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Elena Landau
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Na política e também no futebol, populistas enganam as pessoas com promessas vazias

É cedo para avaliar o impacto final sobre a cultura arcaica do nosso futebol, mas a recém-aprovada Lei de Sociedades Anônimas é um recomeço

Elena Landau*, O Estado de S.Paulo

07 de janeiro de 2022 | 04h00

Adoro futebol. Nasci em uma família alvinegra. Meu pai, imigrante romeno, foi remador do Botafogo. Atraído pela estrela solitária, adotou o time. Minha mãe já vinha de uma linhagem antiga de botafoguenses. Eu frequentava o Maracanã desde cedo com meus irmãos, primo, primas e tios. Espremidos em uma Kombi, claro. Como dizem os botafoguenses: fui escolhida.

Fechamos um ano glorioso: de volta à primeira divisão e com a taça na mão. Agora, começa a batalha para se manter na elite do futebol. O resultado de 2021 não veio por acaso. Ele é fruto de uma administração profissional que, espero, tenha enterrado de vez a cartolagem, a politicagem e olho gordo no departamento de futebol que, em regra, afundam os times brasileiros.

É como na política, em que populistas e salvadores da pátria enganam eleitores com promessas vazias. O símbolo maior dessa prática foi Eurico Miranda, mas, como ele, temos dezenas de dirigentes. No meu clube de coração, tem um, tal e qual.

Foi com a esperança de mudar essa cultura que me envolvi com administração de clubes. Comecei há mais de 20 anos. Às segundas-feiras, publicava minhas colunas sobre futebol no site NO.com e no antigo JB. Era a época de transformação no futebol inglês, com a modernização de estádios, criação de ligas e clube-empresas.

Tinha sido diretora de desestatização do BNDES no governo FHC. Vi o impacto, em pouco tempo, da mudança de governança nas empresas privatizadas. Se nas estatais foi possível um choque positivo, por que não tentar o mesmo nos clubes de futebol?

Saí frustrada e voltei para a arquibancada. Muito mais difícil do que privatizar. Os poucos clubes que queriam mudanças esbarraram no forte poder dos cartolas, dos parceiros comerciais, da bancada da bola e dos feudos, que são as federações estaduais. E, acima de tudo, na praga da CBF

Esse ambiente está mudando. A Lei de Sociedades Anônimas do Futebol (SAF), recém-aprovada, já começa a dar resultado, atraindo investidores privados para clubes, como Cruzeiro e Botafogo. É cedo para avaliar o impacto final sobre a cultura arcaica do nosso futebol, mas é um recomeço. Diferente do clima de duas décadas passadas.

Participei de um evento sobre profissionalização de futebol. Eurico Miranda estava na plateia, e não me deixava completar uma frase. Diante da insistência, pedi que se identificasse. Ele não esperava por isso, ficou apoplético. Partiu para cima de mim. Literalmente. Foi até divertido. Semanas depois, um taxista me reconheceu. “Você não é a economista que brigou com Eurico?”. Ganhei o dia. 

*ECONOMISTA E ADVOGADA 

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