''Na minha opinião, o Brasil nem entrou em recessão''

Ex-ministro está muito otimista, mas se preocupa com impulso dado pela queda da importação, que não vai se sustentar

Fernando Dantas, O Estadao de S.Paulo

12 de setembro de 2009 | 00h00

Para o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos e ex-ministro das Comunicações, "o Brasil nem entrou em recessão". Otimista com o resultado do PIB no segundo trimestre, ele faz uma única ressalva: o resultado foi fortemente impulsionado pelo setor externo, com contribuição significativa da queda das importações (o que aumenta o espaço para a produção nacional). Ele acha que esse fator vai se enfraquecer daqui para a frente, com a recuperação das importações.

O que o sr. acho do resultado do PIB do segundo trimestre?

É um PIB esquisito. A parte boa é que o consumo das famílias surpreendeu para melhor. E o lado que não é tão bom é que a queda das importações, muito maior do que das exportações, acabou fazendo com que o setor externo adicionasse, segundo as minhas contas, 1,3 ponto porcentual do crescimento de 1,9% (no trimestre, comparado com igual período de 2008). O restante 0,6 ponto porcentual foi a contribuição do consumo das famílias.

Qual o problema disso?

Essa queda das importações, na dimensão que ocorreu, não vai se manter. Com o consumo das famílias crescendo mais de 2%, as importações vão começa a subir de novo. O nível de consumo agora está sendo sustentado muito mais com a produção interna do que com as importações, mas, se elas voltam a subir, isso come um pouco da produção doméstica. Isso é que faz com que alguns economistas, inclusive aqui da Quest, achem que o crescimento no terceiro trimestre pode ser até um pouco menor do que o do segundo.

O sr. se preocupa com o fraco nível dos investimentos?

É o último que vai se recuperar. A boa notícia é que, pelos cálculos da Marina Santos, economista da Quest que acompanha a questão, a capacidade ociosa vai se reduzir antes do que a gente pensava. É preciso que isso aconteça para que se tenha investimento. Agora achamos que, talvez entre o primeiro e o segundo trimestre de 2010, a capacidade de produção da economia já tenha sido ocupada, o que é condição necessária para voltar o investimento.

No atual trimestre, não volta?

Acho difícil ainda, porque está todo mundo ainda com fábrica ociosa. Não há dificuldade de entender o que está acontecendo com o investimento - a razão é que se gerou uma capacidade ociosa na economia, e a boa notícia é que vai se fechar mais cedo do que o esperado. Aí o investimento vem.

O Brasil saiu da recessão?

Acho que o Brasil nem entrou na recessão. OK, tecnicamente, saímos, mas, para mim, recessão é um negócio mais longo. O que tivemos foi uma queda no vazio, por causa da crise, mas já voltamos, Tem aquela discussão de mesa de bar de economista, que leva a noite toda, se recessão é ou não dois trimestres de queda, o que é recessão. Em economia, essa caracterização muito linear das coisas não existe. Temos de olhar o que está acontecendo. Se você olhar salário, o crédito - em que a ação dos bancos públicos foi muito importante, compensando o vazio dos privados -, nota-se que houve mecanismos de autocorreção que funcionaram mesmo. Tanto que a massa salarial continua crescendo. Nunca vi recessão em que a massa salarial continua crescendo.

E daqui para a frente?

Vamos retomando, progressivamente, o PIB do ano deve ser ligeiramente positivo, e acho que crescemos 5% no ano que vem. Estou muito otimista com o Brasil. Muito.

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