Na Europa, recessão chega também aos bebês

Crise econômica da região reduz taxa de natalidade e especialistas já se preocupam com a possibilidade de desequilíbrio na previdência

JAMIL CHADE, CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h08

Ester e Vitor estão juntos há seis anos. Eles fazem parte do raro grupo de casais jovens em Portugal em que ambos têm trabalho e renda. Mas, ainda assim, adiam qualquer ideia de ter filhos. Motivo: ninguém sabe o que será da crise europeia e quanto tempo ainda levará para que o continente saia da recessão.

Dados divulgados na semana passada pela Comissão Europeia apontam que a crise não apenas está fazendo contrair a economia do bloco, mas está promovendo uma forte queda da taxa de natalidade. Se a tendência for mantida, será a própria população europeia que diminuirá.

O documento preparado por Bruxelas não pode ser mais explícito em seu título: "A caminho de uma recessão de bebês na Europa?". Os especialistas avaliaram as taxas de fertilidade em 31 países europeus desde o início da crise econômica, em 2008. O resultado surpreendeu até mesmo os especialistas, que se deram conta da relação direta entre a recessão e a queda de nascimentos.

Segundo o estatístico Giampaolo Lanzieri, da Eurostat, as conclusões são "inequívocas". Entre 2008 e 2011, o número de nascimentos na Europa caiu em 3,5%. Em 2008, apenas um país dos 31 registrava uma queda no número de novas crianças. Em 2011, dos 31 países avaliados, a contração era registrada em 26 deles.

Em 2008, 5,6 milhões de nascimentos foram registrados no continente. Em 2011, o número foi de apenas 5,4 milhões. "Primeiro houve uma estagnação na fertilidade", explicou Lanzieri. "Mas, com o prolongamento da crise, agora vemos uma queda substancial na taxa", disse.

Planejamento. A principal conclusão é de que a crise, que destruiu 10 milhões de postos de trabalho e já é a mais longa da história da zona do euro, afetou de forma direta o planejamento familiar dos europeus. Segundo o estudo, não são apenas as pessoas sem trabalho que abandonam a ideia de filhos. Com a incerteza, casais tendem a adiar projetos. "A duração da crise tem um papel importante e, em alguns países, a duração e a profundidade da recessão são sem precedentes", disse Lanzieri.

Segundo especialistas, um país precisa de uma taxa de fertilidade de 2,1 crianças por mulher para que uma população seja mantida estável. Em 2011, porém, a Europa registrou a taxa de 1,5 criança por mulher. Para os especialistas, isso terá uma consequência para as finanças dos países nos próximos anos, quando ficar claro que o envelhecimento da população ameaça aprofundar os desequilíbrios na previdência social.

Ester, uma funcionária da prefeitura de Lisboa, insiste que não tem hoje condições de parar de trabalhar para ter um filho. E, ao mesmo tempo, não teria como bancar os custos de uma criança. "Vamos esperar dias melhores. Ninguém sabe quem terá trabalho ao final deste ano", disse, por telefone, em uma referência aos planos do governo de demitir milhares de funcionários públicos.

Tomáš Sobotka, diretor do Instituto de Demografia de Viena, destaca ainda outra tendência que há alguns anos seria impensável: os países do Norte da Europa têm uma taxa de fertilidade superior aos do Sul, marcados por uma tradição mediterrânea de grandes famílias.

Grécia, Espanha, Portugal e Itália têm, hoje, taxas de fertilidade inferiores às de países nórdicos. Em Portugal, a taxa de fertilidade estava, em 2011, em 1,3 criança por mulher, assim como na Espanha. Na França, a taxa é ainda de 2 crianças por mulher, ante 1,8 na Noruega, 1,9 na Inglaterra e 1,75 na Dinamarca. Em 2008, nenhum país tinha taxa inferior a 1,3 criança por mulher. Hoje, Hungria, Polônia e Romênia estão abaixo desse patamar, considerado crítico.

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