Na Índia, um ambiente hostil aos negócios

Empreendedor americano tenta há sete anos tirar do papel projeto de resort no Himalaia

VIKAS BAJAJ, THE NEW YORK TIMES, MANALI, ÍNDIA, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2012 | 03h07

Para John Sims, o Himalaia, com as melhores encostas do mundo, parece o lugar perfeito para instalar o primeiro resort de esqui ao estilo ocidental na Índia. Mas ele teve sua primeira indicação sobre os grandes desafios a enfrentar quando os deuses locais - ou pelo menos os homens santos, que alegam falar por eles - se colocaram contra o seu projeto.

Nos sete anos desde que se habilitou para implementar seu projeto, Sims, um americano incorporador de hotéis com anos de experiência de trabalho na Índia, enfrentou intermináveis contratempos.

Alguns dos oponentes ao seu plano afirmaram falsamente que o projeto, que envolvia 46,5 hectares de terreno, tomaria conta de todo o vale.

Outros alegaram que o incorporador não pagou o valor devido para os proprietários das terras. O Estado de Himachal Pradesh, que antes defendia a proposta de US$ 500 milhões, voltou à estaca zero depois que um diferente partido político assumiu o governo. Agora, um tribunal autorizou a continuidade da obra, mas deu aos incorporadores somente seis meses para obterem as licenças ambientais de um governo que repetidamente tem paralisado o projeto.

"Minha queixa principal é esta: por que nos convidaram?", pergunta John Sims. "Por que aceitaram nosso depósito? Por que nos encorajaram a aplicar dinheiro e depois voltaram totalmente atrás?"

Não é fácil para uma empesa realizar negócios na Índia, com suas tomadas de decisão voláteis e lentas, sistemas judiciários decrépitos e infraestrutura deplorável. Prova disso são os grandes apagões no final de julho, quando as redes elétricas que fornecem eletricidade para metade da população entraram em colapso por causa do verão muito quente e das poucas usinas. O Banco Mundial coloca a Índia em 166.º lugar entre 183 economias em relação à facilidade para abrir uma empresa.

Mas a história do Himalayan Ski Village mostra as dificuldades particulares enfrentadas pelas companhias estrangeiras.

Os indianos têm uma desconfiança enorme de empresas de fora, que tem raiz nos mais de dois séculos de exploração pelos britânicos. Por muitos anos depois de conquistar a independência, em 1947, a Índia restringiu o comércio e investimento estrangeiros, nacionalizou setores como o de bancos e forneceu licenças para conglomerados domésticos. Nos anos 70, os líderes socialistas expulsaram empresas como Coca-Cola e IBM do país.

Depois que o governo começou a amenizar as restrições, há duas décadas, as empresas estrangeiras afluíram para a Índia, e muitas tiveram grande sucesso. A japonesa Suzuki, por exemplo, controla quase a metade do mercado automotivo do país.

Mas a Índia permanece um lugar imprevisível, mesmo hostil, para muitas empresas estrangeiras. Este ano, o Parlamento aprovou um imposto sobre ganhos de capital para transações no exterior envolvendo ativos indianos, ignorando decisão da Suprema Corte que favorecia as empresas estrangeiras. E, em 2011, os parlamentares adiaram uma decisão que permitia a grandes varejistas estrangeiras, como o Walmart, entrar no país.

O investimento estrangeiro direto foi vigoroso em 2011. Mas, nos primeiros seis meses deste ano, ele caiu para US$ 16,5 bilhões, queda de 18% em relação ao mesmo período em 2011, segundo o Reserve Bank of India.

De saída. Algumas multinacionais perderam a paciência. A Etisalat, empresa de telecomunicações dos Emirados Árabes; a Eni, a gigante italiana do setor de energia; e a Fraport, operadora de aeroportos estão ou saindo da Índia ou pensando nesta possibilidade.

"Para os investidores, um ambiente político previsível e estável, ao lado de instituições políticas e legais confiáveis, são primordiais", disse Eswar S. Prasad, economista da Cornell University e membro da Brookings Institution, que assessora o governo indiano. "As mudanças de políticas e o poder doméstico, que transformam projetos financiados por estrangeiros em futebol político, diminuem ainda mais a confiança dos investidores estrangeiros".

A economia da Índia vem desacelerando e se tornando mais dependente do capital externo. O premiê indiano Manmohan Singh está tão preocupado com essa indisposição por parte das empresas estrangeiras que prometeu políticas mais favoráveis. Segundo John Sims, toda ajuda será bem-vinda. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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