25% na União Europeia. Sem a intervenção do governo, que inclui bilhões em crédito e folhas de pagamento subsidiadas, as falências de empresas europeias teriam praticamente dobrado no ano passado, de acordo com estudo realizado pelo Bureau Nacional de Pesquisa Econômica, uma organização privada americana.

Para o juiz Patrick Coupeaud, da Corte Comercial de Paris, que trabalha há quase uma década com casos de recuperação judicial, a diferença é clara. “Houve uma queda de um terço nas pessoas que me procuram, porque muitas empresas em apuros recebem ajuda do estado", disse ele, indicando com um gesto os salões de mármore quase vazios do tribunal.

Em comparação, os pedidos de recuperação judicial pelo capítulo 11 da lei americana alcançaram no terceiro trimestre o nível mais alto desde a crise financeira de 2010, tendência que deve continuar em 2021, de acordo com um índice compilado pelo escritório americano de advocacia Polsinelli.

O presidente Joe Biden propôs um pacote de resgate de US$ 1,9 trilhão para combater o declínio econômico e a crise da covid-19. Na semana passada, o governo informou que 900 mil americanos tinham dado entrada em novos pedidos de seguro-desemprego.

Essas estatísticas estão definindo um debate a respeito da possibilidade de a estratégia da Europa de proteger as empresas e os trabalhadores “a qualquer custo” ser a base de uma recuperação, ou se isso deixará essas economias menos competitivas e mais dependentes do auxílio do governo quando a pandemia passar.

“Parte das decisões dolorosas só foi adiada", disse Bert Colijn, economista-chefe para a zona do euro no banco holandês ING. Ele acrescentou que haveria um “acerto posterior nas recuperações judiciais” e uma alta no desemprego assim que as medidas de apoio forem encerradas.

Os analistas dizem que programas do governo já estão semeando na economia milhares de empresas ineficientes de baixa produtividade, alto endividamento e grandes chances de moratória assim que os juros baixos forem normalizados.

Estima-se que 10% das empresas da França tenham sido salvas da falência graças a recursos do governo, de acordo com a Rexecode, centro de estudos estratégicos e econômicos francês.

Ainda que doloroso, permitir o fechamento de negócios inviáveis é essencial para permitir a prosperidade de setores competitivos, de acordo com Jeffrey Franks, diretor da missão do Fundo Monetário Internacional na França.

Uma onda de falências “não é necessariamente algo tão ruim", disse ele. “Faz parte do processo normal de criação nas economias em fase de regeneração.”

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico insiste aos governos para que ajustem suas medidas de apoio para garantir uma retomada do crescimento. “O fracasso em fazê-lo pode atrasar a recuperação desviando recursos para ‘empresas zumbis’ e empregos não produtivos", disse a organização em avaliação recente.

A maioria dos governos europeus planejava encerrar o apoio no terceiro trimestre do ano, imaginando que o coronavírus estaria sob controle. Mas uma segunda onda de casos deixou os hospitais cheios, seguida por variações mais contagiosas do vírus, o que levou à prorrogação do auxílio. No fim do ano passado, a União Europeia aprovou um pacote de recuperação no valor de 2 trilhões de euros.

Na França, os investimentos são vistos como forma de comprar estabilidade social e evitar o desemprego em massa. O ministro das finanças, Bruno Le Maire, prometeu manter o auxílio “enquanto durar a crise", estratégia que ele descreveu como conferindo mais “espiritualidade” à economia.

Por enquanto, o auxílio financeiro está evitando o colapso de muitas empresas antes saudáveis cujo azar foi a pandemia. Na Corte Comercial de Paris, o juiz Coupeaud disse que as medidas ajudaram a evitar um efeito dominó ao incentivar as empresas a usar crédito garantido pelo governo e outras formas de auxílio para pagar seus fornecedores e dívidas.

O sistema de recuperação judicial da França é diferente daquele encontrado em outros países, incentivando as empresas em dificuldades a assumirem o problema antes de se tornarem inadimplentes e ajudando na negociação com os credores.

“Os franceses não gostam de usar a palavra falência", disse Dominique-Paul Vallée, juiz do tribunal encarregado de ajudar os donos de negócios a evitar a recuperação judicial. “Preferimos dizer que estamos salvando empresas.” Ele acrescentou que houve um aumento acentuado no número de empresas que o procuram precisando de ajuda.

Rozier é um dos casos em questão. Ele fundou seu café de temática orgânica, Make Your Lunch, em 2016, em um movimentado distrito cultural e de negócios. A ideia fez tanto sucesso que ele abriu um segundo café perto do movimentado Paris Opera.

Quando a pandemia chegou, seus negócios foram paralisados com os escritórios que antes abrigavam milhares de trabalhadores agora vazios, passando a maior parte do ano desocupados.

O governo o ajudou a pagar a maior parte do salário dos empregados, e Rozier recebeu um empréstimo de juros baixos facilitado pelo governo no valor de 30 mil euros cujo pagamento só começa em maio, sendo que o governo estendeu esse prazo em um ano na semana passada. Depois de decretado novo lockdown nacional em outubro, restaurantes como o dele receberam mais 10 mil euros mensais em auxílio direito.

Mas esse dinheiro não compensou os meses de vendas perdidas. “Meu caixa está zerado", disse Rozier, que vendeu o café perto do opera em meados do ano passado e gastou boa parte do empréstimo do governo pagando os fornecedores. Com queda de 80% no público, ele está três meses atrasado no pagamento do aluguel de 4 mil euros, e luta para pagar despesas como a conta de luz e a contribuição previdenciária.

“A essa altura, é grande o risco de eu ter que fechar em questão de dois meses", prosseguiu ele. “Prefiro vender o negócio do que ir ao tribunal de falências.”

Dois amigos dele, também donos de restaurantes, já pediram recuperação judicial. “Muitos mais seguirão o mesmo rumo", disse Rozier. “Disso temos certeza.”/ TRADUÇÃO DE AUGUSTO PACHECO CALIL

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