Na indústria, futuro parece melhor que o presente

Em maio a indústria de transformação acumulou excesso de estoques, elevada capacidade ociosa e o emprego tendia a cair, segundo a Sondagem Industrial da Confederação Nacional da Indústria (CNI). Mas os pesquisados - 2.010 empresas grandes, médias e pequenas de todo o País - mantinham boas expectativas quanto ao futuro. Resta saber se as respostas refletem mais desejos do que previsões fundadas dos entrevistados.

O Estado de S.Paulo

24 de junho de 2012 | 03h07

Houve, de fato, ligeira melhora da produção entre maio e abril, mas esta se deveu à indústria extrativa, que produziu mais, contratou pessoal e utilizou a capacidade instalada bem acima da média da indústria.

Para um índice que oscila entre zero e 100 pontos e em que porcentuais superiores a 50 significam alta, o indicador de estoques piorou desde março e supera o desejável desde janeiro de 2011. Os estoques são particularmente elevados nas áreas de celulose e papel (61,8 pontos), calçados (60,9 pontos) e fumo (60 pontos), mas também são expressivos em outros equipamentos de transporte, veículos automotores e informática, eletrônicos e ópticos. Estoques altos refletem o excesso de otimismo passado sobre o ritmo da demanda.

As expectativas muito otimistas da indústria já eram percebidas há um ano e persistem agora - o índice deste mês é de 59,1 pontos. Os setores de extração de minerais não metálicos, limpeza e perfumaria, biocombustíveis, farmacêuticos e calçados esperam que a demanda seja forte. E o mesmo ocorre no tocante às exportações, inclusive das indústrias de fumo, couro e artefatos.

A desvalorização do real é a maior estimuladora do otimismo - e é possível que o câmbio continue favorável. Mas cabe indagar se o mercado externo também continuará favorável, tal a gravidade da crise europeia. Importadores que dependem de financiamento poderão ter custos financeiros aumentados em decorrência do rebaixamento da classificação dos bancos internacionais, inclusive aqueles que pareciam imunes à crise.

A indústria brasileira, além disso, não deve contar tanto com o vigor do consumo doméstico, pois os níveis de endividamento geram aversão às compras no crediário.

Que as medidas de estímulo à atividade econômica impeçam um desaquecimento mais forte é normal e já será um resultado bastante satisfatório, haja vista a dimensão do mercado interno brasileiro. Mas parece improvável que o País consiga crescer mais do que 2%, o que já bastaria para afastar ilusões quanto a uma robusta recuperação industrial.

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