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Setor de veículos está 8 pontos abaixo da média histórica Hyundai

Na indústria, só três setores voltaram ao nível pré-crise

De 15 segmentos avaliados pela FGV, 12 operaram com uma ociosidade das fábricas acima da média histórica, o que significa uma retomada ainda muito lenta; para vice-presidente da Fiesp, não há indicativos de melhora para os próximos meses

Márcia De Chiara, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2019 | 05h00

A indústria de transformação brasileira começou o ano em um nível de ociosidade alarmante. No primeiro trimestre, a maioria dos segmentos industriais trabalhou ocupando uma parcela do potencial produtivo das fábricas abaixo da média histórica. Apenas dois de 15 segmentos avaliados, o farmacêutico e o de papel e celulose, usaram a capacidade de produção de suas fábricas em níveis considerados elevados, isto é, acima da média histórica, enquanto a indústria do vestuário registrou ocupação em níveis considerados normais.

 Os resultados estão num levantamento feito pelo Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getulio Vargas (FGV), a pedido do Estado, para saber como anda a ociosidade por segmento. Ou seja, quanto os fabricantes estão desperdiçando do seu capital gasto na compra de máquinas, equipamentos e até para erguer galpões industriais que estão subaproveitados. “Continuamos com muita ociosidade, o que retrata o ritmo lento da economia. Por isso a indústria não tem necessidade de investir”, diz Aloísio Campelo, responsável pelo levantamento.

O estudo mostra que a indústria de transformação usou, no primeiro trimestre, 74,6% do seu potencial. Essa marca está abaixo da média histórica, de 81%. Quando se avalia a ocupação da indústria por categorias de uso, todas utilizaram, no período analisado, uma fatia menor da capacidade produtiva de suas fábricas do que no passado.

A maior diferença entre o nível de utilização da capacidade atual e a média histórica, descontadas as variações sazonais, ocorre nos fabricantes de bens de capital, que no primeiro trimestre estava 10,1 pontos abaixo da média histórica. Em seguida aparecem os bens intermediários (-6,1 pontos) e os bens duráveis (- 4,7 pontos).

Na saída da recessão em 2017, quando o produto interno bruto (PIB) voltou a ser positivo, a indústria teve uma retomada mais rápida, comparada a outros setores. Entre os fatores que alavancaram a retomada estavam o aumento das exportações para a Argentina, a liberação de recursos do FGTS – que foram direcionados para a compra de bens duráveis – e o crescimento do agronegócio, que demandou mais máquinas e impulsionou a indústria do setor.

A partir do segundo trimestre de 2018, porém, o quadro mudou. A greve dos caminhoneiros, a recessão argentina e a incerteza eleitoral tiraram fôlego da recuperação. Campelo acrescenta a esse quadro o enfraquecimento da demanda interna.

Sem arranque

“A atividade produtiva está andando de lado, principalmente na indústria, desde julho do ano passado. A economia está sem dinâmica”, afirma o gerente de Política Econômica da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Flávio Castelo Branco. Recentemente, a CNI cortou a projeção de crescimento do PIB industrial para este ano de 3,3% para 1,1%. Em 2018, o PIB industrial cresceu 0,6%, depois de ter caído 0,5% no ano anterior.

Para Castelo Branco, a economia brasileira saiu da recessão, mas mergulhou num ciclo de semi estagnação por conta do desemprego elevado e das condições financeiras dos brasileiros, que afetaram as vendas e o faturamento das indústrias. “Com isso, hoje as indústrias não precisam ampliar o uso da capacidade instalada”, diz.

Essa folga na capacidade que dispensa investimentos é, na opinião de Castelo Branco, outro fator limitante ao arranque da economia. Isso porque os investimentos em novas fábricas geram contratações e gastos que impulsionam a atividade.

A expectativa, diz ele, era que a atividade começasse o ano em ritmo mais acelerado por causa das reformas previstas. Mas esse processo está mais complexo e demorado. “O tempo político não consegue ter a urgência do tempo econômico.” 

Nichos

O levantamento da FGV mostra que apenas as indústrias de papel e celulose e farmacêutica estão com ocupação da capacidade acima da média. O primeiro está sendo puxado pela celulose, que é exportada e tem competitividade no mercado internacional. “As fábricas estão trabalhando a plena carga e tendo ótimos resultados”, afirma o vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), José Ricardo Roriz Coelho. No caso do setor farmacêutico, o consumo resiste, pois remédio é um produto básico pouco afetado pelo ritmo da economia. 

Outro impacto da ociosidade elevada recai sobre o capital de giro das empresas, observa Roriz Coelho. Quando as indústrias estão com ociosidade elevada, as margens de ganho ficam comprimidas porque as empresas não estão remunerando seus ativos fixos (máquinas, por exemplo). “Descapitalizadas, as indústrias vão ter problemas de capital de giro quando o mercado retomar”, diz.

Saber quando a atividade da indústria voltará a acelerar é a grande incógnita para os empresários do setor. Para o vice-presidente da Fiesp, não há nenhum indicativo de que o mercado vá melhorar nos próximos seis meses. Ele argumenta que os produtos brasileiros têm problemas de competitividade no mercado externo. “A Apex (agência de promoção às exportações) foi desmontada”, diz. Do ponto de vista do mercado interno, o recuo do desemprego depende da aprovação das reformas, acrescenta. “Sem a diminuição do desemprego não tem alta do consumo nem melhora da ocupação das fábricas. É um nó difícil de desatar.” 

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Fábrica atua com turno incompleto e 60% da capacidade

Empresa de Santo André, no ABC paulista, reduziu número de funcionários de 92 para 54 e deixou de operar em dois turnos

Márcia de Chiara, O Estado de S. Paulo

22 de abril de 2019 | 05h00

A Tec Tor, que produz máquinas e equipamentos para siderúrgicas, indústrias de cimento, de papelão para embalagens, usinas de álcool e açúcar e para o setor de mineração, sentiu o baque da economia. A fábrica, instalada em Santo André, no ABC paulista, funciona hoje em um turno incompleto e usa 60% da capacidade de produção. Até 2016, operava em dois turnos. O número de trabalhadores também diminuiu. Eram 92 três anos atrás e hoje são 54. 

Há 32 anos com a empresa, Carlos Nobre, presidente da Tec Tor, diz que nunca viu um cenário tão dramático. “Já passei por várias crises e planos econômicos – Plano Collor, Plano Bresser, Plano Verão. Todos são fichinha perto do que está acontecendo agora.”

O estudo do Ibre/FGV mostra que as fabricantes de máquinas e equipamentos – o segmento no qual a empresa atua – são as que registraram os menores índices de ocupação da capacidade instalada neste início de ano entre 15 setores analisados. Segundo o levantamento, a média foi de 63,8% entre janeiro e março, ante a média histórica de 79,8% do segmento. Como a produção de máquinas e equipamentos está diretamente ligada ao investimento, ela é fortemente atingida quando a economia empaca. 

Dos cinco segmentos com os quais trabalha, Nobre diz não saber qual está pior. O volume de pedidos, que em outras épocas era para dois ou três meses, hoje não chega a um mês. “Estamos em voo de galinha: melhora um mês e piora no outro. Ainda não conseguimos enxergar uma luz no final do túnel”, diz o empresário que, apesar do aperto, continua otimista.

Ele diz que sua empresa não deve para bancos e que está fazendo ginástica para enfrentar os tempos difíceis: continua com a equipe de vendas na rua tentando captar pedidos, negocia com fornecedores prazos de pagamento, ao mesmo tempo em que procura encurtar o prazo de recebimento dos clientes.

O empresário destaca, porém, que a indústria continua financiando o governo com o pagamento de impostos. “No passado, primeiro o empresário recebia dos clientes para depois pagar os impostos. Hoje ele primeiro recolhe o imposto para, lá na frente, receber do cliente.”

Apesar do momento delicado, Nobre diz que vê sinais positivos e que o governo está tentando quebrar paradigmas do “toma lá dá cá”. “Estou com esperança de que, após passarem essas reformas primordiais – Previdência e tributária –, o Brasil comece a entrar na linha. Por enquanto, estamos comendo o pão que o diabo amassou."

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