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Candidatos divergem sobre saídas, mas já discutem a sério ajuste e reformas

Cida Damasco, O Estado de S. Paulo

02 Julho 2018 | 05h00

Mesmo em meio à dispersão de interesses provocada pela Copa e como de costume sob desconfiança, as pesquisas eleitorais poucas vezes foram aguardadas com tanta ansiedade como agora. E fora do circuito eminentemente político. Situação mais do que compreensível, diante das incertezas que cercam a disputa pela Presidência, a pouco mais de três meses das eleições. As incertezas chegam ao ponto de incluir quem vai iniciar a corrida – não apenas quem chegará à vitória.

Espera-se que finalmente o PT ponha na mesa o nome do substituto de Lula – que, preso há três meses, ainda lidera as pesquisas, com cerca de um terço das intenções de voto. No território tucano, todo santo dia aparece alguém com alguma alternativa para substituir Geraldo Alckmin, visto que o ex-governador continua empacado bem abaixo da marca dos 10%. Também há dúvidas se o MDB levará adiante a candidatura de Henrique Meirelles, que não sai do 1% das intenções. 

No meio desse emaranhado, mercados e setores produtivos tentam se animar com os candidatos à disposição e mudam de cá para lá e de lá para cá, a cada vez que aparecem novos indícios nas pesquisas. Já houve entusiasmo com Meirelles, Alckmin e, na falta de perspectivas mais favoráveis para os dois candidatos, até alguma “simpatia” por Jair Bolsonaro (PSL). Sem falar das meteóricas passagens dos outsiders Luciano Huck e Joaquim Barbosa.

A queridinha da vez é Marina Silva (Rede), que ficou tecnicamente empatada com Bolsonaro (com 13% das preferências, frente a 17% do deputado), e à frente de Ciro Gomes (PDT), com 8%, no cenário sem Lula da última pesquisa CNI-Ibope. Embalados pelo resultado, os mercados reagiram bem: a Bolsa subiu 1,6% na quinta-feira e o dólar, depois de um esticão, estabilizou.

Apesar dessas idas e vindas, é a hora de os pretendentes ao Planalto definirem com clareza que economia querem para o País de 2019 em diante. Mais propriamente, qual ajuste fiscal farão e, assunto interligado, quais reformas irão privilegiar. Dinheiro para abarcar despesas obrigatórias e fazer bondades, sabe-se que não haverá. Com um déficit abatido pela metade, no período de janeiro a maio, os investimentos do governo central no PAC, por exemplo, caíram 11% e os específicos no Minha Casa Minha Vida, 22%. 

Tudo indica que a ficha já caiu para a maioria dos postulantes, pelo menos sobre a necessidade de reformas da Previdência e tributária. Um por um, os candidatos vêm consultando o economista Bernard Appy, que estuda mudanças na disfuncional estrutura tributária do Brasil e recomenda uma reforma nessa área na primeira hora do próximo governo. 

Criação do Imposto sobre Valor Agregado (IVA), tributação sobre a distribuição de dividendos, redução de impostos sobre lucros das empresas e, mais polêmica, desvinculação das receitas do Orçamento, são parte do repertório de sugestões.

Em relação às mudanças na Previdência, até o momento Ciro é o que tem avançado mais, apesar de algumas diferenças entre sua fala assertiva e o discurso cuidadoso dos seus assessores, empenhados em não espantar empresários e investidores. A base de sua proposta é o regime de capitalização – cuja viabilidade para o Brasil, em razão dos recursos necessários para o período de transição, foi imediatamente questionada por Persio Arida, coordenador do programa econômico de Alckmin. 

Marina ainda não detalhou seus planos, mas Eduardo Giannetti e André Lara Resende, seus gurus econômicos, já se manifestaram sobre um ponto importante da política fiscal. São contra o teto de gastos, um dos pilares da política de Temer ano 1 – Marina fala em restringir o gasto público à metade do crescimento do PIB, o que daria alguma folga para a economia. Bolsonaro e seus assessores continuam se esquivando de debates. 

Muita água ainda vai correr até que essas propostas sejam afinadas. Mas, pelo menos por enquanto, ninguém se apresenta com um discurso irrealista, que desconsidere entraves fiscais e se escore no argumento simplista do aumento de arrecadação via retomada para melhorar a situação das finanças públicas. Digamos que é um bom começo de conversa.

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