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Na Irlanda, total rejeição à carne do Brasil

Falta de reação do governo brasileiro ao embargo fortaleceu imagem ruim do produto

O Estadao de S.Paulo

04 de fevereiro de 2008 | 00h00

Thomas Guaine é taxista, Elisabeth Perly é recepcionista de um hotel e Mary é cabeleireira. Poucos conhecem o Brasil, mas todos no interior da Irlanda afirmam com convicção que a carne brasileira não deve ser consumida por questões sanitárias. Nos últimos anos, o governo e produtores irlandeses fizeram uma verdadeira campanha contra a carne brasileira e o tema do embargo se transformou em assunto de conversas de bar. Poucos admitem, porém, que a disputa tem, no fundo, um caráter comercial e baseado em acusações nem sempre científicas.Na semana passada, Bruxelas anunciou a suspensão das compras da carne brasileira depois que o governo não conseguiu entregar uma lista de 300 fazendas que estariam autorizadas a exportar. Sem uma contra-ofensiva de Brasília, a campanha acabou afetando a credibilidade do País. "O Brasil perdeu muita credibilidade, tanto da Comissão Européia como da opinião pública", afirma Kevin Kinfella, representante da Associação de Fazendeiros da Irlanda. "O novo embargo deve dar um jeito nisso de uma vez por todas. Não queremos mais doenças em nossos gados por aqui. Já perdemos muito", afirmou o taxista Thomas, convencido de que sabia de todos os detalhes sobre a suposta crise no Brasil. Elisabeth, perguntada se comeria carne brasileira, sorriu. "Só se não houver mais nada para comer." Desde o início da década, os produtores irlandeses vêm se queixando da concorrência brasileira. Com preço mais baixo, o Brasil abocanhou um mercado que era em parte suprido por britânicos, irlandeses e galeses. Mas, sem um argumento para legitimar a pressão por medidas protecionistas, os irlandeses sofreram perdas.Agora, os produtores irlandeses encontraram na questão sanitária e nas confusões do governo brasileiro o gancho que precisavam para conseguir interromper o comércio do País. Os jornais locais praticamente todos os dias divulgam comentários dos líderes locais sobre os perigos da carne brasileira. Sem uma contra-ofensiva brasileira, o tema chegou à opinião pública. No centro da pequena Dunboyne, o açougue Pat Macken não vende mais carne brasileira. "Sabemos que não é uma questão de saúde. Mas não oferecemos porque as pessoas não estavam comprando, temendo algum problema. A imagem hoje da carne brasileira aqui não é boa", afirmou Morgan, que cuida da loja. Segundo ele, toda a venda agora é de carne produzida localmente. Em seu cartão de visitas, o açougue garante que trabalha apenas com carnes de animais que foram "monitorados toda sua vida". Os produtores não escondem a satisfação com o embargo. Mas continuam alertando que não aceitarão a volta do comércio para as 2.600 fazendas que o Brasil tentou certificar. Os europeus haviam pedido que o País selecionasse 300 propriedades que teriam o direito de vender. Na Irlanda, a visão é de que essas 300 fazendas só devem ser autorizadas depois de uma inspeção. "A idéia é não mais permitir que a Europa aceite a palavra de garantia do Brasil de que a carne é segura", afirmou um lobista europeu que admite que a confusão na entrega das listas pelo Brasil ajudou a criar uma imagem de que não se pode confiar no País. "Vai levar tempo para reconquistar confiança no mercado irlandês", afirmou Kinfella. A Ulster Farmers Union enviou uma carta ao governo afirmando que será "inaceitável" a retomada do comércio antes de uma auditoria nas fazendas brasileiras. O grupo acusa a lista brasileira de conter apenas o nome e o endereço das propriedades. "Não vamos tolerar que a UE imponha um padrão de qualidade para nós e outro para o Brasil", afirmou Kenneth Sharkey, presidente da entidade do Ulster.

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