Na hora de se endividar, vale sempre lembrar que é melhor juntar do que gastar

Tenho 52 anos, sou arquiteto e contribuo para a previdência mensalmente com o valor máximo permitido de R$ 783,20. O tempo de contribuição que tenho é de 30 anos. Se me aposentar hoje, o valor do benefício será de R$ 2.122,76 por mês. Pretendo depositar/aplicar o valor integral da aposentaria mais o valor da contribuição mensal de R$ 2.906 até os 60 anos. É vantagem me aposentar hoje? Devo contribuir até os 60 anos para receber o benefício integral? Se não, quando devo me aposentar para aumentar o benefício e considerando aplicação do benefício mais contribuição até os 60 anos?

Fábio Gallo,

25 de junho de 2012 | 03h06

O leitor admite que, para poder aposentar-se na faixa máxima, que hoje está em torno de R$ 4 mil, deve contribuir ainda por um período de 8 anos. Com a contribuição mensal pelo teto quando da aposentadoria ele obterá como benefício adicional vitalício de R$ 1.878 em relação ao que poderia receber hoje. De outro lado, a título de comparação, caso o leitor resolva aplicar em outro tipo de investimento mensalmente R$2.906 ao longo de 8 anos, admitindo-se que obtenha a taxa de 0,2% ao mês acima da inflação, o valor acumulado seria algo como R$ 307 mil. Com base nesse valor acumulado, a partir de sua aposentadoria, caso ele resolva fazer retiradas de R$ 3.000, o dinheiro vai acabar dentro de aproximadamente 8 anos e continuará recebendo o benefício do INSS de R$ 2.122,76 mais os reajustes. Deve ser considerado que continuar contribuindo ao INSS tem suas vantagens porque os benefícios oferecidos são vitalícios. Em outros termos, você receberá R$ 4 mil pelo resto da vida a partir do 60 anos. Mas a decisão não é tão simples. Aqui estamos considerando que as regras da aposentadoria não vão ser alteradas. Lembramos que os cálculos que envolvem aposentadoria são sempre complicados por tratarem de benefícios que envolvem cálculos atuariais. De qualquer maneira, fica o esclarecimento de que os cálculos aqui realizados são estimativos e que ele deve buscar uma agência do INSS para realizar simulações mais pontuais com base em seus dados efetivos.

Uma vez um banco me ofereceu uma Super Poupança. O oferecido era TR + 0,52% por mês. Hoje, revendo meus investimentos, reparei que, para maio, terei TR + 0,51% ao período. Pretendo falar com a gerente da minha conta, mas gostaria de ter uma opinião independente. O fato de eu aceitar o que foi oferecido pelo site é um contrato, um acordo ou nada disso e pode ser alterado dessa maneira?

No meu entendimento, ao aceitar uma oferta que está publicamente disponível, há um acordo entre quem está oferecendo essa condição e quem adere a ela. Como no caso de ofertas de supermercados, concessionárias, etc. Ressaltando que a minha resposta é do ponto de vista de mercado e vale a consulta a um advogado. Caso você sinta-se ludibriado por aquisição de algum produto financeiro, pode protocolar reclamação no "perfil cidadão" no site do Banco Central (www.bcb.gov.br). Por outro lado, vale a pena você verificar com cuidado o que está escrito no site. Consultando os sites de bancos, o que encontro é a oferta de produtos que são contratos de depósitos a prazo, assim constituindo-se realmente em um contrato, com oferta de rendimentos previamente conhecidos e calculados a partir da TR (índice oficial). Os juros são maiores que os da caderneta de poupança. Eu encontrei, também, alertas de que a rentabilidade dos próximos períodos poderá ser alterada, mediante aviso prévio.

Quanto do orçamento nós devemos comprometer em dívidas? Quando vale a pena entrar em dívidas para comprar uma casa ou um carro?

Não há uma porcentagem padrão para dívidas porque as famílias têm renda diferentes, hábitos de gastos diferentes, e, assim, necessidades diferentes. Cada um deve extrair de seu orçamento a sua capacidade de endividamento. Não o contrário, que seria endividar-se e depois descobrir como pagar. A prática indica que, no caso da casa própria - por se tratar de um bem tratado como essencial pelas famílias -, usualmente não devemos permitir mais do que 30% da renda mensal para pagamento das prestações. Para o carro somente realmente o que couber no orçamento, considerando todos os outros gastos que o carro acarreta, como combustível, seguro, estacionamento, etc. A dica é Planejamento Financeiro Familiar. Ou seja, construção do orçamento familiar, considerando todas as receitas e despesas da casa. Isso sempre em bases líquidas, ou seja, no caso das receitas exatamente o que entra no bolso, e para as despesas não esquecendo item algum. Com base nessa organização deve ser verificado em que itens poderá haver economias. Somente endividar-se de valores que realmente cabem no orçamento. Segundo os dados do IBGE, o brasileiro está comprometido com 26,2% da sua renda mensal com dívidas. Isso significa 5,8 milhões de pessoas na classe C e 6,6 milhões nas classes D e E. Outra pesquisa da Boa Vista Serviços aponta que a principal causa de calote é o desemprego (38,3%) e o descontrole de gastos é causa para 24,6%. Uma terceira pesquisa do CNI/IBOPE traz que as pessoas estão endividadas principalmente no cartão de crédito (32%), carnê/caderneta/fiado (28%), financiamentos ou empréstimos (17%), empréstimos com desconto em folha (17%), cartão de loja (16%), cheque especial (5%) e conhecido/parente (3%). Devemos sempre lembrar que é melhor juntar antes de gastar.

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FÁBIO GALLO É PROFESSOR DE FINANÇAS DA FGV E DA PUC-SP

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