Na internet, um novo tipo de trabalho

Terceirização de pequenas tarefas pela rede é comum no exterior, mas no Brasil provoca receios por causa das leis tributárias e trabalhistas

RENATO CRUZ, O Estado de S.Paulo

23 Outubro 2011 | 03h07

O trabalho não é mais o que costumava ser. A internet permitiu terceirizar microtarefas para multidões espalhadas pelo mundo, sem vínculo de emprego. A produção social, ou crowdsourcing, é comum fora do Brasil, mas aqui enfrenta obstáculos para crescer.

No Mechanical Turk, da Amazon, existem quase 200 mil tarefas para quem quiser cumpri-las, e receber por isso. Numa delas, o usuário de internet recebe US$ 0,02 para dizer se uma pergunta está bem escrita, se ela faz sentido ou não. Em outra, recebe o mesmo montante para copiar os dados de uma imagem digitalizada de cartão de visitas.

Por aqui é mais difícil. Empresas com projetos de crowdsourcing no exterior relutam em trazê-los para o Brasil, por insegurança em relação à legislação tributária e trabalhista. São poucos os casos de sucesso locais.

Um deles é a Itsnoon, criada por Reinaldo Pamponet, que vende projeto para grandes empresas, como Vivo, Kraft e Santander. Esse projeto se traduz em uma "chamada criativa" à comunidade - traduzida em uma pergunta como "qual é a força do jovem da periferia?" ou "qual o seu jeito de juntar dinheiro".

As pessoas podem enviar textos, imagens, vídeos ou áudios para responder à pergunta, e os melhores ganham dinheiro por isso. Numa das chamadas, por exemplo, cada uma das 30 melhores contribuições ganham R$ 300. A partir delas, a Itsnoon prepara um estudo, um relatório com as melhores ideias, que é usado pelos clientes para elaborar campanhas de marketing e estratégias de mercado.

"Já distribuímos mais de R$ 1 milhão em dois anos", disse Pamponet, que criou a Itsnoon no fim de 2009. "Temos 10 mil jovens conectados em rede." Para escapar da armadilha tributária, os pagamentos feitos pela Itsnoon são de até R$ 400, dentro da faixa de isenção do Imposto de Renda.

Os jovens não cedem os direitos sobre o trabalho publicado no site, e o cliente da Itsnoon usa o resultado da chamada como se fosse uma pesquisa, para identificar tendências. Se quiser usar diretamente uma criação publicada na rede (numa campanha, por exemplo), precisa negociar diretamente com o autor.

"Acreditamos bastante em crowdsourcing", disse Jeni Lima, diretora de Estratégia e Conhecimento do Consumidor da Kraft Foods, um dos clientes da Itsnoon.

A chamada criativa da Kraft terminou há dois meses. "O material que recebemos é muito rico", disse Jeni. "Tem uma riqueza de imagens e materiais que está servindo de base para o trabalho da equipe de marketing e de nossas agências."

Alternativa. A estudante Beatriz Landa tem 18 anos. Ela faz parte da rede da Itsnoon e teve seu trabalho escolhido uma dezena de vezes. Em um ano, recebeu cerca de R$ 1,6 mil. "Uma parte eu guardei na caderneta de poupança", disse ela. "Também comprei uma mesa gráfica, para fazer os desenhos."

Beatriz está no terceiro ano do ensino médio, e se prepara para prestar vestibular. Ela quer trabalhar em design gráfico. Antes de participar da Itsnoon, estava procurando emprego. "Agora a Itsnoon é meu emprego", disse a estudante. "Na área em que quero trabalhar, eles exigem curso superior. Participar da rede é um jeito de trabalhar nessa área, mesmo sem ter faculdade."

Como as chamadas são abertas a todos os integrantes da rede, a participação é voluntária e só os melhores trabalhos são remunerados, não existe vínculo de emprego. Como os participantes não cedem o direito de uso de seus trabalhos, não fica caracterizada a prestação de serviço de redação ou design.

"Como o portal está estruturado hoje, não há uma prestação de serviço dos jovens que participam das chamadas", disse a advogada Flavia Regina de Souza Oliveira, sócia do escritório Mattos Filho. "A Itsnoon tem um modelo muito particular." Segundo Pamponet, muitas pessoas perguntam quem tem o mesmo modelo no exterior. "Ninguém", disse ele. "Nós criamos aqui."

Projetos. Na visão de Marina Miranda, diretora geral da Mutopo Brasil, que oferece consultoria em produção social, as questões tributárias e trabalhistas são hoje o principal obstáculo ao crowdsourcing no Brasil. Apesar disso, o interesse das companhias é grande. "Trabalhamos em vários projetos que começam a chegar ao mercado", disse.

Ela destacou que, com o crowdsourcing, é possível ter acesso a talentos que estão fora do mercado de trabalho, por viverem distantes das empresas ou por terem outras atividades. Apesar desse caráter inclusivo, o crowdsourcing não é uma atividade de responsabilidade social, mas um modelo de grande potencial de negócios. Um estudo internacional, citado por ela, apontou que já foram pagos cerca de US$ 2 bilhões em projetos de crowdsourcing.

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