Na ponta da língua, o sucesso na carreira

Maioria dos executivos não fala fluentemente inglês, o que pode ser empecilho para crescer

LEANDRO COSTA, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2012 | 02h12

Depois de sair do antigo emprego, em uma multinacional de serviços logísticos, e começar a participar de processos seletivos para outras empresas, Dione de Oliveira se deparou com uma barreira: a pouca fluência no idioma inglês. Ela conta que estudou durante muito tempo, mas que em raras ocasiões era requisitada a utilizar o idioma no dia a dia. "Às vezes, eu tinha de redigir um e-mail", diz. Ela conta que, ainda assim, se surpreendeu quando headhunters a alertaram para o fato de seu inglês não ser suficientemente para ingressar em alguns processos seletivos.

Decidida a preencher essa lacuna, ela deixou o País e estudou o idioma por um ano e meio. Hoje, ela está à frente da área de controladoria da ISS, empresa dinamarquesa de prestação de serviços de segurança, entre outros. Na companhia, é a principal responsável pela comunicação (em inglês) com a matriz.

Com o investimento, Dione deixou de figurar no grupo de executivos brasileiros que não fala inglês fluentemente. Um contingente que representa mais de 60% dos gerentes e diretores atuantes no do País.

Estudo realizado pela consultoria Michael Page com 3 mil executivos de média e alta gerência, e que têm salários variando R$ 8 mil e R$ 35 mil, mostra que apenas 37% deles possuem proficiência na língua inglesa.

Protagonismo. Para o diretor da empresa, Leonardo Souza, o baixo índice pode ser compreendido como reflexo de anos de crescimento lento da economia brasileira. "É, em certa medida, natural, pois o protagonismo do Brasil no cenário mundial é recente. É esse protagonismo que atrai investimento estrangeiro e faz crescer a necessidade do inglês no dia a dia. Com certeza, se esse movimento tivesse ocorrido 20 anos atrás, teríamos um retrato totalmente diferente", avalia o diretor.

Souza alerta, porém, que o profissional brasileiro precisa correr para equacionar essas deficiências no domínio do inglês, já que a tendência é que a exigência do idioma seja cada vez maior.

"O Brasil está entrando num contexto internacional interessante, em que os investimentos de capital estrangeiro são maiores e a representatividade do País para empresas internacionais passa a ser maior. A necessidade de interação com profissionais de outros países vai aumentar cada vez mais. E em todos os setores, afirma Souza. Mercados como o de mineração, por exemplo, em que apenas 12% dos executivos dominam a língua, vêm recebendo investimentos maciços do exterior. Então, essa realidade (da baixa exigência do domínio da língua) tende a mudar em setores onde não havia essa necessidade", diz o diretor.

"O executivo brasileiro precisa fazer as pazes com o inglês", reitera o sócio-fundador da Alliance Coaching, Silvio Celestino. Para ele, os profissionais de um modo geral não consideram o conhecimento no idioma tão importante a ponto de buscar espaço na agenda para estudá-lo.

"Participamos frequentemente de conferências telefônicas em inglês e percebemos em várias ocasiões que os executivos não compreendem o que está ocorrendo. E, se já é difícil negociar em português, que dirá em outra língua. Então, assim como eles encontram tempo para se reciclar nas competências de liderança e gestão de pessoas, devem também buscar a reciclagem no inglês", diz Celestino.

O mesmo ponto de vista é defendido pela diretora da Essential Idiomas, Lilian Simões. A escola é voltada para o mercado executivo, "Existe uma certa imaturidade por parte desses profissionais. É como se eles não dessem muita importância para essa ferramenta", diz Lilian. Ela atribui o comportamento a experiências ruins no passado, que fazem com que os executivos corram das salas de aula de inglês sempre que podem.

De acordo com Lilian, não são raros os casos de executivos que deixam as aulas, porque a empresa onde trabalham cortou os subsídios para o aprendizado. "Falta continuidade. Um profissional com idade entre 40 e 45 anos geralmente estudou na infância, depois ingressou numa escola de idiomas, até fez aulas particulares, mas acabou parando e foi deixando esse conhecimento para depois. Então, falta um pouco mais de insistência, que é fundamental para e aprender um idioma", afirma.

Serviços. O estudo realizado pela Michael Page indica que, entre os setores avaliados, o de serviços e comércio possui mais executivos com domínio no idioma (50,1%), em segundo lugar vem a indústria (34,8%), seguida do setor de mineração (12,3%) e do agronegócio (2,8%).

A pesquisa também analisou as carreiras com maiores índices de executivos fluentes no inglês. Marketing lidera o ranking com 54% de profissionais com domínio completo, seguido da advocacia, com 50%. Em seguida, a área de suplemento e logística apresentou indicador de 46%. A área de TI vem logo atrás, com 45%. E, por último, os profissionais de varejo aparecem com 38% de profissionais fluentes.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.