Na Marginal do Tietê, em SP, o Shopping do Povo

Alexandri Figueiredo não é ambientalista, mas vive de reciclagem. Aliás, talvez a atividade de ambientalista seja uma das poucas em que esse carioca ainda não se aventurou. Como meio de sobrevivência, Figueiredo já dirigiu táxi, vendeu prédios, lançou CDs (segundo ele, o Xote para o Sucateiro, de sua autoria, liderou as paradas de sucesso em Alagoas por várias semanas), foi técnico em refrigeração e eletrônica e, nas horas vagas, até detetive particular. Atualmente, Figueiredo compra os equipamentos de lanchonetes, açougues e padarias que estão falidos. Por R$ 5 mil - nunca mais que R$ 6 mil, - ele desmonta e remove toda a maquinaria do estabelecimento e deixa a área limpa para ser entregue ao proprietário. "Demoramos cerca de cinco dias para terminar o serviço", conta ele, deixando à mostra mãos calejadas. As máquinas - masseiras, cilindros, modeladoras, batedeiras, chapas - são testadas para verificar se funcionam bem e depois revendidas no mais novo empreendimento de Figueiredo: o Shopping do Povo, em São Paulo. O Shopping do Povo é diferente de todos os outros shoppings. Não tem vitrines de vidro nem ar-condicionado e recebe clientes 24 horas por dia. O shopping, na verdade, é um velho caminhão Ford F-600 que fica estacionado às margens da Marginal do Tietê. Por lá, é possível comprar desde macas hospitalares até máquinas industriais de segunda mão. Uma masseira da marca Hipolito com capacidade para 50 quilos e duas velocidades sai por R$ 2 mil, com direito a pechincha. Na loja, diz Figueiredo, uma nova custa em torno de R$ 14 mil. "Eu vendo barato porque compro barato. Reciclagem é o negócio do futuro", diz, acrescentando que seu retorno atinge 100% do valor investido. Alternativa de trabalho O exemplo de Figueiredo retrata as alternativas enfrentadas por trabalhadores e microempresários brasileiros que não conseguem arcar com a pesada carga tributária do País. "Trabalho na informalidade porque eu não teria condições de funcionar se pagasse todos os impostos", afirma ele. Eloqüente, Figueiredo diz que gosta do presidente Lula, mas desistiu da política depois de ter votado no ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1989: "Hoje só quero garantir três refeições por dia com o suor da minha própria fonte". (Colaborou Adilson C. de Carvalho)

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